Durante bilhões de anos, estrelas iluminam os planetas que se formaram ao seu redor. Quando seu combustível termina, porém, o destino desses mundos costuma ser incerto. Alguns são destruídos, enquanto outros sobrevivem em órbitas distantes. Agora, astrônomos encontraram evidências de um fenômeno ainda mais intrigante: um planeta que pode ter surgido somente depois que sua estrela morreu, utilizando justamente o material deixado por ela.
Uma descoberta que desafia o ciclo de vida dos planetas

Uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, identificou evidências de um possível planeta de segunda geração orbitando uma estrela morta.
O objeto recebeu o apelido de “planeta fênix”, em referência à criatura mitológica que renasce das próprias cinzas. A comparação não é apenas poética: os cientistas acreditam que esse mundo tenha se formado a partir dos gases e materiais expulsos por sua estrela durante os últimos estágios de existência.
O sistema estudado abriga a anã branca HS 0209+0832, um remanescente estelar localizado na constelação de Cetus, também conhecida como Baleia.
Anãs brancas são núcleos extremamente densos que permanecem depois que estrelas semelhantes ao Sol esgotam seu combustível nuclear e perdem suas camadas externas.
Normalmente, os planetas surgem durante a juventude de suas estrelas, a partir de discos de gás e poeira. Nesse caso, entretanto, os pesquisadores suspeitam que o processo tenha ocorrido muito mais tarde, quando a estrela original já havia encerrado sua evolução principal.
A pesquisa, publicada em outubro de 2026 na revista científica Nature Astronomy, apresenta evidências de um fenômeno considerado extremamente raro.
O mistério começou com uma observação feita em 1999
A descoberta ganhou força quando os astrônomos decidiram revisitar observações antigas do Telescópio Espacial Hubble, realizadas em janeiro de 1999.
Naquela época, os instrumentos haviam registrado sinais químicos incomuns na atmosfera da anã branca. Algumas linhas espectrais permaneceram sem identificação durante mais de duas décadas.
Ao reexaminar os dados, o pesquisador Jamie Williams e seus colegas encontraram concentrações surpreendentes de elementos como nióbio, cobre e zinco.
Esses elementos forneceram uma pista decisiva.
Segundo os cientistas, determinadas abundâncias químicas são características de processos nucleares que ocorrem durante os estágios finais da evolução de estrelas gigantes.
O chamado processo-s, responsável pela formação de vários elementos pesados por captura lenta de nêutrons, pode deixar uma assinatura química identificável no material expelido por estrelas envelhecidas.
Essa composição seria difícil de explicar caso o material tivesse origem exclusivamente em um planeta convencional, formado juntamente com a estrela.
Conforme explica a NASA em sua divulgação oficial da descoberta, a hipótese é que a anã branca esteja absorvendo matéria de um planeta criado com os próprios resíduos estelares.
Assim, os elementos detectados pelo Hubble seriam vestígios de um mundo que nasceu depois da morte de sua estrela.
Um gigante semelhante a Júpiter pode estar sendo destruído
As observações do satélite TESS, também da NASA, acrescentaram uma peça importante ao quebra-cabeça.
Os pesquisadores identificaram uma variação periódica de brilho com duração aproximada de 4,4 dias, compatível com a presença de um objeto orbitando muito próximo da anã branca.
A hipótese mais promissora envolve um planeta gasoso de dimensões comparáveis às de Júpiter, situado a aproximadamente seis milhões de quilômetros de sua estrela.
Essa proximidade pode estar provocando um processo de perda atmosférica.
Apesar de não produzir energia por fusão nuclear como uma estrela ativa, a anã branca permanece extremamente quente. Sua intensa radiação ultravioleta pode aquecer as camadas externas do planeta e fazer com que parte de sua atmosfera escape para o espaço.
O material liberado seria posteriormente atraído pela gravidade da estrela, explicando a presença dos elementos químicos detectados.
O fenômeno apresenta uma situação peculiar: a estrela teria fornecido a matéria necessária para formar um novo planeta e agora estaria absorvendo parte desse mesmo mundo.
Ainda assim, os pesquisadores destacam que a existência e a origem do planeta precisam de confirmação por novas observações.
Como uma estrela morta poderia criar outro planeta?
A principal dificuldade dessa hipótese está na formação do disco de matéria necessário para produzir um planeta.
Quando uma estrela semelhante ao Sol envelhece, transforma-se em gigante vermelha e libera grandes quantidades de gás para o espaço.
Em condições normais, boa parte desse material se dispersa, dificultando sua concentração em uma estrutura capaz de formar novos corpos planetários.
Os pesquisadores consideram que uma possível estrela companheira tenha desempenhado um papel fundamental nesse processo.
Sua influência gravitacional poderia ter impedido que parte do material escapasse completamente, favorecendo a formação de um disco ao redor da futura anã branca.
Com o tempo, esse material poderia se acumular e originar um planeta de segunda geração.
A divulgação científica do Conselho Europeu de Pesquisa destaca que encontrar evidências desse mecanismo ao redor de uma anã branca amplia as possibilidades conhecidas de formação planetária.
O mesmo fenômeno poderia acontecer com o nosso Sol?
A descoberta também desperta uma pergunta sobre o futuro do Sistema Solar.
Daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos, o Sol começará a passar por transformações profundas, expandindo-se até alcançar a fase de gigante vermelha. Posteriormente, perderá suas camadas externas e terminará como uma anã branca.
Esse processo deverá alterar drasticamente as condições dos planetas que hoje conhecemos.
Entretanto, a possibilidade de formação de novos mundos a partir do material solar permanece especulativa. O mecanismo proposto para HS 0209+0832 pode depender de circunstâncias específicas, como a presença de uma estrela companheira.
Por enquanto, o planeta fênix continua sendo um candidato cuja natureza precisa ser investigada.
Os astrônomos esperam que novas observações, inclusive com instrumentos como o Telescópio Espacial James Webb, ajudem a esclarecer sua composição e origem.
Se a hipótese for confirmada, a descoberta mostrará que a morte de uma estrela não representa necessariamente o fim definitivo da formação planetária. Em circunstâncias extraordinárias, ela pode fornecer os ingredientes para o nascimento de um mundo completamente novo.