Imagine receber uma mensagem de aniversário de alguém que morreu anos atrás. Ou fazer uma pergunta e ouvir a resposta pronunciada por aquela voz que você acreditava nunca mais escutar. Isso já deixou de pertencer exclusivamente à ficção científica. Sistemas conhecidos como thanabots utilizam inteligência artificial para reconstruir digitalmente traços de pessoas falecidas. O resultado pode ser emocionante, mas esconde questões sobre privacidade, dinheiro e até quem passa a controlar nossas lembranças.
Não existe ninguém do outro lado da conversa

Thanabots, também chamados de griefbots, são sistemas desenvolvidos para imitar características de alguém que morreu.
Para construir essa personalidade digital, podem ser utilizados e-mails, mensagens, fotografias, publicações em redes sociais, vídeos e gravações de voz.
Quanto maior e mais variado o material disponível, mais elementos a inteligência artificial possui para reproduzir padrões de linguagem e características reconhecíveis daquela pessoa.
Mas existe uma distinção essencial.
O sistema não possui as memórias, a consciência ou a identidade do falecido. Ele calcula qual resposta seria plausível com base nas informações disponíveis e no funcionamento do modelo generativo.
Isso significa que um thanabot também pode inventar lembranças, produzir opiniões que aquela pessoa jamais expressou ou responder perguntas que nunca foram feitas enquanto ela estava viva.
Um estudo publicado em 2025 no Journal of the American Philosophical Association concluiu que chatbots podem reproduzir aspectos conversacionais associados a uma pessoa, mas isso não significa preservar sua consciência ou garantir a continuidade de sua identidade.
É uma representação. E essa diferença se torna especialmente importante quando a simulação parece convincente demais.
A diferença entre recordar e fabricar uma nova resposta
Nem todas as tecnologias de memória digital funcionam da mesma maneira.
Algumas plataformas são essencialmente arquivos interativos. A pessoa grava histórias enquanto ainda está viva e, posteriormente, familiares podem consultar essas lembranças. Nesse modelo, a tecnologia recupera conteúdos realmente registrados.
Outros sistemas dão um passo muito maior.
A inteligência artificial utiliza os materiais disponíveis para gerar frases completamente novas, imitando a personalidade e até a voz do falecido.
É a diferença entre reproduzir uma gravação em que seu avô conta uma história e perguntar a um avatar digital o que ele pensa sobre algo ocorrido dez anos depois de sua morte.
No segundo caso, a resposta necessariamente precisa ser fabricada.
Essa capacidade pode proporcionar sensação de continuidade para algumas pessoas, mas estudos recentes também apontam preocupações com dependência emocional, representações incorretas e a possibilidade de a simulação interferir no processo de elaboração do luto. As pesquisas disponíveis ainda não permitem considerar essas ferramentas uma terapia comprovada.
E se você precisar pagar todos os meses para continuar ouvindo aquela voz?
É aqui que a discussão deixa de ser apenas tecnológica.
Alguns desses serviços funcionam através de assinaturas, compras ou recursos premium. Segundo levantamentos citados pela publicação, ofertas comparáveis já apareceram em faixas aproximadas entre US$ 7 e US$ 24 mensais, embora não exista um preço padrão para esse mercado emergente.
Outras propostas chegaram a valores muito maiores. Serviços de avatares digitais sofisticados foram associados a preços de milhares de dólares.
O detalhe fundamental é que pagar pelo serviço normalmente não significa possuir a inteligência artificial que representa aquela pessoa.
A empresa pode controlar os servidores, a interface, partes do modelo e as condições de acesso.
Se o cliente deixar de pagar, determinados recursos podem desaparecer. Se o preço aumentar, manter aquele vínculo digital ficará mais caro. E se a companhia encerrar suas atividades, existe a possibilidade de o avatar simplesmente deixar de estar disponível.
A memória familiar passa, assim, a depender de uma infraestrutura comercial.
Quem é dono da voz de alguém depois que essa pessoa morre?
Existe ainda uma questão mais complicada: consentimento.
Imagine que um familiar possua milhares de mensagens, vídeos e áudios de alguém que morreu. Isso significa automaticamente que ele pode utilizar todo esse material para criar uma personalidade artificial?
Não necessariamente.
Autorizar a conservação de fotografias ou gravações é diferente de permitir que uma empresa utilize esses materiais para gerar novas frases em sua voz.
Existe também o problema dos terceiros.
Uma conversa de WhatsApp não contém informações apenas da pessoa falecida. Fotografias podem mostrar crianças e outros familiares. E-mails podem revelar dados privados de pessoas que nunca concordaram em alimentar uma inteligência artificial.
A legislação ainda responde de maneiras diferentes conforme o país. Na União Europeia, por exemplo, o RGPD não se aplica diretamente aos dados pessoais de pessoas falecidas, deixando espaço para regras nacionais. Outros direitos relacionados à imagem, propriedade intelectual e dados de pessoas vivas continuam relevantes.
A empresa pode mudar a pessoa que você acredita estar preservando
Há outro detalhe ainda mais estranho.
Mesmo depois que o avatar estiver pronto, ele pode não permanecer igual.
Uma empresa pode atualizar seus modelos de inteligência artificial, alterar sistemas de voz ou modificar a maneira como respostas são produzidas. Isso significa que a representação digital de alguém pode mudar depois de sua criação.
A voz pode soar diferente. O estilo das respostas pode ser alterado. O avatar pode começar a responder de maneira menos parecida com aquela pessoa que a família lembrava.
E surge então uma contradição fascinante.
Esses serviços são vendidos como maneiras de preservar alguma coisa, mas a tecnologia utilizada para fazer essa preservação pode estar constantemente mudando.
Talvez a pergunta mais importante não seja se queremos conversar com os mortos
A inteligência artificial não está ressuscitando ninguém.
Ela está transformando rastros digitais deixados durante uma vida em uma representação interativa capaz de produzir conteúdos novos.
Para algumas famílias, isso pode funcionar como um memorial sofisticado. Para outras, pode ser desconfortável ou emocionalmente inadequado.
A ciência ainda não possui evidências suficientes para afirmar que thanabots melhoram o processo de luto de maneira geral. Estudos descrevem tanto experiências de conforto quanto preocupações com dependência e distorção da identidade representada.
Por isso, antes de perguntar se gostaríamos de ouvir novamente a voz de alguém que morreu, talvez existam perguntas ainda mais importantes.
Quem armazenará essa voz? Quem poderá gerar novas frases com ela? Será possível levar os arquivos para outra plataforma? O que acontecerá quando a assinatura terminar? E quem poderá apertar o botão que desliga aquela pessoa digital definitivamente?
A tecnologia tornou possível algo que durante séculos pertenceu apenas à imaginação.
Agora precisamos decidir se nossas memórias mais íntimas deveriam depender de uma senha, uma assinatura mensal e uma empresa que pode desaparecer amanhã.
[Fonte: Muy interesante]