O envelhecimento não acontece apenas porque as células perdem sua capacidade de se reparar. Ao longo da vida, os próprios tecidos do corpo passam por transformações químicas que comprometem sua elasticidade e favorecem o surgimento de diversas doenças. Agora, um estudo publicado na revista Nature Communications apresenta uma estratégia inédita para combater um dos principais responsáveis por esse processo.
Cientistas da empresa de biotecnologia Revel Pharmaceuticals desenvolveram uma enzima capaz de eliminar um dos produtos finais de glicação avançada (AGEs), compostos que se acumulam naturalmente nos tecidos humanos com o passar dos anos. Em experimentos de laboratório, a tecnologia conseguiu reduzir esses marcadores em amostras de pele envelhecida, aproximando-os dos níveis encontrados em tecidos muito mais jovens.
Embora os resultados ainda estejam restritos ao laboratório, a pesquisa representa um avanço importante na busca por terapias capazes de tratar os danos provocados pelo envelhecimento.
O que são os AGEs e por que eles envelhecem o corpo?

Os produtos finais de glicação avançada, conhecidos pela sigla AGEs (Advanced Glycation End Products), surgem quando moléculas de açúcar reagem lentamente com proteínas e gorduras presentes no organismo.
É um processo semelhante ao que acontece quando um alimento ganha aquela coloração dourada durante o cozimento. No corpo humano, porém, essa reação ocorre continuamente, já que nossos tecidos permanecem durante décadas a uma temperatura próxima de 37 °C.
Com o tempo, esses compostos se acumulam em estruturas de longa duração, como o colágeno, tornando os tecidos mais rígidos e menos elásticos. Além disso, estimulam processos inflamatórios ligados a doenças cardiovasculares, complicações da diabetes, problemas renais e alterações na visão.
Há décadas, pesquisadores tentam impedir a formação dos AGEs por meio de medicamentos, mas os resultados obtidos até agora foram bastante limitados.
Inteligência artificial ajudou a encontrar a enzima
Em vez de impedir que esses compostos fossem produzidos, os pesquisadores decidiram procurar uma forma de removê-los depois que já estavam acumulados.
Para isso, recorreram à inteligência artificial.
A equipe analisou sequências de DNA de mais de 50 mil microrganismos, utilizando algoritmos para prever quais enzimas poderiam degradar os AGEs presentes nos tecidos humanos. A hipótese era simples: se os tecidos humanos conseguem ser completamente decompostos após a morte, a natureza provavelmente já possui mecanismos capazes de eliminar essas moléculas extremamente resistentes.
Depois de identificar alguns candidatos promissores, os cientistas utilizaram engenharia de proteínas para aprimorar uma dessas enzimas.
O resultado foi a criação da CMLase, uma enzima altamente eficiente na remoção de um dos AGEs mais comuns encontrados no organismo humano.
Pele envelhecida apresentou níveis semelhantes aos de pessoas mais jovens
Nos testes realizados em laboratório, a CMLase apresentou resultados bastante expressivos.
Segundo Aaron Cravens, diretor-executivo da Revel Pharmaceuticals e principal autor do estudo, a enzima conseguiu remover grande parte dos AGEs presentes em amostras de pele humana de aproximadamente 70 anos.
Em alguns casos, os níveis desses compostos ficaram semelhantes aos observados em tecidos de pessoas de cerca de 30 anos.
Isso, porém, não significa que a pele tenha efetivamente rejuvenescido quatro décadas.
O estudo demonstra apenas que um dos marcadores químicos do envelhecimento foi reduzido de maneira significativa. Ainda será necessário investigar se essa diminuição realmente melhora o funcionamento dos tecidos em organismos vivos.
A descoberta ainda está longe de virar um tratamento
Especialistas que não participaram da pesquisa classificaram o trabalho como um importante avanço científico.
O bioquímico John Baynes, que dedicou grande parte da carreira ao estudo dos AGEs, afirmou que a demonstração do funcionamento da enzima em tecidos humanos representa uma conquista técnica notável, principalmente porque tentativas anteriores de combater esses compostos fracassaram.
Já Michael C. Jewett, bioengenheiro da Universidade Stanford, destacou que o estudo oferece uma prova de conceito bastante promissora para futuras terapias voltadas ao envelhecimento.
Apesar do entusiasmo, ambos ressaltam que a tecnologia ainda precisa passar por testes em animais e, posteriormente, por ensaios clínicos antes que qualquer aplicação médica possa ser considerada.
O primeiro alvo serão doenças relacionadas à diabetes

Os pesquisadores pretendem iniciar o desenvolvimento da CMLase para tratar doenças oculares associadas à diabetes, nas quais os AGEs se acumulam na retina e no cristalino, contribuindo para a perda da visão.
Caso os estudos futuros confirmem sua eficácia e segurança, a enzima também poderá ser investigada para outras condições relacionadas ao envelhecimento, incluindo doenças cardiovasculares, problemas renais e alterações na elasticidade do colágeno.
Embora ainda não exista qualquer evidência de que essa tecnologia seja capaz de “rejuvenescer” pessoas, o trabalho demonstra que parte dos danos químicos acumulados nos tecidos pode ser revertida. Trata-se de um passo importante para compreender melhor o envelhecimento e desenvolver terapias que preservem a saúde dos tecidos por mais tempo.
[ Fonte: TN ]