Poucas imagens são tão reconhecíveis quanto o céu turbulento de A noite estrelada, de Vincent van Gogh. Suas espirais luminosas, estrelas gigantescas e cores intensas parecem pertencer a um universo criado pela imaginação do pintor. Mas e se parte daquela paisagem tivesse realmente aparecido sobre o sul da França? Mais de 130 anos depois, pesquisadores recorreram à astronomia para investigar essa possibilidade e encontraram uma pista que desafia interpretações anteriores.
Um detalhe na Lua colocou em dúvida a data tradicional da pintura
Van Gogh produziu A noite estrelada em 1889, durante sua permanência voluntária em um sanatório de Saint-Rémy-de-Provence, na França.
Por muito tempo, historiadores associaram a paisagem representada no quadro a uma madrugada de junho daquele ano.
Entretanto, havia uma inconsistência astronômica.
A fase da Lua observável naquele período não correspondia à forma que o artista havia pintado.
Enquanto o céu de junho apresentava uma Lua gibosa minguante, a pintura mostra um crescente luminoso muito mais estreito.
Essa diferença chamou a atenção de pesquisadores da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul, que decidiram reconstruir o firmamento observado na região.
O estudo, publicado na revista científica Scientific Reports, utilizou simulações astronômicas para comparar a posição dos astros com os elementos presentes na composição.
A investigação apontou para uma possibilidade inesperada: o céu retratado por Van Gogh poderia corresponder a uma madrugada de julho, e não de junho.
A posição de Vênus e cinco estrelas revelou uma madrugada específica
Os cientistas concentraram a análise em três elementos da pintura: a Lua, o planeta Vênus e um grupo de estrelas localizado na região central do céu.
Vênus é particularmente importante porque pode aparecer extremamente brilhante antes do amanhecer.
O próprio Van Gogh mencionou em suas cartas a observação da chamada estrela da manhã, visível de sua janela.
Os pesquisadores também identificaram semelhanças entre cinco pontos luminosos da pintura e estrelas pertencentes às Híades, um aglomerado estelar localizado na constelação de Touro.
Ao comparar essas posições com simulações do céu de 1889, encontraram uma configuração compatível com a composição artística.
O alinhamento entre a Lua, Vênus e as Híades apontou para 22 de julho de 1889, por volta das três horas da madrugada.
Segundo os autores, essa data apresenta uma correspondência astronômica mais convincente do que a hipótese tradicional.
Isso não significa que todas as estrelas tenham sido reproduzidas com precisão, mas sugere que a pintura pode ter partido de uma observação real.
Como os cientistas reconstruíram um céu de mais de 130 anos atrás?
Para testar a hipótese, a equipe não se limitou a comparar estrelas.
Os pesquisadores combinaram modelos astronômicos com fotografias da paisagem, informações topográficas e desenhos realizados anteriormente por Van Gogh.
Esses elementos ajudaram a avaliar quais partes do horizonte poderiam ser vistas da região onde o artista estava internado.
Também foram examinados registros meteorológicos históricos.
A intenção era verificar se as condições daquela madrugada permitiriam observar a Lua e as estrelas.
Os dados sugeriram que o céu poderia estar suficientemente limpo.
Outro conjunto de pistas veio das cartas pessoais do pintor.
Referências ao calor do verão e ao som das cigarras foram consideradas pelos pesquisadores como elementos compatíveis com as condições de julho.
Nenhuma dessas evidências, isoladamente, permite estabelecer uma data definitiva.
Entretanto, quando analisadas em conjunto, elas reforçam a possibilidade de que Van Gogh tenha observado uma configuração celeste semelhante àquela identificada pelas simulações.
A descoberta não elimina a imaginação de Van Gogh, mas muda a maneira de observar a obra
Mesmo que o céu de 22 de julho tenha servido como referência, A noite estrelada não deve ser interpretada como uma fotografia astronômica.
As espirais luminosas, os contrastes intensos e as dimensões exageradas dos astros fazem parte da linguagem artística de Van Gogh.
Também não é possível afirmar que a obra tenha sido concluída naquela madrugada.
O pintor pode ter combinado lembranças, observações de noites diferentes e escolhas criativas durante a composição.
A pesquisa apresenta, portanto, uma hipótese fundamentada sobre a origem astronômica da paisagem, não uma confirmação definitiva da data de execução do quadro.
Os autores também sugerem que estrelas presentes em outra pintura, Terraço do café à noite, poderiam corresponder ao chamado Triângulo de Verão.
A descoberta mostra como ferramentas científicas podem revelar novos detalhes sobre obras históricas.
Mais de um século depois, o céu pintado por Van Gogh continua despertando perguntas. E a astronomia sugere que, por trás de uma das paisagens mais imaginativas da arte, talvez exista uma madrugada que realmente aconteceu.