A França prometeu endurecer sua oposição a qualquer tentativa da União Europeia de acelerar a aprovação do acordo comercial com o Mercosul, reacendendo um impasse político que se arrasta há anos em Bruxelas. A declaração do presidente francês, Emmanuel Macron, surge em um momento delicado para o bloco europeu, pressionado por disputas comerciais globais e por divisões internas sobre o futuro de sua política agrícola e industrial.
A posição francesa e o temor do setor agrícola
Durante uma reunião de gabinete nesta quarta-feira (17), Macron deixou claro que Paris não aceitará que a Comissão Europeia force a ratificação do acordo sem garantias adicionais. Segundo um porta-voz do governo francês, o presidente considera que o tratado, da forma como está, representa riscos significativos para os agricultores europeus, especialmente no que diz respeito à concorrência com produtos agrícolas sul-americanos.
Essa resistência ganhou ainda mais força após parlamentares da União Europeia aprovarem, na terça-feira (16), a defesa de controles mais rigorosos sobre importações agrícolas dentro do escopo do acordo. Para a França, essas salvaguardas são insuficientes diante do que o país vê como um desequilíbrio entre exigências ambientais impostas aos produtores europeus e as condições de produção no Mercosul.
Itália se soma à oposição e fragiliza o consenso europeu
A França não está sozinha. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que o país ainda não está pronto para apoiar o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. A posição italiana enfraquece as expectativas de que o tratado pudesse ser finalizado nos próximos dias, como vinha sendo discutido nos bastidores de Bruxelas.
Com França e Itália — duas das maiores economias do bloco — em campo contrário, a União Europeia vê crescer a dificuldade de construir um consenso mínimo para avançar. O acordo, que levou 25 anos para ser negociado, passa agora por um de seus momentos mais incertos.
Apoio do norte da Europa e o fator geopolítico

Em sentido oposto, países como Alemanha, Espanha e as nações nórdicas defendem abertamente a ratificação do acordo. Para esses governos, o tratado com o Mercosul é estratégico em um cenário de crescentes tensões comerciais globais.
Esses países argumentam que o acordo pode ajudar a impulsionar exportações europeias afetadas por tarifas impostas pelos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência da China. Um dos pontos centrais dessa defesa é o acesso a matérias-primas e minerais considerados essenciais para a transição energética e para cadeias industriais estratégicas.
Viagem de Ursula von der Leyen e expectativas frustradas
Antes do novo impasse, havia a expectativa de que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajasse ao Brasil no final desta semana para formalizar a assinatura do acordo. O tratado havia sido politicamente fechado há cerca de um ano entre a UE e o bloco do Mercosul, formado por Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Com a resistência aberta de França e Itália, essa viagem — e a própria assinatura do acordo — passaram a ser vistas como improváveis no curto prazo, reforçando a sensação de que o tratado ainda enfrenta um longo caminho até sair do papel.
Reação do setor produtivo brasileiro e defesa da reciprocidade

Do lado sul-americano, a possibilidade de salvaguardas europeias gera preocupação. Em entrevista à CNN Money, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, afirmou que os países do Mercosul devem adotar uma postura de reciprocidade caso o acordo entre em vigor com restrições que limitem o livre comércio.
Segundo Santin, o respeito efetivo às regras do comércio internacional será determinante. Caso contrário, o setor espera que o governo brasileiro, em coordenação com os demais países do Mercosul, responda com medidas equivalentes às impostas pelos europeus.
“Os efeitos das salvaguardas dependem da real adoção e do respeito ao livre comércio por parte do bloco europeu, sem práticas protecionistas. Do contrário, esperamos uma postura equivalente em reciprocidade”, afirmou.
Um acordo cercado por política e interesses divergentes
O novo capítulo da controvérsia deixa claro que o acordo Mercosul-UE vai além de tarifas e quotas comerciais. Ele se tornou um símbolo das tensões entre proteção agrícola, agenda ambiental, interesses industriais e disputas geopolíticas em um mundo cada vez mais fragmentado.
Enquanto isso, produtores, empresas e governos seguem à espera de uma definição que, mais de duas décadas depois do início das negociações, continua longe de um consenso definitivo.
[ Fonte: CNN Brasil ]