Quem convive com um cachorro provavelmente já teve a impressão de estar sendo observado com atenção justamente nos momentos mais difíceis. Uma expressão fechada, um olhar preocupado ou um sorriso parecem suficientes para provocar reações diferentes no animal. Agora, cientistas decidiram investigar até onde vai essa sensibilidade. O resultado sugere que o cérebro canino pode fazer distinções emocionais bem mais sofisticadas do que se imaginava.
O cérebro dos cães reage de maneira diferente ao nosso rosto

Não é novidade que cachorros prestam enorme atenção às pessoas. Milhares de anos de convivência ajudaram esses animais a desenvolver uma capacidade impressionante de responder a gestos, vozes, movimentos e outras pistas sociais humanas.
A grande questão é saber quanto eles realmente conseguem extrair de uma expressão facial.
Um estudo recente encontrou evidências de que os cães não se limitam a perceber se uma pessoa parece feliz ou irritada. Os animais também podem diferenciar algumas emoções negativas que, visualmente, possuem características relativamente parecidas, como medo, tristeza e raiva.
Para investigar isso, pesquisadores acompanharam a atividade cerebral de cães domésticos enquanto eles observavam fotografias de rostos humanos exibindo diferentes expressões.
A ideia era ir além do comportamento visível. Em vez de simplesmente verificar se o cachorro desviava o olhar, se aproximava ou reagia de alguma outra maneira, os cientistas procuraram entender o que acontecia dentro do cérebro do animal diante de cada imagem.
E foi justamente ali que surgiram as pistas mais interessantes.
Os padrões registrados indicaram diferenças no processamento de determinadas emoções. Em particular, apareceram sinais de distinção entre medo e raiva e também entre medo e tristeza.
O primeiro experimento revelou o peso de um sorriso
A pesquisa foi dividida em dois experimentos independentes realizados com cães domésticos. Entre os participantes estavam principalmente border collies, raça conhecida pela facilidade de responder a comandos e interpretar diferentes sinais durante a interação com seres humanos.

Na primeira etapa, oito cães observaram fotografias de pessoas que eles não conheciam. Os rostos apresentados tinham duas expressões: felicidade ou neutralidade.
Quando os animais viam uma pessoa feliz, os pesquisadores detectavam uma resposta mais intensa em uma região cerebral relacionada à expectativa de recompensa.
Essa associação é especialmente interessante porque recompensas fazem parte da rotina de interação entre humanos e cães. Elas podem aparecer na forma de comida, carinho, brincadeiras ou elogios. Um rosto sorridente, portanto, pode funcionar como uma pista de que algo positivo está prestes a acontecer.
Mas reconhecer algo agradável era apenas uma parte da história.
Os cientistas queriam descobrir se o cérebro canino conseguiria realizar uma tarefa muito mais delicada: separar diferentes emoções consideradas negativas.
Foi então que começou a segunda etapa do experimento, envolvendo um grupo maior de animais e expressões faciais bem mais variadas.
Medo, tristeza e raiva não parecem iguais para eles
Na segunda fase, 12 cães foram expostos a fotografias de rostos humanos demonstrando felicidade, tristeza, raiva e medo.
Para uma pessoa, essas emoções podem parecer obviamente diferentes porque interpretamos não apenas a posição dos olhos ou da boca, mas também todo um repertório social aprendido ao longo da vida. Para um cachorro, a questão é muito menos simples.
Ainda assim, ao comparar as respostas cerebrais provocadas pelas imagens, os pesquisadores encontraram padrões distintos.
Os resultados sugerem que os cães conseguiam diferenciar o medo da raiva e também o medo da tristeza. Isso amplia o que pesquisas anteriores já haviam indicado sobre a percepção emocional canina.
Até então, havia evidências de que esses animais eram capazes de separar expressões positivas de negativas. O novo trabalho indica que a análise feita pelo cérebro do cachorro pode ser mais refinada, chegando a distinguir certas categorias dentro do próprio conjunto de emoções negativas.
Isso pode ajudar a explicar algumas situações familiares para qualquer tutor. Aquele cachorro que se comporta de maneira diferente quando alguém está assustado, irritado ou abatido talvez esteja respondendo a sinais muito mais específicos do que simplesmente perceber que a pessoa “não está feliz”.
Isso significa que seu cachorro sabe exatamente como você se sente?
É aqui que os pesquisadores fazem uma ressalva importante.
Identificar diferenças entre expressões faciais não significa necessariamente compreender uma emoção da mesma forma que um ser humano. O estudo mostra que o cérebro dos cães processa determinados rostos de maneiras diferentes, mas não permite concluir que o animal pense algo equivalente a “essa pessoa está triste” ou “essa pessoa está com medo”.
Também existem limites claros nos resultados. Os cientistas não conseguiram detectar uma diferenciação consistente entre tristeza e raiva, por exemplo.
Portanto, ainda há um longo caminho até entender exatamente como os cachorros constroem sua leitura emocional das pessoas.
Mesmo assim, a descoberta acrescenta uma peça fascinante a uma relação construída durante milhares de anos. O cachorro ao seu lado talvez não conheça o nome da emoção que você está sentindo, nem compreenda todos os motivos por trás dela. Mas seu rosto pode estar transmitindo informações suficientes para que o cérebro dele perceba que alguma coisa mudou.
E isso torna aquele olhar atento durante um dia ruim um pouco menos misterioso.
[Fonte: R&P]