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De leão britânico a trio de 2026: a transformação das mascotes da Copa que mudou o torneio para sempre

Muito antes de a bola rolar, outro símbolo já ajudava a contar a história da Copa. Ao longo de quase 60 anos, as mascotes do Mundial deixaram de ser coadjuvantes e viraram protagonistas.
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Elas parecem apenas um detalhe colorido na abertura do torneio, nos produtos oficiais ou nas campanhas publicitárias. Mas, ao longo das décadas, as mascotes da Copa do Mundo se transformaram em um retrato curioso de cada época do futebol — e também do próprio mercado do entretenimento. O que começou como uma ideia simples para divulgar o Mundial acabou virando uma poderosa máquina de identidade, marketing e conexão emocional com torcedores de todas as idades.

A Copa ganhou um rosto fora de campo em 1966 — e nunca mais voltou atrás

Antes de mascotes digitais, campanhas multimilionárias e personagens pensados para circular em redes sociais, a Copa do Mundo tinha uma relação bem mais direta com seus símbolos visuais. Foi em 1966, na Inglaterra, que tudo mudou. Naquele Mundial, surgiu Willie, um leão vestido com as cores da bandeira britânica que entrou para a história como a primeira mascote oficial do torneio.

A ideia parecia simples, mas inaugurou uma tradição que se tornaria inseparável do evento. Willie não estava ali apenas para enfeitar cartazes ou souvenirs. Ele representava um novo jeito de vender a Copa para além do gramado, criando um personagem capaz de aproximar o torneio do público infantil, das famílias e do mercado publicitário. A FIFA ainda não tratava suas mascotes como ativos globais, mas o caminho já estava aberto.

Nos anos seguintes, os anfitriões seguiram uma lógica parecida: criar figuras que refletissem, de maneira quase imediata, a identidade nacional do país-sede. O México levou isso ao pé da letra em 1970 com Juanito, um menino de sombrero e uniforme da seleção. A Alemanha Ocidental apostou em Tip e Tap em 1974, dois garotos com as cores do país. Já a Argentina apresentou Gauchito em 1978, um personagem inspirado na figura tradicional do gaúcho argentino, com chapéu, lenço no pescoço e uniforme albiceleste.

Essas primeiras mascotes tinham algo em comum: eram construídas a partir de referências muito reconhecíveis do imaginário nacional. O objetivo era claro. Cada Copa precisava ter um rosto próprio, algo que diferenciasse aquela edição das anteriores e ajudasse o país anfitrião a projetar sua imagem para o mundo.

Quando as mascotes deixaram de ser apenas “representantes do país”

Com o passar do tempo, a FIFA e os comitês organizadores perceberam que as mascotes podiam fazer mais do que apenas vestir símbolos nacionais. Elas podiam surpreender, virar assunto e até redefinir a forma como o torneio se apresentava ao público. Essa virada ficou clara nos anos 1980.

Na Copa da Espanha, em 1982, apareceu uma das mascotes mais improváveis — e também mais lembradas — da história do torneio: Naranjito. Em vez de um menino, um animal ou um herói nacional, os espanhóis transformaram uma laranja em personagem oficial do Mundial. A escolha rompia com a lógica anterior, mas fazia sentido: a fruta era um símbolo conhecido do país e, ao mesmo tempo, permitia um design simpático, colorido e facilmente reproduzível.

O México, quatro anos depois, seguiu por um caminho parecido e apresentou Pique, um pimentão jalapeño de bigode e sombrero. Mais uma vez, o país recorreu a um elemento fortemente associado à sua cultura, mas com um visual mais lúdico e comercial. Já em 1990, a Itália decidiu ir além e entregou ao mundo uma das mascotes mais ousadas da história da Copa: Ciao.

Em vez de apostar em um personagem “fofo” ou tradicional, os italianos criaram uma figura abstrata formada por blocos com as cores da bandeira nacional e uma bola no lugar da cabeça. Ciao parecia menos um mascote clássico e mais um exercício de design contemporâneo. Sua existência mostrou que a Copa também começava a dialogar com linguagens visuais mais modernas e com um mercado cada vez mais interessado em produtos, branding e identidade internacional.

Dos desenhos da TV ao universo digital: a era das mascotes globais

A partir dos anos 1990, a transformação ficou ainda mais evidente. As mascotes deixaram de ser apenas embaixadoras do país-sede para se tornarem peças de uma engrenagem global de marketing. A Copa dos Estados Unidos, em 1994, deu um empurrão importante nessa mudança ao apresentar Striker, um cachorro criado com participação da Warner Bros. O personagem já nascia com uma linguagem muito mais próxima da indústria do entretenimento, dos desenhos animados e da cultura pop.

Na França, em 1998, foi a vez de Footix, um galo azul inspirado em um dos símbolos nacionais do país. O personagem conseguiu equilibrar tradição e apelo comercial, algo que se tornaria cada vez mais importante nas edições seguintes. A partir dali, as mascotes passaram a ser desenhadas não apenas para aparecer em estádios e materiais promocionais, mas também para viver em brinquedos, comerciais, produtos licenciados, animações e, mais tarde, ambientes digitais.

Esse movimento se intensificou no século XXI. Em 2002, Coreia do Sul e Japão apresentaram os Spheriks, criaturas futuristas que pareciam saídas de um videogame. Em 2006, a Alemanha apostou em Goleo VI, um leão acompanhado por uma bola falante. Em 2010, a África do Sul lançou Zakumi, um leopardo de cabelo verde que rapidamente se tornou um dos rostos mais reconhecíveis daquela Copa.

Depois vieram Fuleco, no Brasil em 2014, Zabivaka, na Rússia em 2018, e La’eeb, no Catar em 2022 — cada um refletindo não apenas o país anfitrião, mas também o momento em que o futebol se consolidou como produto global de entretenimento. Sustentabilidade, biodiversidade, diversidade cultural e comunicação multiplataforma passaram a influenciar diretamente essas criações.

O trio de 2026 mostra que a mascote da Copa já virou outra coisa

Se as primeiras mascotes da história da Copa eram quase uma extensão folclórica do país-sede, as figuras ligadas ao Mundial de 2026 apontam para uma fase diferente. Maple, Zayu e Clutch, associados à próxima edição do torneio, representam uma geração pensada para circular em um ambiente muito mais fragmentado e conectado, no qual a Copa já não vive apenas na TV ou no estádio, mas também nas redes sociais, nos vídeos curtos, nos games, no licenciamento e nas experiências digitais.

É uma mudança que diz muito sobre o próprio futebol contemporâneo. A mascote deixou de ser apenas um detalhe decorativo para se tornar uma ferramenta estratégica de engajamento. Ela precisa funcionar para crianças, adultos, patrocinadores, campanhas globais e públicos que talvez nem acompanhem futebol com tanta proximidade. Precisa ser reconhecível em segundos, render produtos, gerar identificação e, de preferência, sobreviver ao torneio como memória afetiva.

Ao olhar para trás, a evolução impressiona. O leão Willie abriu a porta em 1966. Juanito, Gauchito, Naranjito, Ciao, Striker, Fuleco e tantos outros ajudaram a construir uma galeria que mistura cultura pop, identidade nacional, nostalgia e marketing esportivo. E talvez seja justamente por isso que as mascotes da Copa continuam fascinando tanto: porque elas contam, de um jeito leve e visual, como o futebol também mudou fora das quatro linhas.

Mascotes das Copas do Mundo, de 1966 até 2026

  • Inglaterra 1966: Willie
  • México 1970: Juanito
  • Alemanha Ocidental 1974: Tip e Tap
  • Argentina 1978: Gauchito
  • Espanha 1982: Naranjito
  • México 1986: Pique
  • Itália 1990: Ciao
  • Estados Unidos 1994: Striker
  • França 1998: Footix
  • Coreia do Sul/Japão 2002: Spheriks
  • Alemanha 2006: Goleo VI
  • África do Sul 2010: Zakumi
  • Brasil 2014: Fuleco
  • Rússia 2018: Zabivaka
  • Catar 2022: La’eeb
  • Estados Unidos, México e Canadá 2026: Maple, Zayu e Clutch

[Fonte: RTA]

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