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Como o K-pop virou um símbolo silencioso de liberdade dentro da Coreia do Norte

Em um país onde até ouvir uma canção pode custar a liberdade, um fenômeno musical encontrou caminhos inesperados para atravessar fronteiras e transformar vidas em silêncio.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Durante décadas, a Coreia do Norte construiu um dos sistemas de controle social mais rígidos do planeta, isolando sua população do restante do mundo. Ainda assim, algo aparentemente inofensivo conseguiu romper essa barreira: a música. O avanço do K-pop dentro do país revela uma história de risco, resistência e transformação pessoal que vai muito além do entretenimento e ajuda a explicar por que o regime encara canções e artistas estrangeiros como uma ameaça real.

Quando ouvir música virou um ato de resistência

Como o K-pop virou um símbolo silencioso de liberdade dentro da Coreia do Norte
© Pexels

Em uma ensolarada manhã de junho, Lee Yeon-su embarcou em um trem rumo à cidade de Busan para assistir, pela terceira vez em apenas alguns meses, a um show do BTS. Para qualquer fã de K-pop, essa seria apenas mais uma viagem. Para ela, porém, representava algo muito maior: a liberdade de escolher quem admirar.

Yeon-su nasceu na Coreia do Norte, onde cresceu cercada por um sistema que controla praticamente todos os aspectos da vida cotidiana. Filha de uma família ligada às Forças Armadas, foi educada para acreditar que a Coreia do Sul era um inimigo e que qualquer influência estrangeira deveria ser rejeitada.

Eventos públicos, apresentações culturais e até celebrações eram rigidamente controlados pelo Estado. Apenas pessoas previamente selecionadas podiam participar. Quem ficava de fora deveria permanecer em casa, seguindo as orientações das autoridades.

Depois de fugir do país em 2011, antes mesmo de o BTS estrear, ela evitou inicialmente qualquer contato com a cultura sul-coreana. Aos poucos, porém, a música abriu uma porta inesperada para um novo mundo.

Hoje, cantar, dançar e celebrar ao lado de milhares de fãs representa algo que nunca imaginou viver. Segundo ela, a possibilidade de apoiar um artista por vontade própria seria impensável no país onde nasceu.

O K-pop atravessou fronteiras que pareciam intransponíveis

Como o K-pop virou um símbolo silencioso de liberdade dentro da Coreia do Norte
© Pexels

Embora o regime norte-coreano proíba o consumo de conteúdos vindos do Sul, desertores afirmam que o K-pop encontrou maneiras discretas de entrar no país.

Alguns nunca souberam quem eram os artistas que ouviam. Arquivos de áudio circulavam em cartões SD, pen drives e tocadores de MP3, muitas vezes sem identificação ou com nomes corrompidos. Ainda assim, melodias e letras eram suficientes para despertar curiosidade.

Hannah Oh, que deixou a Coreia do Norte em 2019, explica que o sistema foi construído para que apenas uma figura pudesse ser idolatrada: Kim Jong-un.

Mesmo assim, nomes como BTS, Blackpink, Girls’ Generation, Teen Top e 2PM passaram a ser conhecidos de forma clandestina. O impacto foi tão grande que a palavra “Bangtan”, nome coreano do BTS, entrou no vocabulário popular em algumas regiões, sendo usada para descrever mochilas, coletes e outros acessórios inspirados no grupo.

Para muitos jovens, esses artistas representavam algo completamente novo. Os cabelos coloridos, as roupas diferentes, as coreografias elaboradas e o estilo descontraído contrastavam fortemente com a estética rígida imposta pelo regime.

Canções escondidas revelaram um mundo completamente diferente

Kang Gyu-ri, que conseguiu fugir da Coreia do Norte em 2023, lembra perfeitamente da primeira vez que ouviu “Dynamite”, sucesso mundial lançado pelo BTS durante a pandemia.

Mesmo sem entender a letra em inglês, a música chamou sua atenção imediatamente.

Na cidade onde vivia, próxima ao litoral, algumas famílias conseguiam captar ocasionalmente sinais de televisão vindos da Coreia do Sul utilizando antenas improvisadas. Quando o sinal colaborava, assistiam escondidos a programas musicais que exibiam apresentações de grupos de K-pop.

As imagens causavam espanto.

Os artistas pareciam sul-coreanos comuns, mas se vestiam, dançavam e se comportavam de maneira totalmente diferente do que ela conhecia. O rap também era uma novidade. No início, muitos jovens sequer entendiam aquele estilo musical, mas logo passaram a imitar as coreografias e os movimentos dos grupos.

Aprender os passos de dança virou uma moda entre adolescentes, especialmente inspirados por BTS e Teen Top.

Além da música, dramas, programas de televisão e videoclipes mostravam um cotidiano completamente diferente daquele retratado pela propaganda oficial norte-coreana. Aos poucos, isso despertava perguntas difíceis de ignorar.

O regime endureceu a repressão, mas não conseguiu impedir a curiosidade

Consumir qualquer conteúdo sul-coreano sempre foi uma atividade extremamente perigosa.

Hannah conta que carregava duas pequenas memórias digitais. Uma continha músicas proibidas. A outra permanecia vazia para ser entregue caso fosse abordada pelas autoridades.

Quando estudantes eram flagrados assistindo dramas ou ouvindo músicas sul-coreanas, escolas inteiras promoviam sessões públicas de crítica, nas quais os acusados eram expostos diante de colegas antes de serem enviados para centros de detenção juvenil.

Mesmo diante desse risco, muita gente continuava procurando esse tipo de conteúdo.

Nos últimos anos, Kim Jong-un intensificou ainda mais o combate à influência cultural da Coreia do Sul. Relatórios internacionais apontam que pessoas chegaram a receber punições extremamente severas por distribuir filmes, séries e músicas produzidos no país vizinho.

Ainda assim, pesquisas realizadas com desertores mostram que a enorme maioria teve algum contato com produções sul-coreanas antes de escapar. Muitos afirmam que esse contato despertou curiosidade sobre a vida além da fronteira e influenciou desde a forma de falar até o jeito de se vestir.

Para especialistas, é justamente essa transformação silenciosa que preocupa o regime.

Muito além do entretenimento: uma nova forma de reconstruir a própria identidade

Para muitos desertores, descobrir o K-pop não representou apenas conhecer um novo estilo musical.

Depois de chegar à Coreia do Sul, Yeon-su encontrou na comunidade de fãs do BTS um ambiente onde deixou de ser vista apenas como uma refugiada norte-coreana.

Ela passou a participar de encontros, acompanhar lançamentos, votar em premiações e produzir conteúdo para outros admiradores do grupo. Mais importante ainda, encontrou coragem para assumir sua própria história sem medo de julgamentos.

As mensagens presentes na série de álbuns Love Yourself, centradas em autoestima, aceitação e superação, tiveram um impacto profundo em sua adaptação à nova vida.

Outros desertores relatam experiências semelhantes. Hana Kang afirma que se identificou especialmente com “Spring Day”, música que despertava lembranças da família deixada para trás na Coreia do Norte e simbolizava a saudade de uma vida que jamais poderia recuperar completamente.

Já os desertores mais recentes chegam a uma realidade completamente diferente daquela que imaginaram durante anos. Em vez de precisarem correr atrás das músicas proibidas, descobrem um universo onde podem escolher livremente o que assistir, ouvir e viver.

Para quem passou anos escondendo um simples cartão de memória, essa liberdade talvez seja a maior conquista de todas.

[Fonte: BBC]

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