Em uma eleição dominada pela disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula, outro resultado chamou atenção pela dimensão histórica. Erika Hilton, uma das principais vozes da esquerda na Câmara dos Deputados, conquistou quase 1,6 milhão de votos em São Paulo. O número não apenas garantiu sua reeleição com enorme vantagem: transformou a parlamentar de 33 anos na mulher mais votada da história brasileira em uma eleição para a Câmara dos Deputados.
Quase 1,6 milhão de votos mudaram o recorde
Erika Hilton, do PSOL, terminou a eleição de 2026 com 1.596.472 votos, segundo a totalização divulgada após a apuração em São Paulo.
O resultado colocou a parlamentar entre os candidatos a deputado federal mais votados do país e estabeleceu um novo recorde feminino para a Câmara dos Deputados.
Até então, a marca pertencia a Joice Hasselmann. Em 2018, quando foi eleita deputada federal por São Paulo, ela recebeu 1.078.666 votos. O recorde permaneceu por duas eleições até ser superado por Hilton.
A diferença é considerável: Erika recebeu mais de meio milhão de votos além da antiga marca.
O desempenho também representa um salto impressionante em comparação com sua própria eleição anterior. Em 2022, quando conquistou seu primeiro mandato na Câmara, Hilton havia recebido 256.903 votos.
Quatro anos depois, multiplicou esse resultado por mais de seis.
Os números oficiais das eleições podem ser consultados na plataforma de resultados do Tribunal Superior Eleitoral, responsável pela totalização nacional.
O recorde tem uma dimensão política ainda maior
O resultado de Erika Hilton chama atenção também por sua trajetória.
Nascida em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, em 1992, ela iniciou sua carreira eleitoral na política municipal. Em 2020, foi eleita vereadora da capital paulista com 50.508 votos.
Naquele momento, já havia alcançado uma marca importante ao se tornar a mulher mais votada para a Câmara Municipal de São Paulo naquela eleição.
Em 2022, avançou para Brasília e tornou-se uma das primeiras mulheres trans eleitas deputadas federais no Brasil, ao lado de Duda Salabert.
Negra e trans, Hilton construiu seu mandato principalmente em torno de temas relacionados aos direitos das mulheres, população LGBTQIA+, combate ao racismo, direitos humanos e questões trabalhistas.
Em março de 2026, atingiu outro marco ao assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, tornando-se a primeira parlamentar trans a ocupar o cargo.
Agora, a votação obtida nas urnas amplia consideravelmente seu peso político dentro e fora do PSOL.
Erika também virou uma das principais adversárias da direita

Durante seu primeiro mandato federal, Hilton ganhou projeção nacional não apenas por suas propostas, mas pelos embates com representantes da direita e do bolsonarismo.
Essa exposição transformou a parlamentar em uma figura altamente conhecida nas redes sociais e em debates políticos nacionais.
Um dos temas que ganharam destaque recentemente foi a redução da jornada de trabalho. Hilton passou a liderar no Congresso a defesa pelo fim da escala 6×1 e pela redução da carga semanal de trabalho, pauta que também recebeu apoio do governo Lula.
A parlamentar também apresentou iniciativas relacionadas à proteção da população trans e ao combate à violência política e à discriminação.
Ao mesmo tempo, tornou-se alvo frequente de críticas de políticos conservadores. Essa polarização ajudou a transformar sua candidatura em uma das mais visíveis da eleição legislativa paulista.
O resultado das urnas mostrou que essa exposição se converteu em votos.
A eleição paulista também produziu recordes do outro lado político
Existe um detalhe importante: Erika não foi a deputada federal mais votada do Brasil em 2026.
Outros candidatos conseguiram votações ainda maiores. Lucas Pavanato, do PL de São Paulo, ultrapassou três milhões de votos, enquanto Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, também superou a marca dos três milhões.
Os dois estão politicamente no campo oposto ao de Hilton.
Esse contraste ajuda a mostrar o nível de polarização da eleição brasileira. Enquanto nomes fortemente identificados com a direita conseguiram mobilizações históricas, uma das figuras mais conhecidas da esquerda também ampliou drasticamente seu eleitorado.
Em São Paulo, Erika ficou atrás de Pavanato, mas muito à frente de outros nomes conhecidos na disputa proporcional.
A também deputada do PSOL Sâmia Bomfim, por exemplo, conquistou pouco mais de 580 mil votos, menos da metade da votação registrada por Hilton.
Uma votação que vai além de uma reeleição
Ser reeleita já garantiria a Erika Hilton mais quatro anos na Câmara. O tamanho da votação, porém, modifica a dimensão política do resultado.
Uma parlamentar que entrou no Congresso em 2023 com cerca de 257 mil votos retorna agora respaldada por quase 1,6 milhão de eleitores.
Além disso, o resultado ocorre em um momento no qual questões relacionadas à população trans permanecem no centro de disputas políticas no Brasil e em outros países.
A eleição de Hilton não elimina a violência ou a discriminação enfrentadas por essa população, tampouco significa que suas posições sejam majoritárias entre os brasileiros.
Mas demonstra algo eleitoralmente mensurável: uma mulher negra e trans conseguiu construir uma base capaz de produzir a maior votação já registrada por uma mulher para a Câmara dos Deputados.
Em uma eleição marcada por números históricos tanto à direita quanto à esquerda, esse talvez seja um dos resultados mais simbólicos de 2026.