A doença hepática esteatótica, popularmente conhecida como fígado gorduroso ou esteatose hepática, tornou-se um problema de saúde global. Estimativas indicam que cerca de 30% dos adultos apresentam a condição, caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura no órgão.
O grande problema é que ela pode evoluir durante anos sem provocar sintomas perceptíveis. Enquanto isso, inflamação, danos às células e fibrose podem progredir silenciosamente. Em casos avançados, o quadro pode chegar à cirrose e insuficiência hepática, além de estar associado a maior risco cardiovascular e de alguns tipos de câncer.
Agora, pesquisadores acreditam que a inteligência artificial pode ajudar a encontrar esses pacientes muito antes.
IA pode procurar sinais escondidos nos exames

Jeffrey Lazarus, professor da Escola de Pós-Graduação de Saúde Pública e Política de Saúde da CUNY, defende o uso de sistemas de IA para analisar grandes volumes de prontuários eletrônicos.
Em vez de esperar que um médico identifique individualmente cada sinal de alerta, algoritmos poderiam examinar resultados de exames, consultas anteriores e fatores de risco. Assim, seria possível determinar quais pacientes precisam de uma investigação mais detalhada.
A vantagem é importante porque, quando detectado precocemente, o fígado gorduroso pode apresentar uma evolução muito diferente.
Mudanças no estilo de vida, como melhorar a alimentação, praticar exercícios, perder peso e reduzir o consumo de álcool, podem diminuir a gordura hepática e, dependendo do estágio, ajudar na regressão da inflamação e da fibrose.
Além disso, determinados pacientes com doença mais avançada já contam com opções farmacológicas específicas, embora a indicação dependa do quadro clínico e de avaliação médica.
Um cálculo simples pode revelar pacientes de risco
Uma das ferramentas disponíveis atualmente é o índice FIB-4. Ele utiliza informações relativamente simples, como idade, níveis de enzimas hepáticas e contagem de plaquetas, para estimar o risco de fibrose avançada.
O problema não é necessariamente obter essas informações. Muitas delas já aparecem em exames de rotina. A dificuldade está em incorporar sistematicamente essa avaliação ao atendimento médico.
Jonathan Dranoff, professor de medicina da Universidade Yale, acredita que a inteligência artificial poderia automatizar esse processo.
Um sistema poderia calcular o FIB-4 automaticamente em segundo plano e alertar o profissional quando encontrar resultados preocupantes. Dessa maneira, médicos da atenção primária conseguiriam identificar com mais facilidade quem deveria passar por exames adicionais ou consultar um hepatologista.
Até um raio-X pode revelar sinais de fígado gorduroso

A inteligência artificial também pode encontrar pistas em exames realizados originalmente por outros motivos.
Pesquisadores da Universidade Metropolitana de Osaka, no Japão, desenvolveram um modelo capaz de analisar radiografias de tórax. Embora esses exames sejam feitos principalmente para observar pulmões e coração, parte do fígado também aparece nas imagens.
Segundo o estudo, o algoritmo conseguiu identificar casos de fígado gorduroso com precisão de 82%.
No futuro, sistemas semelhantes poderiam analisar automaticamente exames e combinar os resultados com outros fatores, como excesso de peso, colesterol elevado ou diabetes tipo 2.
Caso encontre sinais suspeitos, a IA poderia recomendar uma investigação específica do fígado.
Novos algoritmos querem superar as limitações do FIB-4
O FIB-4 é barato e simples, mas está longe de ser perfeito. Sua precisão pode variar de acordo com a idade e o método também pode gerar falsos positivos.
Por isso, empresas e pesquisadores estão desenvolvendo alternativas.
A startup dinamarquesa Evido criou o LiverPRO, algoritmo que combina idade com nove biomarcadores sanguíneos de rotina para estimar o risco de fibrose. Em um estudo envolvendo mais de 470 mil pessoas de meia-idade, o sistema apresentou desempenho superior ao FIB-4 na previsão de problemas hepáticos graves.
Outro modelo, chamado ALADDIN, utiliza aprendizado de máquina e exames sanguíneos para identificar pacientes com maior probabilidade de apresentar formas progressivas da doença e que poderiam se beneficiar de tratamentos específicos.
Essas tecnologias não devem eliminar completamente exames de imagem ou biópsias. A proposta é funcionar como uma primeira triagem mais inteligente.
Diagnóstico precoce pode mudar o futuro da doença
Grande parte dessas aplicações de inteligência artificial ainda está restrita a estudos e projetos experimentais. Porém, pesquisadores acreditam que sua chegada à prática clínica pode acelerar nos próximos anos.
O objetivo principal não é substituir médicos, mas aproveitar informações que os sistemas de saúde já possuem.
Um algoritmo poderia analisar milhares de pacientes e encontrar discretamente aqueles que apresentam uma combinação preocupante de fatores antes que apareçam complicações graves.
Isso teria impacto tanto para os pacientes quanto para os próprios sistemas de saúde. Tratar uma doença hepática antes da cirrose é muito mais simples do que lidar posteriormente com insuficiência do órgão ou necessidade de transplante.
O fígado possui ainda uma característica importante: sua extraordinária capacidade de recuperação. Em determinadas fases, controlar as causas e os fatores metabólicos pode permitir uma melhora significativa.
É justamente aí que a inteligência artificial pode fazer diferença. Em vez de descobrir a doença quando o fígado já está seriamente comprometido, a tecnologia pode ajudar médicos a enxergar sinais que estavam disponíveis há anos — escondidos em exames que o paciente já havia feito.
[ Fonte: Wired ]