Da defesa aberta de Maduro ao silêncio calculado
Em 2023, Lula chegou a defender Maduro em Brasília, irritando parte da comunidade internacional. Em 2025, o cenário é outro. A Venezuela está sob forte pressão de Trump, que usa o combate ao narcotráfico como justificativa para deslocar caças, navios e milhares de militares para o Caribe, num movimento visto como demonstração de força.
Maduro, por sua vez, apelou diretamente ao “povo do Brasil” em um programa de TV, pedindo manifestações em defesa da Venezuela e de sua soberania. O apelo não ecoou nas ruas — nem no discurso de Lula.
O presidente brasileiro ainda critica intervenções militares e fala em solução diplomática, mas sem citar diretamente Trump ou a Venezuela, preferindo termos genéricos em fóruns como Brics, ONU e Celac. É uma mudança clara de tom.
Tarifaço dos EUA: pragmatismo primeiro

Um dos motivos principais dessa cautela é bem concreto: o tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. As sobretaxas, que chegaram a 40% em alguns setores, foram justificadas por Trump em meio à condenação de Jair Bolsonaro e abriram a maior crise diplomática entre Brasil e EUA em décadas.
Nos últimos meses, houve reaproximação entre Lula e Trump. Eles se encontraram em Nova York e na Malásia, e voltaram a conversar por telefone. Depois disso, Washington retirou tarifas sobre parte dos produtos agrícolas brasileiros, mas muitas exportações industriais seguem penalizadas.
Segundo auxiliares de Lula, o momento é “delicado”: o governo não quer comprometer as negociações comerciais com declarações duras sobre a Venezuela. A ordem é ser pragmático. A avaliação no Planalto é clara: se os Estados Unidos chegarem a atacar a Venezuela dentro do seu território, o tom pode mudar. Até lá, a prioridade é evitar confronto direto com Trump.
Brasil quer seguir como possível mediador
Outro ponto do cálculo de Lula é manter o Brasil como interlocutor viável entre Trump e Maduro. O governo brasileiro não foi oficialmente convidado por nenhuma das partes para mediar a crise, mas aposta que um tom moderado preserva canais abertos com Washington e Caracas.
Em conversas reservadas, Lula tem repetido que a saída para a Venezuela deve ser diplomática e pacífica. O Brasil já teve papel relevante nos Acordos de Barbados, em 2023, quando o regime venezuelano se comprometeu a garantir condições mínimas nas eleições — compromisso que Maduro não cumpriu integralmente, ao não apresentar atas de urnas contestadas pela oposição.
Esse descumprimento desgastou a confiança do Itamaraty. A pressão aumentou quando o assessor Celso Amorim foi atacado por figuras do chavismo e chamado de “persona non grata” por autoridades da Assembleia Nacional venezuelana. Desde então, Lula se distancia: mantém a defesa do diálogo, mas evita se comprometer com Maduro.
América Latina fragmentada e sem resposta conjunta
O contexto regional também pesa. Lula enxerga uma América Latina fragmentada, com governos de perfis ideológicos muito distintos — e vários deles próximos a Trump. A eleição de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, Santiago Peña no Paraguai e a força de líderes como Nayib Bukele criaram um ambiente em que é difícil articular uma posição regional robusta sobre a Venezuela.
Organismos como a Celac, dos quais o Brasil faz parte, têm produzido comunicados genéricos, sem ações concretas. Na cúpula recente com a União Europeia, por exemplo, a Venezuela sequer apareceu no comunicado final.
Para analistas, essa desarticulação reduz o espaço de manobra de Lula. Sem respaldo regional, um posicionamento mais duro sobre Trump ou sobre uma eventual intervenção na Venezuela poderia isolar o Brasil e limitar sua capacidade de influência.
O medo do “dia seguinte” sem Maduro
O último elemento do cálculo de Lula é o mais sensível: o futuro da Venezuela em um cenário de queda ou renúncia de Maduro. Fontes do governo admitem preocupação com o “dia seguinte”. Quem assumiria o poder? Haveria forças mínimas para manter a ordem interna? Que impacto isso teria sobre a fronteira com o Brasil?
A comparação com a Líbia pós-Khadafi ronda as análises internas. A ideia de um vácuo de poder, fragmentação de grupos armados e caos social na Venezuela preocupa o Itamaraty e a área de segurança. A oposição liderada por Maria Corina Machado, embora fortalecida politicamente, não é vista em Brasília como capaz, sozinha, de estabilizar o país.
Também não está claro até onde Trump estaria disposto a ir. Uma intervenção total para derrubar todo o chavismo? Ou uma solução “intermediária”, em que Maduro sai, mas alguém próximo ao regime permanece no comando, preservando parte da estrutura?
Em meio a tanta incerteza, Lula evita movimentos bruscos. A palavra de ordem é “cautela ativa”: acompanhar, falar em paz, negociar o tarifaço, manter diálogo com todos — e não se comprometer com um lado num tabuleiro ainda em movimento.
Cautela tem custo político
Ao adotar essa postura, o governo de Lula tenta minimizar riscos econômicos com o tarifaço, preservar margem de mediação na crise da Venezuela e evitar rupturas com Trump. Mas essa cautela também cobra um preço: gera incômodo em setores da esquerda brasileira e latino-americana, que temem que, ao abrir a “porteira” da Venezuela, nada impeça que os EUA avancem sobre outros países da região.
A grande questão é saber até quando essa estratégia será sustentável. Se a crise escalar, Lula terá de decidir se continua no meio do caminho ou se escolhe um lado — com todas as consequências que isso pode trazer para o Brasil, por dentro e por fora.
[Fonte: Correio Braziliense]