A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes. Ferramentas capazes de responder perguntas, resumir textos e produzir trabalhos completos podem facilitar o aprendizado, mas também criam um problema: como impedir que os alunos simplesmente transfiram para a tecnologia todo o esforço de pensar?
Para a UNESCO, a resposta não passa necessariamente por eliminar a IA das escolas. O desafio é estabelecer limites, proteger os estudantes e utilizar essas ferramentas de maneira que estimulem — em vez de substituir — criatividade, conhecimento e pensamento crítico.
Proibir toda a tecnologia pode não resolver o problema

A presença dos celulares se tornou praticamente permanente na vida cotidiana.
Eles aparecem no transporte público, no trabalho, nos momentos de descanso e, inevitavelmente, dentro das escolas.
Por isso, simplesmente retirar toda tecnologia das salas de aula pode ter consequências indesejadas, como reduzir oportunidades para desenvolver competências e alfabetização digitais.
Ao mesmo tempo, deixar smartphones e ferramentas de IA disponíveis sem regras também pode prejudicar a concentração e facilitar uma dependência excessiva dessas tecnologias.
O problema, portanto, não é apenas decidir entre permitir ou proibir.
É determinar quando, como e para quais atividades essas ferramentas devem ser utilizadas.
A IA precisa fazer o aluno pensar
Esse foi um dos temas discutidos durante a Semana da Aprendizagem Digital 2026 da UNESCO, realizada entre 8 e 11 de setembro, em Paris.
O encontro reuniu governos, especialistas em educação, pesquisadores, representantes de organizações internacionais e empresas ligadas à educação digital.
Ao final, os participantes adotaram uma declaração conjunta defendendo que a educação continue sendo tratada como um direito humano e um bem comum na era da inteligência artificial.
Entre as prioridades está uma ideia fundamental: sistemas de IA utilizados na educação devem incentivar os estudantes a raciocinar e realizar trabalho cognitivo.
Isso significa evitar situações em que a ferramenta simplesmente entrega uma resposta pronta e elimina todo o processo necessário para chegar até ela.
Professores precisam continuar no centro da educação

A UNESCO também destaca que inteligência artificial deve servir como ferramenta para professores, e não como substituta.
Para isso, docentes precisam receber formação adequada para entender como essas tecnologias funcionam, quais são suas limitações e quando sua utilização pode ser realmente útil.
Também deveriam participar das decisões sobre quais sistemas de inteligência artificial entram nas salas de aula.
Um professor pode, por exemplo, utilizar IA para preparar materiais, criar exercícios ou adaptar determinadas atividades.
Para os estudantes, ela pode ajudar a explicar conceitos difíceis, oferecer exercícios adicionais ou funcionar como apoio durante pesquisas.
A diferença está em utilizar a tecnologia para ampliar o aprendizado, e não para evitar o esforço necessário para aprender.
Nem toda IA é adequada para qualquer idade
Outro ponto defendido pela UNESCO é que o uso da inteligência artificial considere a idade e o estágio de desenvolvimento dos estudantes.
Crianças, adolescentes e universitários possuem necessidades diferentes.
As regras, portanto, não precisam ser iguais para todos.
Em algumas situações, limitar ou interromper temporariamente o uso dessas ferramentas pode ser necessário, principalmente quando elas começam a interferir no aprendizado ou no bem-estar dos estudantes.
As escolas também precisam preservar atividades realizadas sem assistência tecnológica.
Escrever, interpretar textos, resolver problemas e construir argumentos sem recorrer imediatamente a um chatbot continuam sendo habilidades fundamentais.
Dados dos estudantes também precisam ser protegidos
A expansão da IA na educação cria outra preocupação: a enorme quantidade de informações que essas plataformas podem coletar.
A UNESCO defende que os dados pessoais dos estudantes sejam protegidos e que eles sejam reconhecidos como titulares dessas informações.
Também é necessário compreender quais dados uma plataforma coleta, para que são utilizados e durante quanto tempo permanecem armazenados.
Sistemas utilizados por escolas deveriam ainda estar sujeitos a mecanismos de auditoria e supervisão.
A responsabilidade não pode ficar apenas nas mãos das empresas que desenvolvem essas tecnologias.
Escolas precisam conseguir mudar as regras
Nenhuma política sobre inteligência artificial precisa ser permanente.
À medida que novas evidências aparecem, escolas e governos devem conseguir modificar suas decisões.
Se determinada ferramenta estiver prejudicando a saúde, a concentração ou o desenvolvimento cognitivo dos estudantes, seu uso pode precisar ser limitado ou suspenso.
O mesmo vale no sentido contrário.
Tecnologias que demonstrem benefícios educacionais podem ser incorporadas de maneira planejada e supervisionada.
Por isso, a UNESCO também defende mecanismos nacionais e regionais de governança para orientar como a IA deve entrar nos sistemas educacionais.
O objetivo não é formar estudantes que saibam apenas usar IA
Saber trabalhar com inteligência artificial provavelmente será uma habilidade cada vez mais importante.
Mas isso não elimina a necessidade de aprender a pensar sem ela.
A escola precisa continuar desenvolvendo criatividade, capacidade de argumentação, interpretação, resolução de problemas e pensamento crítico.
A inteligência artificial pode ajudar nesse processo, desde que permaneça no papel de ferramenta.
O maior desafio para professores, famílias e governos será encontrar esse equilíbrio: ensinar uma geração a utilizar uma tecnologia extremamente poderosa sem permitir que ela faça todo o trabalho intelectual em seu lugar.
[ Fonte: Infobae ]