Quando se fala em inteligência artificial, a maioria das pessoas imagina chips avançados, algoritmos sofisticados e enormes centros de dados. Mas existe um elemento essencial que raramente aparece nas discussões sobre essa tecnologia. Antes que qualquer modelo de IA entre em funcionamento, milhares de profissionais precisam construir toda a infraestrutura que torna esse avanço possível. E justamente essa etapa começa a enfrentar um problema que preocupa toda a indústria.
A expansão da inteligência artificial está provocando uma corrida por profissionais especializados
O crescimento acelerado da inteligência artificial não depende apenas de processadores de última geração ou de grandes investimentos em tecnologia. Por trás de cada novo centro de dados existe uma enorme operação de engenharia que exige trabalhadores especializados em diversas áreas da construção.
Cada instalação precisa de eletricistas, soldadores, carpinteiros, encanadores, técnicos de climatização, instaladores de fibra óptica e profissionais responsáveis pelos sistemas de refrigeração que mantêm milhares de servidores funcionando sem interrupções.
O desafio é que praticamente todos os grandes projetos procuram esses mesmos profissionais ao mesmo tempo.
Os Estados Unidos concentram atualmente o maior número de data centers do planeta, enquanto empresas como Google, Meta, Microsoft, Amazon e OpenAI continuam anunciando novos complexos para atender à crescente demanda por inteligência artificial.
Diante da escassez de mão de obra, as gigantes da tecnologia passaram a fazer algo incomum: além de contratar trabalhadores, decidiram investir diretamente em sua formação.
O Google anunciou um programa de US$ 50 milhões para preparar mais de 300 mil profissionais em mais de vinte estados americanos. Os recursos serão destinados a sindicatos e organizações especializadas na formação de eletricistas, soldadores, técnicos em climatização, instaladores de fibra óptica e outros especialistas fundamentais para a construção da infraestrutura digital.
A BlackRock também entrou nessa disputa ao criar um fundo de US$ 100 milhões voltado à qualificação de cerca de 50 mil trabalhadores ao longo de cinco anos. Embora o programa apoie diferentes projetos de infraestrutura, os centros de dados estão entre seus principais beneficiários.
Já a Meta foi ainda mais longe ao lançar a America’s Workforce Academy, iniciativa que oferece cursos gratuitos, hospedagem, transporte, alimentação e auxílio financeiro aos participantes. Ao concluir a formação, os alunos ainda recebem ofertas de emprego de empresas contratadas para construir os data centers da companhia.

Os salários dispararam e outros setores começam a sentir os efeitos
A forte concorrência por profissionais especializados está elevando rapidamente os salários.
Um levantamento da plataforma Indeed mostrou que funções ligadas à instalação e construção de centros de dados pagam, em média, cerca de 42% mais do que cargos semelhantes em outros segmentos da construção civil. Em muitos casos, isso representa aproximadamente dez dólares extras por hora trabalhada.
Profissionais experientes frequentemente ultrapassam os US$ 100 mil anuais. Em posições mais especializadas, como supervisores e eletricistas altamente qualificados, a remuneração pode superar os US$ 200 mil por ano, principalmente quando há viagens constantes, pagamento de diárias e jornadas prolongadas.
As condições de trabalho ajudam a explicar esses valores.
Alguns projetos funcionam praticamente sem interrupção para cumprir cronogramas extremamente apertados. Em determinadas obras ligadas à infraestrutura para inteligência artificial, equipes trabalham em turnos de dez horas durante todos os dias da semana.
Esse movimento também provoca impactos em outros setores da economia.
Os mesmos eletricistas, carpinteiros e técnicos necessários para construir data centers também são essenciais em projetos habitacionais, fábricas, redes elétricas e obras públicas. Como os salários oferecidos pelas empresas de tecnologia costumam ser mais altos, muitas dessas obras acabam enfrentando dificuldades para contratar profissionais.
Estudos do setor apontam que a construção civil americana já precisava incorporar centenas de milhares de novos trabalhadores apenas para atender à demanda tradicional. A expansão acelerada da inteligência artificial tornou esse desafio ainda maior.
Existe ainda outra questão importante. Durante a construção de um centro de dados, milhares de pessoas podem trabalhar simultaneamente na obra. Depois que a instalação entra em operação, porém, apenas uma pequena equipe permanece responsável por sua manutenção.
Isso levanta dúvidas sobre o futuro desses profissionais quando a atual onda de construção diminuir. Por um lado, haverá mais trabalhadores qualificados disponíveis para outros setores da economia. Por outro, muitos podem encontrar dificuldades para manter os altos salários conquistados durante o auge da expansão da inteligência artificial.
A situação revela uma das maiores ironias dessa revolução tecnológica: apesar de toda a sofisticação dos algoritmos, a inteligência artificial continua dependendo de milhares de pessoas que instalam cabos, constroem paredes, montam sistemas elétricos e garantem que toda essa infraestrutura funcione diariamente.