Uma colmeia pode continuar cheia de abelhas depois da chegada de uma nova rainha. Mas isso significa que a mesma colônia sobreviveu? Hannes Bonhoff, da Universidade de Lund, e Heikki Helanterä, da Universidade de Oulu, defendem outra interpretação. Em uma revisão publicada na revista Insectes Sociaux, eles vinculam a identidade da colônia à rainha e à sua composição genética. O debate envolve a definição de continuidade biológica.
O ninho e a colônia não são a mesma coisa

O conceito de superorganismo compara uma sociedade de insetos a um corpo formado por partes especializadas. As abelhas desempenham funções que sustentam o conjunto, como reprodução, alimentação das crias e coleta de recursos.
Na revisão publicada em agosto de 2026, os pesquisadores defendem que a identidade desse conjunto depende da rainha e dos zangões com os quais ela acasalou.
Uma nova rainha estabelece outra combinação genética. Nessa interpretação, a ocupação contínua do mesmo abrigo pode esconder uma sucessão de colônias distintas.
O “fim” mencionado pelos autores corresponde, portanto, à identidade do superorganismo. A proposta não demonstra que introduzir outra rainha provoque automaticamente a morte de todas as abelhas ou o esvaziamento da colmeia.
A rainha antiga leva a colônia materna consigo
A Universidade de Lund explica a proposta a partir da enxameação. Nesse processo, a rainha antiga sai com parte das operárias para procurar outro local.
Uma rainha jovem permanece no ninho original. Para os pesquisadores, ela dará origem à colônia filha, enquanto o grupo que partiu representa a continuidade da colônia materna.
Essa leitura desloca o foco do endereço para a linhagem. O abrigo antigo pode continuar ocupado pela descendência, enquanto a unidade materna passa a viver em outro lugar.
As operárias que ficam ajudam a sustentar a nova geração. Por isso, os autores interpretam esse período como uma forma intensa de cuidado parental.
As operárias também ajudam na transição
O cuidado envolve fornecer alimento, proteção e um ninho já construído. Segundo a divulgação da universidade, as abelhas mais velhas também contribuem para orientar as novas coletoras.
A comunicação ocorre por meio da dança das abelhas, que transmite informações sobre fontes de alimento. Assim, a geração seguinte recebe recursos e informações úteis para começar a funcionar.
Bonhoff compara esse desenvolvimento ao de um organismo que depende de cuidados durante sua formação. É uma analogia biológica usada para interpretar a organização coletiva, e não uma equivalência literal entre insetos e mamíferos.
A proposta questiona práticas da apicultura

Conforme a reportagem da Infobae, a discussão alcança a substituição artificial de rainhas para manter a produtividade.
Pela interpretação apresentada, essa intervenção pode interromper a identidade da colônia anterior, cujas últimas operárias passam a criar descendentes de outra rainha.
A hipótese também altera a leitura de estudos sobre perdas e parasitas. Acompanhar por quanto tempo um ninho permanece ocupado pode não revelar quantas gerações passaram por ele nem o destino de grupos que emigraram.
Isso exige separar a persistência do abrigo da sobrevivência de uma unidade biológica específica.
Uma revisão abre perguntas para novas pesquisas

O trabalho reúne e interpreta estudos anteriores. Não apresenta um experimento mostrando que toda troca de rainha leva ao colapso de uma colmeia.
Suas implicações para o manejo e a resistência a parasitas precisam de investigação adicional, com métodos capazes de acompanhar rainhas, linhagens e deslocamentos ao longo do tempo.
A proposta oferece uma pergunta diferente para estudar essas sociedades: quando observamos abelhas no mesmo ninho, estamos acompanhando a sobrevivência de uma colônia ou a continuidade de sua descendência?