Data centers de inteligência artificial estão crescendo em tamanho, consumo de energia e complexidade. Mas existe uma alternativa que parece saída de um filme de ficção científica: colocar parte dessa capacidade de processamento em órbita. A ideia já deixou de ser apenas um conceito distante. Enquanto empresas chinesas avançam com projetos cada vez mais ambiciosos, a Europa começa a discutir se está diante de uma oportunidade tecnológica ou de uma futura dependência estratégica.
O espaço está prestes a produzir uma quantidade absurda de dados
Satélites modernos não servem apenas para tirar fotografias. Eles monitoram incêndios, oceanos, agricultura, clima, tráfego marítimo, infraestrutura e comunicações. Com o crescimento das constelações e dos sensores, a quantidade de informações produzidas em órbita também dispara.
Segundo estimativas citadas pelo European Space Policy Institute (ESPI), o volume mundial de dados espaciais poderá chegar a aproximadamente 500 exabytes por ano em 2030, cerca de 14 vezes mais do que os níveis atuais.
Enviar tudo isso para a Terra antes de analisar cada informação pode ser ineficiente. Em muitos casos, uma inteligência artificial instalada diretamente no satélite poderia identificar um incêndio, uma embarcação ou uma imagem relevante e transmitir apenas aquilo que realmente interessa.
A Europa já experimenta essa lógica. O satélite Φsat-2, desenvolvido pela Agência Espacial Europeia em parceria com a Open Cosmos, utiliza inteligência artificial para analisar imagens no próprio espaço, podendo descartar fotografias encobertas por nuvens e identificar fenômenos como incêndios e embarcações.
O salto seguinte, porém, é muito maior.
Em vez de colocar apenas pequenos chips de IA em satélites, a proposta é construir verdadeiros centros de processamento orbitais. Eles poderiam receber enormes volumes de dados de diferentes satélites, processá-los e devolver à Terra apenas os resultados necessários.
E é justamente nesse ponto que a corrida começou a ficar interessante.
A China está transformando a ideia em infraestrutura
De acordo com o relatório do ESPI, a China passou rapidamente da discussão conceitual para projetos concretos de computação orbital.
Um dos marcos citados ocorreu em maio de 2025, quando a ADAspace apresentou a Three-Body Constellation, considerada pelo instituto um dos primeiros exemplos operacionais de computação espacial desse tipo.
Desde então, surgiram propostas ainda mais ambiciosas.
A empresa Nayuta Space, por exemplo, trabalha no conceito ALAYA, que prevê eventualmente uma constelação de até 12.500 satélites voltados à computação. Em julho de 2026, a Shanghai Xingshu Tiansuan Space Technology também anunciou um projeto que pretende chegar a aproximadamente 1.000 satélites.
Esses números ainda representam planos e objetivos, não uma rede gigantesca já construída. Mesmo assim, mostram a direção escolhida.
O aspecto mais importante talvez seja que esses projetos não estão surgindo isoladamente. O ESPI aponta para uma combinação de investimentos empresariais, apoio estatal, universidades, centros de pesquisa e incentivos locais.
Há ainda propostas chinesas para desenvolver uma infraestrutura espacial integrada envolvendo computação em nuvem, edge computing e terminais de comunicação. Algumas informações divulgadas por veículos estatais chegaram a mencionar uma escala futura de gigawatts, embora essas cifras não tenham sido verificadas de forma independente.
Ou seja: a corrida é real, mas algumas das promessas mais impressionantes ainda estão no papel.
O problema para a Europa não é apenas tecnológico
A União Europeia não está começando do zero.
Desde 2023, o bloco financia o projeto ASCEND, criado para estudar a possibilidade de instalar grandes centros de dados em órbita e avaliar seus impactos sobre infraestrutura, sustentabilidade e soberania digital.
Também existem experiências menores, como o Φsat-2, além de iniciativas privadas e projetos experimentais.
O receio apresentado pelo ESPI, portanto, não é que a Europa seja incapaz de desenvolver computação orbital. A questão é quem estabelecerá primeiro a arquitetura dessa nova infraestrutura.
Se empresas e governos chineses conseguirem criar plataformas de grande escala, definir padrões técnicos e construir uma rede operacional antes dos concorrentes, isso poderá gerar uma vantagem estratégica significativa.
Imagine, por exemplo, um futuro no qual satélites europeus produzam enormes quantidades de dados, mas parte do processamento necessário dependa de infraestrutura controlada por outro país. A questão deixaria de ser apenas comercial.
Seria uma questão de soberania tecnológica.
É por isso que o instituto europeu defende uma estratégia coordenada, com financiamento, regulamentação específica e uma iniciativa de grande escala para desenvolver capacidade própria.
A grande mudança está na forma de enxergar o problema. Durante décadas, os satélites foram principalmente olhos e antenas no espaço, enquanto os computadores ficavam no solo.
Agora, eles podem começar a se transformar também em computadores.
E, se a quantidade de dados continuar crescendo como previsto, talvez o próximo grande data center não seja construído perto de uma cidade ou de uma usina elétrica. Pode estar circulando centenas de quilômetros acima da nossa cabeça.