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Ciência

Leite e queijo integrais carregam uma fama ruim há décadas, mas um novo estudo acaba de desafiar essa ideia

Consumir laticínios integrais diariamente costuma despertar preocupação por causa da gordura saturada. Um experimento de 12 semanas, porém, encontrou resultados que colocam essa recomendação sob uma nova perspectiva.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, quem desejava proteger o coração ou controlar o colesterol recebeu um conselho bastante conhecido: trocar leite, queijo e outros laticínios integrais por versões com menos gordura. A justificativa parecia simples, já que esses alimentos contêm gordura saturada. Uma nova pesquisa, porém, sugere que avaliar um alimento apenas por um de seus nutrientes pode esconder uma parte importante da história e ajudar a explicar resultados aparentemente contraditórios.

Três porções por dia produziram um resultado inesperado

Leite e queijo integrais carregam uma fama ruim há décadas, mas um novo estudo acaba de desafiar essa ideia
© Towfiqu barbhuiya – Pexels

Um estudo conduzido pelo professor Harvey Anderson, da Universidade de Toronto, investigou o que acontece quando adultos incorporam diariamente laticínios integrais à alimentação.

Durante 12 semanas, 74 participantes foram acompanhados pelos pesquisadores. Parte deles consumiu três porções diárias de produtos lácteos.

Ao final do experimento, os cientistas não encontraram aumentos significativos de peso, gordura corporal, colesterol ou resistência à insulina entre aqueles que aumentaram o consumo desses alimentos.

E houve outro resultado interessante.

Os participantes que consumiram mais laticínios apresentaram melhora na pressão arterial e aumentaram a ingestão de nutrientes importantes, incluindo cálcio, proteínas e vitamina D.

Os resultados, publicados no The Journal of Nutrition, colocam sob uma nova perspectiva uma recomendação nutricional bastante tradicional.

Por muito tempo, laticínios integrais foram observados principalmente através de uma característica específica: sua quantidade de gordura saturada.

Como o consumo elevado desse tipo de gordura pode estar associado ao aumento do risco cardiovascular em determinados contextos, recomendações alimentares de países como o Canadá passaram a privilegiar versões com menor teor de gordura.

Mas existe uma questão cada vez mais discutida pelos pesquisadores: um alimento é simplesmente a soma dos nutrientes presentes em seu rótulo?

O experimento colocou diferentes dietas frente a frente

Para investigar essa questão, os pesquisadores dividiram aleatoriamente os participantes em três grupos.

O primeiro recebeu uma dieta com poucos laticínios e restrição de calorias. O segundo manteve uma alimentação com quantidade de energia controlada e incluiu três porções diárias de laticínios. Já o terceiro também consumiu três porções, mas sem a mesma restrição alimentar.

Depois de 12 semanas, os resultados não mostraram diferenças significativas no aumento do peso ou nos níveis de colesterol entre os grupos.

Também não apareceram sinais adversos relevantes relacionados aos lipídios sanguíneos ou à resistência à insulina entre aqueles que consumiram três porções.

Isso não significa que gordura saturada tenha deixado de ser importante ou que grandes quantidades de qualquer laticínio possam ser consumidas sem consequências.

A pesquisa aponta para algo mais específico: os efeitos metabólicos de um alimento podem depender da maneira como seus diferentes componentes estão organizados e interagem durante a digestão.

É aí que entra uma hipótese que vem ganhando espaço na ciência da nutrição.

O segredo pode estar escondido na estrutura dos laticínios

Leite e queijo integrais carregam uma fama ruim há décadas, mas um novo estudo acaba de desafiar essa ideia
© Shannon VanDenHeuvel – Unsplash

A chamada hipótese da matriz láctea propõe uma maneira diferente de analisar esses alimentos.

Em vez de observar separadamente gordura, proteínas, vitaminas e minerais, pesquisadores consideram a estrutura física na qual esses nutrientes estão organizados.

Os produtos lácteos possuem proteínas como caseína e proteínas do soro, além de gorduras, minerais e outros componentes integrados em uma matriz alimentar complexa.

Essa organização pode interferir na maneira como cada substância é digerida, absorvida e metabolizada pelo organismo.

Em outras palavras, consumir determinada quantidade de gordura saturada dentro de um alimento complexo pode não produzir necessariamente o mesmo efeito de consumir uma quantidade equivalente em outra estrutura alimentar.

Segundo Anderson, os nutrientes presentes nos laticínios são liberados gradualmente durante a digestão, justamente por causa das interações entre seus diferentes componentes.

Isso ajudaria a explicar por que estudos observacionais nem sempre encontram a relação negativa esperada entre laticínios integrais e saúde cardiovascular.

Para pessoas mais velhas, a descoberta pode ter outra importância

Os resultados também podem ser particularmente interessantes quando se pensa na alimentação durante o envelhecimento.

Com o avanço da idade, muitas pessoas passam a precisar de menos calorias. Ao mesmo tempo, manter uma ingestão adequada de proteínas, cálcio, vitamina D e outros nutrientes continua sendo fundamental.

Esse equilíbrio pode ser complicado.

Laticínios são alimentos familiares, amplamente disponíveis e relativamente densos em nutrientes, o que poderia torná-los uma opção prática para ajudar a atender determinadas necessidades nutricionais.

O estudo encontrou justamente um aumento na ingestão de cálcio, proteína e vitamina D entre os participantes que consumiram três porções diárias.

Isso não transforma os laticínios integrais em uma solução universal. Necessidades alimentares variam de acordo com idade, condições individuais, nível de atividade física e composição geral da dieta.

Também é importante considerar que o experimento teve apenas 74 participantes e duração de 12 semanas. Estudos maiores e mais prolongados são necessários para avaliar efeitos de longo prazo.

A ciência começa a olhar além do rótulo nutricional

Talvez a principal contribuição da pesquisa esteja menos em absolver ou condenar determinado alimento e mais em questionar a maneira como a nutrição foi analisada durante décadas.

Classificar alimentos exclusivamente pela presença de um nutriente pode produzir uma imagem incompleta.

Gordura saturada continua sendo relevante para a saúde cardiovascular. Mas o efeito de um alimento também pode depender de sua estrutura, dos demais nutrientes presentes e da dieta na qual ele está inserido.

É justamente essa visão que a hipótese da matriz alimentar tenta incorporar.

Os resultados das 12 semanas não significam que todos devam abandonar imediatamente versões desnatadas para voltar aos laticínios integrais. Tampouco provam que qualquer quantidade desses produtos seja benéfica.

Eles oferecem uma conclusão mais interessante: leite, queijo e outros derivados podem ser metabolicamente mais complexos do que sua quantidade de gordura sugere.

A velha pergunta “quanto de gordura existe neste alimento?” pode, portanto, precisar ser acompanhada por outra: em que tipo de alimento essa gordura está presente?

E essa pequena mudança de perspectiva pode acabar alterando a maneira como a ciência entende alimentos que estiveram sob suspeita durante décadas.

[Fonte: C3]

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