Abrir as portas pelo celular, localizar o veículo em tempo real e controlar funções remotamente transformaram a experiência de dirigir. Essa conectividade, porém, trouxe um efeito colateral preocupante. Criminosos aprenderam a explorar tecnologias presentes nos carros modernos e, em determinadas situações, conseguem neutralizar mecanismos de segurança rapidamente. A boa notícia é que existem maneiras de reduzir essa exposição sem abrir mão das comodidades oferecidas pelos veículos conectados.
O roubo de carros mudou e já não depende apenas de uma chave falsa

Durante décadas, roubar um automóvel normalmente significava quebrar uma janela, forçar uma fechadura ou manipular fisicamente o sistema de ignição.
Nos veículos modernos, parte desse cenário mudou.
Alguns grupos criminosos utilizam equipamentos eletrônicos capazes de explorar os sistemas de comunicação existentes entre o veículo e seus dispositivos de acesso.
Um dos métodos conhecidos é chamado de relay attack, ou ataque de retransmissão.
Em veículos compatíveis com abertura e partida sem chave, criminosos podem tentar retransmitir o sinal legítimo da chave quando ela está dentro de uma residência, por exemplo. O carro pode interpretar essa comunicação como se o dispositivo autorizado estivesse próximo.
É justamente por isso que algumas medidas aparentemente simples voltaram a ganhar importância.
Guardar a chave longe de portas e janelas pode ajudar a reduzir a exposição. Também existem estojos e caixas com bloqueio de radiofrequência, conhecidos popularmente como bolsas Faraday, destinados a limitar a comunicação da chave quando ela não está sendo utilizada.
Masproteger apenas a chave já não resolve todos os riscos.
O carro moderno também precisa de atualizações de software

Um veículo conectado possui cada vez mais semelhanças com outros dispositivos digitais.
Assim como celulares e computadores recebem correções de segurança, fabricantes de automóveis podem distribuir atualizações destinadas a solucionar vulnerabilidades e melhorar a proteção dos sistemas eletrônicos.
Ignorar essas atualizações por longos períodos pode significar continuar utilizando versões antigas do software.
Por isso, é recomendável acompanhar os avisos oficiais do fabricante e manter os sistemas do veículo atualizados.
A mesma atenção deve ser dedicada ao smartphone conectado ao carro.
Muitos modelos permitem consultar localização, controlar climatização, verificar portas e, dependendo da fabricante e do veículo, executar determinadas ações remotamente por meio de aplicativos.
Uma senha fraca ou reutilizada em diferentes serviços pode transformar a conta associada ao automóvel em outro ponto vulnerável.
O aplicativo do carro também merece proteção
Uma das primeiras medidas é utilizar uma senha exclusiva e difícil de adivinhar na conta vinculada ao veículo.
Quando disponível, a autenticação em duas etapas adiciona uma barreira extra contra acessos indevidos.
Também é importante desconfiar de mensagens que solicitam credenciais, códigos de autenticação ou alterações urgentes na conta.
Redes Wi-Fi públicas exigem atenção adicional, principalmente quando o usuário pretende acessar serviços sensíveis.
Dispositivos desconhecidos conectados às entradas USB ou por Bluetooth também devem ser evitados. Em um veículo altamente conectado, limitar equipamentos e aplicativos a fontes confiáveis reduz superfícies desnecessárias de exposição.
Essas precauções podem parecer exageradas para quem ainda enxerga o automóvel como uma máquina essencialmente mecânica.
Mas os carros atuais incorporam computadores, módulos de comunicação, sensores e serviços na nuvem. Consequentemente, sua segurança também passou a envolver hábitos típicos do mundo digital.
Existe outro problema: criminosos podem procurar o rastreador original
Sistemas de localização instalados de fábrica representam uma ferramenta importante, principalmente depois de um roubo.
O problema é que criminosos especializados podem conhecer determinados modelos de veículos e seus sistemas de segurança.
Por isso, especialistas frequentemente defendem uma estratégia baseada em camadas de proteção, em vez de confiar exclusivamente em uma única tecnologia.
Além dos mecanismos eletrônicos originais, podem ser considerados dispositivos físicos visíveis, alarmes e soluções independentes de rastreamento instaladas profissionalmente.
Empresas especializadas, como a LoJack, trabalham justamente com sistemas adicionais voltados à localização e recuperação de veículos roubados.
A proposta desse tipo de solução é oferecer um mecanismo independente dos sistemas originais do automóvel, dificultando que todas as formas de localização sejam neutralizadas simultaneamente.
A eficácia, cobertura e características desses serviços, porém, variam conforme região, modelo e tecnologia utilizada.
O melhor sistema de segurança pode ser a combinação de vários deles
Nenhuma solução consegue tornar um automóvel absolutamente impossível de roubar.
A estratégia mais interessante é aumentar o número de obstáculos que precisam ser superados.
Proteger adequadamente as chaves, manter o software atualizado, utilizar senhas exclusivas, ativar autenticação adicional e adotar dispositivos complementares são medidas que atuam em pontos diferentes.
Até recursos mecânicos aparentemente antigos podem continuar relevantes.
Uma trava de volante visível, por exemplo, não possui a sofisticação de um sistema eletrônico moderno, mas adiciona uma dificuldade física que precisa ser resolvida.
A lógica é simples: quanto mais tempo, conhecimento e ferramentas forem necessários para levar determinado veículo, menos atraente ele pode se tornar para um criminoso procurando uma oportunidade rápida.
Os automóveis continuarão ficando mais conectados, e provavelmente teremos cada vez mais funções controladas pelo celular e pela nuvem.
Isso torna a vida dos motoristas mais conveniente.
Mas também significa que cuidar do carro já não envolve apenas trancar as portas. Em um veículo moderno, proteger as contas, as chaves digitais e o software passou a fazer parte da própria segurança do automóvel.
[Fonte: El país]