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Ciência

Hashimoto virou alvo das dietas da moda — mas a ciência conta uma história bem diferente

Cortar glúten, abandonar laticínios e tomar suplementos virou recomendação comum nas redes para quem tem Hashimoto. O problema é que as evidências ainda estão longe de confirmar essas promessas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Basta procurar por Hashimoto nas redes sociais para encontrar uma longa lista de alimentos supostamente proibidos. Glúten, leite, carboidratos e até determinados vegetais aparecem como possíveis inimigos da tireoide, enquanto suplementos são apresentados como solução. A ciência, porém, oferece uma resposta bem menos simples. Algumas intervenções podem fazer sentido para determinados pacientes, mas transformar restrições alimentares em tratamento universal pode ser um erro.

O que realmente acontece na tireoidite de Hashimoto

Hashimoto virou alvo das dietas da moda — mas a ciência conta uma história bem diferente
© Unsplash

A tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune. Isso significa que o próprio sistema imunológico passa a atacar a tireoide, pequena glândula localizada na região anterior do pescoço e responsável pela produção de hormônios fundamentais para o metabolismo.

Ao longo do tempo, essa agressão pode provocar inflamação e danos ao tecido da glândula, reduzindo sua capacidade de produzir hormônios. É por isso que Hashimoto é uma das principais causas de hipotireoidismo.

Os sintomas podem incluir cansaço, aumento de peso, intolerância ao frio, constipação, pele seca, alterações no cabelo e irregularidades menstruais. Mas nem todo paciente apresenta o mesmo quadro, e algumas pessoas podem permanecer durante anos com níveis normais de hormônios.

De acordo com o Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos Estados Unidos, fatores genéticos desempenham papel importante no desenvolvimento da doença, enquanto pesquisadores continuam investigando possíveis influências ambientais.

É justamente nessa zona de incerteza que prosperam muitas das dietas divulgadas nas redes sociais.

Tirar o glúten funciona mesmo?

Uma das recomendações mais populares é abandonar completamente o glúten. A lógica parece convincente: como Hashimoto é uma doença autoimune e a doença celíaca também envolve uma resposta imunológica ao glúten, eliminá-lo poderia teoricamente reduzir a inflamação.

O problema é transformar essa hipótese em regra.

Uma revisão discutida pela Agência de Notícias Científicas da Universidade Nacional de Quilmes encontrou resultados heterogêneos. Alguns pequenos estudos observaram redução de determinados anticorpos relacionados à tireoide após dietas sem glúten, enquanto outros não identificaram benefícios claros.

A evidência disponível, portanto, não sustenta a recomendação de eliminar o glúten de todas as pessoas com Hashimoto.

A situação muda quando existe doença celíaca. Nesse caso, retirar o glúten é parte essencial do tratamento da própria condição e pode inclusive melhorar a absorção da levotiroxina.

O mesmo raciocínio vale para os laticínios. Pessoas com intolerância à lactose podem se beneficiar da restrição, mas isso não significa que todos os pacientes com Hashimoto precisem abandonar leite, queijo e derivados.

E as dietas anti-inflamatórias e os suplementos?

Hashimoto virou alvo das dietas da moda — mas a ciência conta uma história bem diferente
© Ready Made – Pexels

Outro território repleto de promessas envolve suplementos, especialmente selênio, vitamina D, zinco e iodo.

O selênio merece atenção porque participa do metabolismo dos hormônios tireoidianos. Uma revisão sistemática de ensaios clínicos publicada na revista Thyroid encontrou pequenas reduções nos níveis de TSH em determinados pacientes que não utilizavam hormônio tireoidiano e diminuição de anticorpos anti-TPO após suplementação.

Isso, porém, não equivale a demonstrar que o selênio cure Hashimoto ou impeça sua progressão. Os estudos apresentam diferenças importantes entre populações, doses e níveis prévios do mineral.

Com o iodo, a cautela é ainda maior. Embora seja indispensável para produzir hormônios tireoidianos, quantidades excessivas podem piorar o hipotireoidismo em pessoas suscetíveis. Tomar suplementos de iodo por conta própria, portanto, está longe de ser uma estratégia inofensiva.

Dietas muito restritivas também carregam riscos próprios, como deficiências nutricionais e dificuldade para manter uma alimentação equilibrada.

Não existe uma “dieta de Hashimoto” comprovada

Até agora, não há uma dieta específica capaz de tratar ou reverter a tireoidite de Hashimoto de maneira comprovada.

Isso não significa que alimentação seja irrelevante. Uma dieta equilibrada, capaz de fornecer nutrientes adequados e ajudar na manutenção de um peso saudável, continua sendo importante. Restrições também podem ser necessárias quando existem condições associadas, como doença celíaca ou intolerância à lactose.

Mas isso é muito diferente de afirmar que determinados alimentos provocam Hashimoto ou que sua retirada interromperá o processo autoimune.

Quando a doença provoca hipotireoidismo, o tratamento estabelecido continua sendo a reposição do hormônio tireoidiano, normalmente com levotiroxina. A dose é ajustada individualmente por meio de exames, especialmente a medição do TSH.

A alimentação pode inclusive interferir na absorção do medicamento. Café, soja e suplementos contendo ferro ou cálcio, por exemplo, podem exigir atenção ao horário de administração.

No fim, a mensagem que emerge das pesquisas é menos atraente para um vídeo viral, mas muito mais útil: Hashimoto não possui uma solução alimentar universal. Uma dieta que funciona para uma pessoa pode ser desnecessária para outra.

Antes de eliminar grupos inteiros de alimentos ou começar uma coleção de suplementos, o melhor caminho continua sendo identificar o que cada organismo realmente precisa.

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