Hoje parece absolutamente normal descobrir uma notícia urgente pela tela bloqueada do celular. Em 2015, porém, o Facebook acreditava que esse hábito poderia sustentar um aplicativo independente. A empresa reuniu grandes veículos, esportes, previsão do tempo e entretenimento em uma experiência que dispensava percorrer um feed tradicional. Bastava escolher seus interesses e esperar. O projeto parecia antecipar parte do futuro dos smartphones, mas teve uma existência surpreendentemente curta.
O Facebook queria que você descobrisse o mundo sem abrir uma rede social

Em novembro de 2015, o Facebook apresentou o Notify, um aplicativo independente desenvolvido inicialmente para iPhone e lançado nos Estados Unidos.
A proposta parecia simples: transformar as notificações em uma maneira de consumir informação em tempo real.
Em vez de abrir o Facebook, entrar em um site ou percorrer um aplicativo de notícias, o usuário escolhia previamente os assuntos e fontes que desejava acompanhar. Quando alguma novidade importante acontecia, ela aparecia diretamente na tela bloqueada do celular.
O sistema funcionava por meio das chamadas “stations”, espécies de canais temáticos aos quais era possível se inscrever.
Havia opções bastante diferentes.
A CNN e a Fox News ofereciam notícias de última hora. A Fox Sports enviava resultados esportivos. O The Weather Channel fornecia previsões meteorológicas. A Vogue destacava celebridades e moda, enquanto o Fandango avisava sobre novos trailers de filmes.
No lançamento, mais de 70 empresas e veículos participavam da plataforma.
E havia uma característica especialmente interessante: o usuário não precisava necessariamente receber tudo o que determinado veículo publicava.
Era possível escolher até o tipo de alerta que deveria interromper seu dia
O Notify tentava resolver um problema que continua atual: notificações demais rapidamente deixam de ser úteis.
Por isso, o Facebook permitia personalizar os assuntos acompanhados.
Alguém interessado em esportes poderia configurar alertas relacionados a equipes específicas. Outro usuário poderia acompanhar notícias de determinada cidade, empresa ou categoria de entretenimento.
O aplicativo também sugeria canais considerando informações do perfil do Facebook.
Quando uma notificação chegava, bastava tocar nela para abrir o conteúdo correspondente no navegador integrado ao aplicativo. Assim, o usuário poderia ler uma reportagem completa, assistir a um vídeo ou acessar diretamente o site responsável pela informação.
Se não fosse possível abrir naquele momento, havia uma opção para salvar o alerta.
O Notify ainda mantinha um histórico com as notificações recebidas durante as últimas 24 horas, criando algo semelhante a um feed construído exclusivamente com acontecimentos recentes.
Também era possível compartilhar alertas por mensagem, e-mail, Facebook e outras redes sociais.
O conceito tinha potencial. Afinal, colocava as informações importantes exatamente onde os usuários já olhavam dezenas de vezes por dia: a tela do telefone.
Mas havia um obstáculo difícil de superar.
Sete meses foram suficientes para o Facebook desistir
Apesar da presença de grandes veículos e da proposta de oferecer informação imediatamente, o Notify nunca conseguiu conquistar um público expressivo.
O aplicativo desapareceu apenas sete meses depois de seu lançamento.
Em junho de 2016, o Facebook informou aos usuários que deixaria de oferecer suporte ao serviço e que algumas de suas funcionalidades seriam incorporadas a outros produtos da empresa.
Um deles era o Messenger.
Naquele momento, o aplicativo de mensagens já possuía uma audiência gigantesca, tornando muito mais atraente levar determinadas ideias do Notify para produtos existentes do que tentar convencer milhões de pessoas a instalar outro aplicativo.
Estimativas da Sensor Tower divulgadas na época indicavam que o Notify havia acumulado somente cerca de 63 mil downloads durante sua curta existência.
Era pouco para uma empresa do tamanho do Facebook.
O problema talvez não estivesse exatamente na ideia das notificações em tempo real. Pelo contrário: os anos seguintes mostrariam que os alertas se tornariam uma parte cada vez mais importante da maneira como consumimos informação.
O desafio era convencer o usuário de que precisava de um aplicativo separado exclusivamente para isso.
O aplicativo morreu, mas sua ideia parece muito menos estranha hoje
Olhando retrospectivamente, algumas características do Notify parecem quase banais.
Aplicativos jornalísticos enviam notícias urgentes diretamente para a tela bloqueada. Serviços esportivos avisam quando começa uma partida ou quando acontece um gol. Aplicativos meteorológicos alertam sobre tempestades e mudanças bruscas nas condições do tempo.
Smartphones atuais ainda oferecem controles cada vez mais detalhados para decidir quais aplicativos podem interromper o usuário.
Em outras palavras, a lógica que sustentava o Notify não desapareceu.
Ela simplesmente foi distribuída por dezenas de aplicativos e incorporada aos próprios sistemas operacionais.
O Facebook, inclusive, já experimentava naquele período maneiras de tornar sua área de notificações mais útil, adicionando informações sobre aniversários, eventos, resultados esportivos, previsão do tempo e acontecimentos locais.
Notify acabou se tornando uma das muitas experiências independentes lançadas pela empresa e posteriormente abandonadas.
Mas seu fracasso guarda uma ironia interessante.
O aplicativo tentou convencer as pessoas de que a notificação poderia se transformar em uma maneira completa de consumir informação. Não conseguiu sobreviver nem um ano.
Uma década depois, basta observar quantas vezes desbloqueamos o celular depois de receber um alerta para perceber que talvez aquela ideia não estivesse completamente errada. O problema pode ter sido transformá-la em um aplicativo separado.
[Fonte: Trecebits]