A medicina reprodutiva está transformando a maneira como as pessoas planejam ter filhos. Técnicas que antes eram utilizadas principalmente no tratamento da infertilidade agora também ajudam a preservar a fertilidade e reduzir o risco de transmissão de determinadas doenças hereditárias. Uma história relatada na Argentina mostra como essas tecnologias podem mudar a vida de uma família, ao mesmo tempo que levantam questões sobre os limites da seleção genética.
Congelamento de óvulos muda o planejamento da maternidade
Durante muito tempo, a reprodução assistida foi procurada principalmente por casais que enfrentavam dificuldades para engravidar.
Hoje, clínicas especializadas recebem também mulheres que desejam adiar a maternidade por motivos profissionais, financeiros ou pessoais.
Em entrevista ao jornal Los Andes, o ginecologista Luciano Sabatini afirmou que as consultas para congelamento de óvulos quadruplicaram em sua clínica ao longo de 2026.
A técnica, conhecida como criopreservação, permite coletar e armazenar óvulos em temperaturas extremamente baixas para uma possível utilização futura.
Entretanto, congelar óvulos não garante uma gravidez. As chances de sucesso dependem de fatores como a idade no momento da coleta, a quantidade e a qualidade dos óvulos armazenados.
A fertilidade feminina tende a diminuir com a idade, especialmente após os 35 anos, embora existam diferenças individuais importantes.
Teste genético ajuda família a evitar doença hereditária

Uma das histórias apresentadas na reportagem envolve Mariana Silva, uma mulher diagnosticada com distrofia miotônica tipo 1, também chamada de doença de Steinert.
A condição genética pode afetar músculos e outros órgãos, incluindo o coração.
Mariana e seu marido desejavam ter filhos, mas estavam preocupados com a possibilidade de transmitir a doença.
Com acompanhamento médico, recorreram à fertilização in vitro e ao teste genético pré-implantacional para doenças monogênicas, conhecido como PGT-M.
O procedimento permite analisar embriões produzidos em laboratório para identificar uma alteração genética específica presente na família.
Segundo o relato de Mariana, dos cinco embriões examinados em uma das tentativas, quatro apresentavam a alteração associada à doença.
O único embrião sem essa alteração foi transferido para o útero, resultando no nascimento de Delfina, que hoje tem seis anos.
Após o nascimento, exames confirmaram que a menina não apresentava a condição hereditária investigada.
É possível escolher características dos futuros filhos?
Os avanços da genética reprodutiva também alimentam discussões sobre a seleção de características humanas.
Existe uma diferença importante entre utilizar testes para identificar uma doença hereditária grave e tentar selecionar embriões com base em atributos como altura, inteligência ou aparência.
Características complexas dependem da interação de muitos genes com fatores ambientais. Por isso, testes genéticos não conseguem prever com segurança como uma criança será nesses aspectos.
O próprio Sabatini questionou, na entrevista, a comercialização de análises genéticas que ultrapassam a prevenção de doenças e prometem selecionar características desejadas pelos futuros pais.
Além das limitações científicas, essas propostas levantam preocupações relacionadas à discriminação genética, à deficiência e à desigualdade no acesso às tecnologias.
Tratamentos ainda são caros e inacessíveis para muitas famílias

Apesar dos avanços, o custo permanece entre os principais obstáculos da reprodução assistida.
A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrenta infertilidade em algum momento da vida.
Em suas primeiras diretrizes globais sobre o tema, publicadas em 2025, a entidade destacou que os tratamentos continuam financeiramente inacessíveis para milhões de pessoas.
Em alguns países, um único ciclo de fertilização in vitro pode custar mais do que a renda anual de uma família.
Quando são necessários exames genéticos especializados, medicamentos e várias tentativas, os gastos podem aumentar consideravelmente.
O debate sobre os embriões vai além da medicina
A possibilidade de analisar embriões antes da implantação também levanta questões jurídicas, religiosas e filosóficas.
Entre os temas discutidos estão o destino dos embriões não transferidos, os limites da seleção genética e o direito das famílias de tomar decisões reprodutivas informadas.
No Brasil, a reprodução assistida segue normas éticas do Conselho Federal de Medicina, que estabelecem condições para o uso de testes genéticos e restringem a seleção de características sem indicação médica.
A tecnologia oferece oportunidades importantes para famílias com histórico de doenças hereditárias, mas exige aconselhamento genético, consentimento informado e acompanhamento especializado.
O desafio da nova medicina reprodutiva é ampliar as possibilidades de escolha sem transformar a reprodução humana em um processo de seleção de características consideradas desejáveis.