O Brasil vive uma situação aparentemente contraditória. Enquanto os indicadores oficiais mostram um mercado de trabalho aquecido e desemprego no menor nível da série histórica, milhões de brasileiros enfrentam jornadas prolongadas, rendimentos instáveis e dificuldades para pagar as contas. A expansão dos aplicativos de transporte e entrega ajuda a explicar esse contraste e se tornou um dos desafios mais delicados para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O desemprego caiu, mas a insatisfação continua crescendo
A taxa de desemprego brasileira atingiu 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, o menor patamar desde o início da série histórica do IBGE, em 2012.
O resultado representa um avanço importante para a economia, mas não significa que todos os trabalhadores estejam satisfeitos com suas condições de vida.
Uma pesquisa Quaest realizada em setembro mostrou que 49% dos brasileiros acreditam que a economia piorou no último ano. Apenas 19% consideram que houve melhora.
O endividamento das famílias, os juros elevados e a dificuldade de recuperar o poder de compra ajudam a explicar essa percepção.
Outro fator está na transformação silenciosa do mercado de trabalho: a expansão acelerada dos aplicativos.
Segundo os dados sobre trabalho por plataformas divulgados pelo IBGE, aproximadamente 2 milhões de brasileiros trabalharam por meio de aplicativos em 2025, considerando atividades principais e secundárias.
O contingente cresceu 36,8% em relação a 2022, revelando uma mudança significativa na maneira como milhões de pessoas conseguem renda.
A uberização virou uma alternativa para quem não encontra emprego

Para muitos brasileiros, trabalhar como motorista ou entregador não representa necessariamente uma escolha profissional planejada.
A dificuldade de encontrar oportunidades em outros setores aparece como uma das principais razões para ingressar nessas plataformas.
Em reportagem do Financial Times, publicada no Brasil pela Folha de S.Paulo, o ex-caminhoneiro Rafael Antunes, de 52 anos, relata que passou a dirigir para a Uber depois de perder o emprego.
Após duas décadas na profissão anterior, ele afirma que, dependendo do mês, recebe aproximadamente metade do rendimento que costumava ganhar.
A situação ilustra um fenômeno conhecido como uberização, caracterizado pela expansão do trabalho intermediado por plataformas digitais.
O economista Daniel Duque estima que esses serviços tenham reduzido a taxa geral de desemprego em aproximadamente um ponto percentual.
Isso significa que, sem as oportunidades oferecidas pelos aplicativos, os indicadores de desemprego poderiam ser menos favoráveis.
Entretanto, ter uma ocupação não significa necessariamente contar com estabilidade financeira.
Motoristas trabalham mais horas e nem sempre ganham mais
A flexibilidade é uma das principais vantagens apontadas por quem trabalha em plataformas digitais.
Poder escolher horários, conciliar estudos e organizar compromissos familiares atrai profissionais de diferentes idades.
Mas essa liberdade também apresenta custos.
Dados citados pelo Financial Times indicam que trabalhadores de aplicativos cumprem, em média, jornadas semanais 5,4 horas mais longas do que outros profissionais comparáveis do setor privado, embora seus rendimentos tenham se aproximado.
Além disso, motoristas precisam arcar com combustível, manutenção, seguro e depreciação dos veículos.
A cobertura previdenciária também preocupa. Conforme análise publicada pelo Jornal da Unicamp, apenas 25,5% dos condutores de automóveis que trabalhavam por plataformas contribuíam para a Previdência em 2025.
Essa realidade amplia a vulnerabilidade em casos de acidentes, doenças ou impossibilidade de trabalhar.
Por que essa transformação preocupa Lula?
A expansão dos aplicativos também representa um desafio político para o Partido dos Trabalhadores.
Lula construiu sua trajetória como líder sindical, defendendo direitos trabalhistas e empregos formais. Entretanto, parte da nova geração de trabalhadores valoriza a autonomia e demonstra resistência a modelos tradicionais de regulamentação.
O governo propôs mecanismos de proteção social e iniciativas de financiamento para motoristas adquirirem veículos próprios, incluindo uma linha de crédito anunciada de até R$ 30 bilhões.
As medidas, porém, não eliminaram as divergências sobre remuneração mínima, contribuição previdenciária e reconhecimento de vínculos trabalhistas.
A questão ganhou ainda mais importância às vésperas do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Analistas apontam que a insatisfação econômica pode influenciar o comportamento eleitoral, mesmo quando os indicadores nacionais apresentam resultados positivos.
O Brasil enfrenta uma mudança que vai além da política
O crescimento das plataformas revela uma transformação estrutural nas relações de trabalho.
O país reúne condições favoráveis a esse modelo: grandes centros urbanos, transporte público insuficiente em diversas regiões e uma longa tradição de informalidade.
São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte estão entre os maiores mercados da Uber no mundo.
A empresa sustenta que suas operações ampliam oportunidades de renda e contribuem para reduzir o desemprego.
Já especialistas em relações de trabalho alertam que o desafio é garantir proteção social sem eliminar a flexibilidade valorizada por muitos profissionais.
O futuro desse setor dependerá de como empresas, trabalhadores e governo conseguirão equilibrar autonomia, remuneração e segurança.
Para Lula, a questão é especialmente sensível: os números mostram que o Brasil está empregando mais pessoas, mas a experiência cotidiana de parte da população revela que ter trabalho e ter segurança financeira continuam sendo coisas muito diferentes.