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Por que existe um território na África que permanece sem dono até hoje

Em um planeta onde quase toda a superfície pertence a algum país, existe uma exceção intrigante. Um território permanece oficialmente sem dono há mais de um século, e o motivo surpreende até especialistas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando pensamos no mapa-múndi, é natural imaginar que cada pedaço de terra esteja sob o controle de algum governo. Afinal, disputas por ilhas, fronteiras e recursos naturais fazem parte da história da humanidade. Mas existe uma rara exceção que desafia essa lógica. Em uma região desértica da África, um território continua oficialmente sem soberania reconhecida, resultado de uma combinação improvável de decisões coloniais, interesses estratégicos e impasses diplomáticos que permanecem sem solução até hoje.

Um dos últimos territórios sem soberania do planeta

Em pleno século XXI, encontrar uma área que não pertença oficialmente a nenhum país parece impossível. No entanto, esse lugar realmente existe. Com aproximadamente 2.060 quilômetros quadrados, Bir Tawil é considerado uma das poucas terra nullius ainda existentes — expressão em latim usada para definir territórios que não possuem soberania reconhecida por nenhum Estado.

Apesar de muita gente se referir ao local como o “Triângulo de Bir Tawil”, sua forma geográfica lembra mais um trapézio. O cenário também está longe de despertar interesse imediato: trata-se de uma vasta região desértica, marcada por temperaturas extremas, escassez quase absoluta de água e ausência de população permanente.

Essas características tornam praticamente inviável a criação de cidades ou atividades econômicas relevantes. No entanto, o verdadeiro motivo para Bir Tawil permanecer sem dono não está nas dificuldades naturais, mas sim em um curioso episódio da história colonial que criou uma das situações geopolíticas mais peculiares do planeta.

Como um erro de fronteira criou um vazio no mapa

A origem dessa história remonta ao período em que o Reino Unido administrava a região. Em 1899, os britânicos estabeleceram oficialmente a fronteira entre Egito e Sudão utilizando o paralelo 22 norte como referência.

Poucos anos depois, em 1902, autoridades coloniais decidiram modificar essa divisão para facilitar a administração das tribos nômades que circulavam pelo deserto. A mudança parecia apenas uma questão administrativa, mas acabou criando duas interpretações diferentes sobre onde deveria estar a verdadeira fronteira.

Foi justamente dessa contradição que surgiram dois territórios ligados ao mesmo impasse: Bir Tawil e o chamado Triângulo de Hala’ib.

Quando Egito e Sudão conquistaram sua independência, em 1956, ambos herdaram o problema. Cada governo passou a defender o mapa que mais favorecia seus próprios interesses, tornando impossível aceitar simultaneamente as duas versões da fronteira.

O motivo pelo qual ninguém quer reivindicar Bir Tawil

À primeira vista, parece estranho que dois países simplesmente ignorem um território inteiro. Mas existe uma explicação bastante lógica.

A região de Hala’ib possui enorme importância estratégica. Além de ser muito maior que Bir Tawail, conta com acesso ao Mar Vermelho, população residente, infraestrutura e potencial econômico considerável. Estudos realizados ao longo das últimas décadas também indicam a possível existência de recursos naturais, incluindo reservas de petróleo.

O problema é que aceitar oficialmente Bir Tawil significaria reconhecer a interpretação da fronteira que entregaria Hala’ib ao país vizinho.

Por esse motivo, tanto Egito quanto Sudão preferem manter suas reivindicações sobre Hala’ib e, ao mesmo tempo, deixar Bir Tawil completamente de lado. Assim, o território permanece, na prática, sem proprietário oficial.

Essa situação inusitada despertou a curiosidade de aventureiros ao longo dos anos. Alguns chegaram a declarar a criação de supostos reinos e micronações na região, hasteando bandeiras e proclamando soberania. Nenhuma dessas iniciativas, porém, recebeu qualquer reconhecimento internacional e todas acabaram tratadas apenas como curiosidades históricas.

Mais de um século depois de um simples traço desenhado sobre um mapa colonial, Bir Tawil continua sendo uma das maiores anomalias geográficas e políticas do mundo. Em uma época marcada por disputas territoriais constantes, esse pedaço isolado do deserto permanece como um raro lugar que, oficialmente, ainda não pertence a ninguém.

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