A inteligência artificial já escreve textos, analisa enormes volumes de dados e participa de sistemas capazes de transformar setores inteiros da sociedade. Mas o avanço tecnológico também chega aos campos de batalha, onde decisões podem envolver diretamente vidas humanas. É justamente nesse ponto que o papa Leão XIV decidiu concentrar um de seus próximos grandes pronunciamentos, recorrendo a uma expressão deliberadamente provocadora: a tecnologia precisa ser “desarmada” para que possa servir à paz.
Leão XIV coloca a inteligência artificial no centro do debate sobre a paz

O tema escolhido para a 60ª Jornada Mundial da Paz, que será celebrada em 1º de janeiro de 2027, será “Desarmar a tecnologia, servir à paz. A política como responsabilidade preventiva”.
O anúncio foi realizado em 11 de agosto pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
A proposta pretende discutir como avanços tecnológicos, especialmente aqueles relacionados à inteligência artificial, podem ser orientados para preservar a dignidade humana e promover o bem comum.
A preocupação do Vaticano não está direcionada simplesmente à existência de novas tecnologias. O ponto central é quem mantém a responsabilidade pelas decisões quando sistemas cada vez mais autônomos passam a desempenhar funções anteriormente reservadas exclusivamente aos seres humanos.
Essa questão se torna particularmente sensível quando envolve aplicações militares.
Segundo o dicastério, Leão XIV pretende chamar a atenção para a responsabilidade moral daqueles que exercem funções políticas, mas também ampliar a discussão para toda a sociedade.
O desenvolvimento tecnológico, nessa perspectiva, não poderia ser tratado apenas como uma questão de eficiência ou capacidade técnica.
Quanto maior o poder das ferramentas disponíveis, maior seria também a responsabilidade de decidir onde e como utilizá-las.
“Não há algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”
A preocupação não surgiu agora.
Leão XIV já havia abordado a relação entre tecnologia, inteligência artificial e guerra em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, assinada em 15 de maio de 2026.
Em um dos trechos do documento, o pontífice afirma que nenhum algoritmo pode tornar uma guerra moralmente aceitável.
A declaração está relacionada principalmente ao risco de transferir decisões militares para sistemas de inteligência artificial.
À medida que tecnologias capazes de identificar alvos, interpretar cenários e recomendar ações avançam, surge uma pergunta fundamental: até que ponto uma máquina pode participar de decisões que determinam se uma pessoa viverá ou morrerá?
Para Leão XIV, a responsabilidade humana não pode desaparecer nesse processo.
O papa defende que a comunidade internacional desenvolva acordos e princípios compartilhados capazes de preservar normas humanitárias e garantir que seres humanos continuem responsáveis por decisões envolvendo vidas.
Poucos dias depois da assinatura da encíclica, durante sua apresentação pública, ele utilizou uma expressão ainda mais direta para resumir sua posição.
Por que o papa afirma que “a inteligência artificial deve ser desarmada”
Durante a apresentação de Magnifica humanitas, em 25 de maio, Leão XIV declarou que “a inteligência artificial deve ser desarmada”.
O próprio pontífice reconheceu que havia escolhido uma palavra forte.
Segundo sua explicação, a intenção era justamente provocar reflexão e despertar consciências diante da velocidade com que essas tecnologias estão avançando.
A expressão estabelece um paralelo com o desarmamento nuclear, tradicionalmente defendido pela Igreja Católica como instrumento para proteger a paz e a dignidade humana.
Isso não significa simplesmente abandonar ou proibir a inteligência artificial.
O sentido apresentado pelo papa está relacionado a retirar da tecnologia uma lógica que permita utilizá-la sem limites, responsabilidade ou consideração pelas consequências humanas.
Leão XIV defende que sistemas tecnológicos sejam colocados a serviço das pessoas e do bem comum.
Para ele, decisões envolvendo tecnologia nunca deveriam ser separadas de consciência e responsabilidade.
O pontífice também amplia o significado da própria paz. Em sua interpretação, ela não representa apenas a inexistência de conflitos armados, mas depende da existência de justiça.
Quando uma tecnologia enfraquece o pensamento crítico, concentra poder ou permite que decisões graves sejam tomadas sem responsabilidade claramente identificável, a paz também pode ser ameaçada.
Mas a mensagem que será levada à Jornada Mundial da Paz não pretende ficar apenas nas advertências.
“Desarmar” é apenas a primeira parte da proposta
Leão XIV também utiliza outra ideia para completar seu argumento: “desarmar não basta. Devemos construir”.
A explicação surgiu a partir de uma experiência vivida pelo pontífice durante seu trabalho pastoral no Peru, depois de fortes inundações.
Segundo ele, reconstruir uma comunidade atingida por uma tragédia não significa simplesmente substituir edifícios, estradas ou objetos destruídos.
Também é necessário reconstruir relações, recuperar confiança e criar novamente perspectivas para o futuro.
O mesmo princípio seria aplicável à tecnologia.
Limitar usos considerados perigosos da inteligência artificial seria apenas uma parte do trabalho. A outra seria desenvolver sistemas capazes de produzir benefícios compartilhados e colocar a inovação efetivamente a serviço das pessoas.
Essa responsabilidade, segundo Leão XIV, não pertence exclusivamente às empresas que desenvolvem IA.
Ela envolve governos, instituições, desenvolvedores, usuários e populações afetadas pelas consequências dessas tecnologias.
Também existe uma dimensão internacional. Países ricos e pobres não possuem necessariamente o mesmo acesso aos benefícios tecnológicos nem enfrentam seus riscos da mesma maneira.
A discussão de 2027 pretende ir muito além dos algoritmos

A Jornada Mundial da Paz colocará essas questões dentro de um debate maior sobre política e responsabilidade preventiva.
Em vez de esperar que tecnologias produzam consequências graves para então estabelecer limites, a proposta é discutir antecipadamente os princípios que deveriam orientar seu desenvolvimento.
O avanço da IA torna essa discussão cada vez mais urgente.
Sistemas mais autônomos estão entrando em áreas como segurança, vigilância, infraestrutura, comunicação e defesa. Ao mesmo tempo, cresce a dificuldade de determinar quem responde quando uma decisão automatizada produz danos.
É nesse cenário que a expressão “desarmar a tecnologia” ganha seu significado mais amplo.
Leão XIV não está propondo uma sociedade sem inteligência artificial. Sua mensagem aponta para outra pergunta: como impedir que ferramentas criadas para ampliar capacidades humanas terminem diminuindo a própria responsabilidade humana?
Em 1º de janeiro de 2027, essa questão estará no centro da 60ª Jornada Mundial da Paz. E, para o pontífice, a resposta começa antes mesmo de qualquer algoritmo entrar em funcionamento: na decisão humana sobre quais poderes estamos dispostos a entregar às máquinas.
[Fonte: EH]