Imagine abrir o aplicativo do banco para pagar uma conta e descobrir que seu dinheiro está inacessível, sem previsão clara de quando poderá recuperá-lo. Essa situação passou a fazer parte da rotina de milhões de clientes de uma instituição financeira que cresceu rapidamente nos últimos anos. A crise ultrapassou fronteiras, atingiu brasileiros e provocou consequências políticas inesperadas, enquanto famílias tentam descobrir o destino de suas economias.
Banco digital entra em colapso e deixa quase 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro

A crise financeira que atingiu o Paraguai nesta semana ganhou proporções nacionais após o Banco Central do país determinar a intervenção no ueno bank, uma das instituições digitais mais populares do mercado paraguaio.
A decisão foi tomada em 2 de novembro de 2026 e anunciada oficialmente no dia seguinte, depois que os reguladores identificaram problemas graves na situação financeira da instituição.
Segundo o comunicado oficial do Banco Central do Paraguai, o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.
Na prática, isso significa que a instituição não apresentava capital suficiente para atender aos requisitos regulatórios diante dos riscos de suas operações.
O procedimento de resolução suspendeu serviços essenciais, incluindo transferências, pagamentos, cartões e movimentações pelo aplicativo.
A dimensão do problema é expressiva. O ueno bank afirma possuir aproximadamente 2,9 milhões de clientes em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes.
A suspensão das operações provocou filas em agências, manifestações e preocupação entre pessoas que dependem das contas para receber salários, aposentadorias e pagar despesas cotidianas.
O Banco Central afirma que a intervenção busca proteger os depositantes e evitar que a situação comprometa outras instituições financeiras.
Brasileira relata dificuldades e descreve o desespero dos clientes
Entre os afetados estão brasileiros que vivem no Paraguai ou mantêm recursos depositados em instituições financeiras do país.
Uma brasileira ouvida pelo portal g1, em reportagem publicada nesta quinta-feira, 5 de novembro, relatou as dificuldades provocadas pelo bloqueio do dinheiro e descreveu um cenário de preocupação entre os correntistas.
A situação afeta especialmente pessoas que concentram suas economias em uma única instituição financeira.
Quando o acesso à conta é interrompido, despesas comuns podem se transformar em problemas imediatos. Pagamentos de aluguel, alimentação, medicamentos e serviços básicos dependem da disponibilidade de recursos.
Para brasileiros residentes no exterior, a recuperação do dinheiro também pode envolver procedimentos bancários locais, documentação específica e acompanhamento das autoridades paraguaias.
A crise demonstra que a facilidade oferecida pelos bancos digitais não elimina os riscos associados à saúde financeira das instituições.
Mesmo quando os depósitos possuem proteção legal, o acesso aos valores pode não ser imediato.
Quanto dinheiro os clientes poderão recuperar?
Apesar da preocupação, existe um mecanismo de proteção aos depósitos bancários no Paraguai.
O Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante e por instituição, aproximadamente US$ 38 mil.
Segundo estimativas preliminares divulgadas pelas autoridades, cerca de 97% dos clientes do ueno bank possuem saldos dentro desse limite. Isso não significa, entretanto, que todos conseguirão acessar imediatamente seus recursos.
Nesta quinta-feira, 5 de novembro, o Banco Central anunciou o início do processo de pagamento das garantias.
De acordo com o novo comunicado oficial da autoridade monetária, a primeira etapa contempla clientes que atendam simultaneamente a três condições:
– Possuir depósitos totais de até 10 milhões de guaranis.
– Não ter dívidas com a instituição.
– Manter uma conta habilitada em outro banco ou financeira do Paraguai.
Os clientes que atendam aos requisitos poderão recuperar integralmente seus depósitos nessa etapa.
Para os demais correntistas, o cronograma será divulgado progressivamente. Valores superiores ao limite de garantia dependerão dos mecanismos previstos no processo de resolução bancária.
Crise bancária também provocou uma turbulência política
O colapso do ueno bank ultrapassou o setor financeiro porque a instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos paraguaios.
Parte significativa desse dinheiro estava relacionada ao Instituto de Previdência Social, responsável por aposentadorias e serviços de saúde.
A crise também colocou sob escrutínio o presidente Santiago Peña, que manteve investimentos no grupo empresarial ligado ao banco antes de vender sua participação, em março de 2025.
Parlamentares da oposição questionaram possíveis conflitos de interesses e a fiscalização das operações financeiras. Peña negou irregularidades relacionadas aos seus investimentos.
Nesta quinta-feira, o presidente apresentou sua renúncia ao Congresso, em meio à pressão política provocada pela crise. O episódio também levou à saída do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que anteriormente havia dirigido o ueno bank.
Para os correntistas, entretanto, a principal preocupação continua sendo muito mais imediata: recuperar o dinheiro necessário para manter suas atividades e despesas.
A crise mostra como a interrupção repentina de uma instituição financeira pode afetar a vida de milhões de pessoas, mesmo quando existem mecanismos legais destinados a proteger suas economias.