Dois ingredientes comuns da cozinha aparecem em uma receita que promete acabar com os formigueiros do jardim: bicarbonato de sódio e açúcar. A proposta parece simples, barata e rápida. O problema está na garantia de resultado. Não há respaldo nas fontes técnicas consultadas para afirmar que essa combinação elimina qualquer colônia em poucos dias ou impede que as formigas voltem.
A eficácia depende de fatores como a espécie, seus hábitos alimentares e o alcance do tratamento dentro do ninho. Uma redução temporária no movimento das operárias, por exemplo, não comprova que o formigueiro deixou de existir.
O que a receita propõe

A versão publicada pelo Diario Uno recomenda misturar partes iguais de bicarbonato e açúcar de confeiteiro e distribuir o pó perto dos ninhos e das trilhas. O texto afirma que o açúcar atrairia as formigas, enquanto o bicarbonato provocaria alterações digestivas capazes de destruir a colônia.
A reportagem também promete desaparecimento da atividade em três ou quatro dias. Entretanto, não apresenta um estudo que demonstre esse resultado para a mistura, nas condições de um jardim.
Há avaliações técnicas que apontam limites importantes para o uso do bicarbonato. A Texas A&M AgriLife Extension informa que testes de diferentes receitas caseiras, incluindo esse ingrediente, não conseguiram demonstrar controle de ninhos de formigas-lava-pés.
Esses resultados não abrangem todas as espécies nem todas as formulações possíveis. Ainda assim, contrariam a apresentação do bicarbonato como solução universal e definitiva.
Atrair formigas não comprova que a mistura funciona
O açúcar pode servir como atrativo para determinadas formigas. Porém, a presença de insetos ao redor de uma preparação mostra apenas que encontraram uma fonte de alimento.
Segundo a Universidade Estadual de Iowa, iscas desenvolvidas para controle combinam um atrativo alimentar com um ingrediente inseticida de ação lenta. As operárias precisam consumir o produto e retornar ao ninho para distribuí-lo a outros integrantes, incluindo as rainhas.
Esse mecanismo explica por que matar apenas as formigas visíveis pode ter efeito limitado. Grande parte da colônia permanece protegida em locais que o tratamento superficial não alcança.
Além disso, as preferências alimentares variam. Algumas espécies procuram alimentos açucarados; outras respondem melhor a fontes de proteína ou gordura. Até a época do ano pode alterar essa escolha.
No jardim brasileiro, é importante reconhecer as cortadeiras

Quando folhas aparecem recortadas e pequenos pedaços seguem pelas trilhas, o problema pode envolver formigas cortadeiras. Saúvas e quenquéns estão entre os grupos relevantes para o manejo de plantas no Brasil.
A Embrapa orienta que o controle das cortadeiras considere o nível de dano, a quantidade de colônias e as características da área. Entre as ferramentas estão iscas específicas e métodos mecânicos adequados a determinadas situações.
A instituição também destaca o monitoramento frequente e a orientação de profissionais habilitados para escolher produtos e dosagens. Isso evita tratar como iguais formigas com comportamentos diferentes.
O que faz mais sentido antes de aplicar um produto
O primeiro passo é observar o prejuízo: as formigas cortam folhas, entram na casa ou apenas circulam pelo solo? Também vale verificar se estão associadas a pulgões e cochonilhas, cuja secreção açucarada atrai algumas espécies.
O programa de manejo integrado da Universidade da Califórnia explica que a escolha da isca depende da espécie e do alimento que ela aceita. Mesmo produtos adequados podem precisar de mais de uma semana para produzir controle.
Quando houver necessidade de tratamento, a escolha deve considerar um produto autorizado para aquela finalidade, seguindo o rótulo e mantendo-o fora do alcance de crianças e animais. Espalhar uma receita doméstica não oferece a mesma previsibilidade de uma formulação avaliada para o alvo.
Também é preciso desconfiar da expressão “para sempre”. A Universidade da Flórida ressalta que, no caso das lava-pés, novas colônias podem ocupar uma área depois do tratamento. Controlar um formigueiro e impedir qualquer reinfestação são desafios diferentes — e uma mistura de cozinha não resolve essa diferença.