Durante muito tempo, falar em microplásticos significava pensar principalmente em oceanos, peixes, água engarrafada ou alimentos. Mas essas partículas minúsculas não parecem ficar restritas ao ambiente. Estudos recentes já encontraram sinais de sua presença em diferentes tecidos humanos. Agora, uma nova análise trouxe um detalhe especialmente intrigante: quando cientistas compararam amostras de diferentes épocas, perceberam que algo havia mudado de maneira significativa justamente em um dos órgãos mais protegidos do corpo.
Uma comparação entre diferentes épocas revelou algo difícil de ignorar
O estudo, liderado pelo toxicologista Matthew Campen, da Universidade do Novo México, analisou amostras de cérebro, fígado e rins de pessoas falecidas. Para identificar e medir as partículas plásticas, os pesquisadores utilizaram uma técnica de alta precisão chamada pirólise-cromatografia gasosa.
A primeira comparação chamou atenção imediatamente.
Nas amostras de cérebro coletadas em 2016, a concentração mediana de micro e nanoplásticos era de aproximadamente 3.345 microgramas por grama de tecido. Em amostras de 2024, esse valor chegou a 4.917 microgramas por grama.
A diferença representa um aumento próximo de 50%.
Os pesquisadores não encontraram uma explicação evidente relacionada à idade, sexo, etnia ou causa da morte que justificasse a diferença. O intervalo de tempo entre as amostras passou a ser um elemento particularmente interessante, especialmente diante do crescimento global da produção e do uso de plástico.
E havia outro detalhe ainda mais curioso: o cérebro apresentava concentrações muito maiores do que as encontradas no fígado e nos rins.
Isso chama atenção porque o cérebro não está completamente exposto ao que circula pelo sangue. Ele conta com a barreira hematoencefálica, uma estrutura que funciona como uma espécie de filtro biológico e dificulta a passagem de diversas substâncias.
Então, como essas partículas chegaram até lá?
O plástico encontrado não parece com aquilo que imaginamos
Entre os materiais identificados, um deles apareceu com grande destaque: o polietileno, um plástico presente em uma enorme variedade de produtos cotidianos, incluindo embalagens e sacolas.
Ele representou aproximadamente 75% das partículas encontradas nas amostras cerebrais.
Mas o tamanho e o formato também são importantes.
As partículas não apareciam simplesmente como pequenas esferas perfeitas. Muitas apresentavam formas irregulares, semelhantes a pequenas lâminas, fragmentos ou escamas. Algumas estruturas observadas tinham dimensões da ordem de 100 a 200 nanômetros.
Para ter uma ideia, estamos falando de partículas tão pequenas que seu comportamento dentro do organismo se torna extremamente difícil de acompanhar.
Os pesquisadores também encontraram uma diferença entre os tecidos durante o próprio processo de análise. Quando o material orgânico foi removido, praticamente toda a massa do fígado e dos rins desapareceu, enquanto uma proporção maior permaneceu nas amostras cerebrais.
Isso é compatível com a elevada concentração de material plástico encontrada no cérebro, mas não explica por que ela ocorre.
A resposta pode envolver a maneira como essas partículas entram no organismo, circulam pelo sangue, atravessam determinadas barreiras ou permanecem retidas em certos tecidos. Por enquanto, nenhuma dessas possibilidades foi estabelecida como explicação definitiva.
E as amostras mais antigas acrescentaram uma nova dimensão à descoberta.
O fenômeno pode ser muito mais antigo do que parecia
Para descobrir se o aumento observado entre 2016 e 2024 era apenas um evento recente, os pesquisadores foram ainda mais longe no passado.
Eles analisaram amostras de tecido cerebral preservadas desde 1997, provenientes de bancos de tecidos associados às universidades Duke, Harvard e Maryland.
A diferença voltou a aparecer.
Nessas amostras mais antigas, a concentração mediana de plástico era de aproximadamente 1.254 microgramas por grama de tecido, bem abaixo dos valores observados nas amostras mais recentes.
Isso é compatível com uma tendência de aumento ao longo de várias décadas, acompanhando a expansão mundial da produção e utilização de materiais plásticos.
Mas existe um resultado que exige ainda mais cautela: as concentrações foram especialmente altas em amostras de pessoas com demência. Nesse grupo, a mediana chegou a 26.076 microgramas por grama.
Isso não significa que o plástico cause demência.
O estudo encontrou uma associação, não uma relação de causa e efeito. Uma das hipóteses levantadas é que alterações na barreira hematoencefálica associadas a determinadas doenças poderiam facilitar a entrada ou o acúmulo dessas partículas. Também não está descartada a possibilidade de uma relação em sentido contrário.
Descobrir o que acontece primeiro exigirá estudos específicos.
A pergunta mais importante ainda não tem resposta
Encontrar micro e nanoplásticos no cérebro é uma coisa. Demonstrar o que eles fazem depois de chegar lá é outra completamente diferente.
Os pesquisadores ainda precisam determinar quanto tempo essas partículas permanecem nos tecidos, se o organismo consegue eliminá-las parcialmente e quais processos biológicos podem ser afetados.
Também não está totalmente esclarecido como elas percorrem o caminho desde o ambiente até o cérebro.
Isso é especialmente importante porque a presença de uma substância em determinado órgão não significa automaticamente que ela esteja provocando uma doença. Seria necessário demonstrar um mecanismo biológico consistente e reproduzível para estabelecer uma relação causal.
O que o estudo realmente acrescenta é uma peça importante ao quebra-cabeça: ao comparar tecidos humanos de diferentes períodos, os cientistas encontraram sinais compatíveis com um aumento da presença de plástico no cérebro ao longo das décadas.
Agora, a questão deixa de ser apenas quanto plástico existe ao nosso redor.
A pergunta passa a ser quanto dele consegue entrar no nosso corpo, onde permanece e, principalmente, o que acontece depois.