A ameaça externa que alimenta o discurso do regime
O clima político ficou ainda mais tenso após declarações de Diosdado Cabello, número dois do chavismo, em seu programa semanal. Ele orientou militantes a manter “nervos de aço” diante do que chamou de “ameaça externa extrema” vinda dos EUA.
Sem citar diretamente Donald Trump ou a operação militar americana no Caribe — que inclui o porta-aviões USS Gerald Ford — Cabello reforçou que a ordem é resistência ativa. Nada de baixar a guarda: “Não vamos parar de nos divertir, nem vamos parar de nos preparar para nos defender.”
Segundo o governo, 4,5 milhões de ativistas formam hoje os chamados Comitês Bolivarianos Integrais de Base, todos mobilizados para reagir a uma possível ofensiva americana.
Diálogo, terrorismo e vigílias: os dois lados endurecem o jogo

Enquanto Cabello inflama a base chavista, o governo americano alterna sinais contraditórios. No fim de semana, Donald Trump acenou com a possibilidade de diálogo com Maduro — ao mesmo tempo em que o Departamento de Estado classificava o Cartel de Los Soles como organização terrorista, associando a estrutura diretamente ao líder venezuelano.
Maduro respondeu convocando vigílias permanentes em seis regiões do leste do país, apresentadas por ele como uma “fusão popular-militar-policial” para resistir às ameaças. Em meio às cerimônias, o ditador arriscou algumas notas de “Imagine”, de John Lennon, e pediu paz em inglês.
Nos bastidores, porém, a retórica de confronto segue forte. Grupos alinhados à ala dura dos EUA incentivam ataques a alvos venezuelanos e até ações para mudar o regime. Uma invasão terrestre é considerada improvável, mas o chavismo mantém essa possibilidade no imaginário de sua militância para reforçar a coesão interna.
O retorno do “Super Bigode” e a narrativa de resistência
Entre bandeiras venezuelanas, discursos emocionados e desfiles improvisados, a figura de “Super Bigode” — super-herói criado para exaltar Maduro — voltou a aparecer nas mobilizações. O personagem funciona como símbolo de resistência e propaganda política, reforçando a ideia de ameaça iminente.
Nesse ambiente de tensão e propaganda, Cabello anunciou uma estratégia inesperada para reforçar o que chama de “defesa popular”.
Treinamento indígena e flechas com curare: a tática mais polêmica
Como parte do plano, brigadas indígenas foram convocadas para ensinar militantes chavistas a usar flechas com curare, um veneno tradicional amazônico feito a partir de extratos vegetais. O curare atua como agente paralisante e, em doses suficientes, pode levar à morte.
Cabello descreveu a iniciativa como uma forma de adotar técnicas “silenciosas” de defesa. Segundo ele, o objetivo é preparar os militantes para combater invasores com métodos ancestrais, caso o confronto avance para o território venezuelano.
E deixou um alerta: “Eles vão descobrir o que é o curare.”
Uma escalada retórica que diz muito sobre o momento
Essas declarações mostram como o chavismo usa o medo de intervenção externa para mobilizar apoiadores e sustentar a ideia de resistência nacional. Ao mesmo tempo, revelam o abismo entre o discurso beligerante do regime e a realidade de um país em profunda crise humanitária.
Diante desse cenário, fica a pergunta: o treinamento com veneno indígena é realmente uma estratégia militar — ou apenas mais um capítulo na disputa narrativa entre Caracas e Washington? O fato é que o clima segue tenso, e as próximas semanas devem mostrar até onde essa retórica pode chegar.
[Fonte: G1 – Globo]