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Tecnologia

A Meta está preparando uma mudança que pode alterar quem terá poder na era da superinteligência

A corrida pela inteligência artificial mais avançada pode não ser decidida apenas por quem construir o sistema mais poderoso. Uma nova disputa começa a surgir em torno de quem poderá controlá-lo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, a corrida da inteligência artificial foi apresentada como uma competição tecnológica: quem conseguir criar o modelo mais poderoso chegará primeiro ao futuro. Mas existe uma pergunta ainda mais delicada escondida nessa disputa. O que acontecerá quando uma IA superar amplamente as capacidades humanas? Para Mark Zuckerberg, o problema não será apenas desenvolver essa tecnologia, mas decidir como seu enorme poder será distribuído.

A próxima disputa pode ser sobre quem terá acesso

Mark Zuckerberg acredita que parte do debate atual sobre inteligência artificial está concentrada na pergunta errada.

Em vez de discutir apenas o que uma futura superinteligência será capaz de fazer, o CEO da Meta quer colocar outra questão no centro: quem poderá utilizá-la?

Em um manifesto de aproximadamente 6.500 palavras chamado The Future is for Everyone, Zuckerberg defende uma visão bastante distribuída para o desenvolvimento da IA avançada.

Segundo sua argumentação, concentrar uma inteligência muito superior à humana nas mãos de poucas empresas, instituições ou governos poderia criar um desequilíbrio de poder perigoso.

O raciocínio é relativamente simples.

Se apenas uma empresa tivesse acesso a uma IA extremamente superior, poderia obter uma vantagem enorme sobre todas as concorrentes. Se apenas uma pessoa pudesse utilizar um sistema desse nível para resolver problemas jurídicos, científicos ou empresariais, sua capacidade de competir seria completamente diferente.

Já em um cenário no qual bilhões de pessoas tivessem acesso a ferramentas semelhantes, essas vantagens poderiam se equilibrar.

É uma visão que Zuckerberg apresenta como uma espécie de distribuição do poder tecnológico.

Mas existe uma ironia difícil de ignorar: a proposta também combina perfeitamente com a estratégia que a própria Meta vem adotando.

E, no mesmo dia em que o manifesto foi publicado, a empresa apresentou uma peça importante desse argumento.

A Meta quer tirar a IA do data center e colocá-la nos computadores

O novo modelo apresentado pela empresa se chama Muse Glimmer.

Ele possui aproximadamente 30 bilhões de parâmetros e foi desenvolvido a partir do modelo maior Muse Spark. A Meta publicou seus pesos sob a licença Apache 2.0 e afirma que uma versão quantizada pode ocupar menos de 20 GB.

Isso significa que determinados computadores pessoais, Macs e GPUs de consumo podem ser capazes de executar o modelo localmente, sem depender permanentemente de servidores na nuvem.

A característica é importante porque muda a relação entre usuário e IA.

Um modelo executado localmente pode trabalhar com arquivos e informações pessoais sem que todos os dados precisem ser enviados continuamente para uma infraestrutura externa.

Muse Glimmer também foi desenvolvido pensando em agentes capazes de executar sequências de tarefas, utilizar ferramentas, interpretar imagens, programar e tentar novamente quando uma ação não funciona.

Na prática, a Meta está transformando uma ideia política em um produto tecnológico.

Se a inteligência artificial do futuro deve ser distribuída, argumenta a empresa, ela também precisa ser capaz de sair dos grandes data centers e funcionar diretamente nos dispositivos das pessoas.

Mas Zuckerberg não está pensando apenas em privacidade ou acesso tecnológico.

A visão apresentada pelo executivo também envolve uma previsão bastante otimista sobre o impacto econômico da IA.

Zuckerberg aposta que a IA pode criar mais inventores

Um dos pontos mais controversos do manifesto está justamente na maneira como Zuckerberg enxerga o futuro do trabalho.

Ele não ignora a possibilidade de automação e substituição de determinadas funções. Mas acredita que a discussão costuma dar pouca atenção ao outro lado: pessoas utilizando IA para realizar atividades que antes exigiam grandes empresas, equipes especializadas e muito capital.

Nesse cenário, a superinteligência poderia ampliar a capacidade individual de criar.

Pequenas equipes poderiam desenvolver produtos e empresas que atualmente exigiriam centenas de funcionários. Pessoas com poucos recursos poderiam ter acesso a ferramentas que antes estavam restritas a especialistas.

A aposta de Zuckerberg é que a IA poderá fazer com que a invenção seja tão importante quanto a automação.

Para isso acontecer, porém, seria necessário acelerar infraestrutura energética e tecnológica nos Estados Unidos. O executivo também defende menos restrições a determinadas técnicas de desenvolvimento, como a destilação, utilizada para transferir capacidades de modelos maiores para sistemas menores.

Essa visão coloca Zuckerberg em uma posição clara: ele não quer apenas que a Meta participe da corrida pela superinteligência. Quer influenciar as regras que definirão como essa tecnologia será distribuída.

E é justamente aí que começam as maiores dúvidas.

Uma IA para todos também pode significar riscos para todos

Distribuir tecnologia poderosa não elimina automaticamente seus riscos.

Especialistas em segurança de IA ouvidos pela Associated Press alertam que colocar sistemas cada vez mais capazes nas mãos de um número maior de pessoas também pode ampliar as possibilidades de abuso.

Existe ainda uma questão mais difícil: ter acesso à tecnologia não significa necessariamente ter o mesmo poder.

Mesmo que modelos sejam disponibilizados de forma aberta, empresas como a Meta continuam controlando uma parte importante da infraestrutura, dos produtos e do ecossistema necessário para utilizá-los em grande escala.

A proposta de Zuckerberg, portanto, não é apenas uma discussão sobre código aberto ou modelos locais.

É uma disputa sobre a estrutura de poder da próxima era tecnológica.

A grande questão será saber se uma superinteligência deve ficar concentrada nas mãos de governos e grandes empresas, ou se sua capacidade deve ser espalhada por bilhões de indivíduos.

Zuckerberg já escolheu um lado.

Sua aposta é que uma inteligência extremamente poderosa será menos perigosa se não pertencer exclusivamente a ninguém.

E o lançamento do Muse Glimmer mostra que, para a Meta, essa ideia não precisa permanecer apenas em um manifesto: ela também pode começar a ser colocada diretamente nos computadores das pessoas.

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