Entender como o Universo surgiu e como a matéria se comporta em condições extremas continua sendo um dos maiores desafios da ciência. Para buscar essas respostas, pesquisadores precisam de equipamentos capazes de reproduzir fenômenos que normalmente só acontecem em estrelas, supernovas ou colisões cósmicas. Agora, a China acaba de colocar em funcionamento uma infraestrutura gigantesca que promete impulsionar descobertas fundamentais e aplicações tecnológicas para as próximas décadas.
Um acelerador capaz de reproduzir fenômenos que quase nunca acontecem na Terra
Após quase oito anos de construção, a China iniciou a fase de operação experimental do High Intensity Heavy-ion Accelerator Facility (HIAF), um dos maiores aceleradores de íons pesados do mundo. Localizado na cidade de Huizhou, na província de Guangdong, o complexo acaba de superar sua etapa de aceitação técnica e passa, agora, a receber os primeiros experimentos científicos.
As obras começaram em dezembro de 2018 e, em outubro de 2025, o equipamento produziu seu primeiro feixe completo de partículas. A instalação impressiona pelos números: são aproximadamente dois quilômetros de extensão, mais de seis mil grandes conjuntos de equipamentos e cerca de cinco milhões de componentes integrados.
O funcionamento do HIAF começa com partículas conhecidas como íons. Elas são átomos que perderam ou ganharam elétrons, adquirindo carga elétrica. Essa característica permite que sejam aceleradas e controladas por campos eletromagnéticos até atingirem velocidades extremamente elevadas.
No complexo chinês, os íons passam inicialmente por um acelerador linear supercondutor. Em seguida, entram em um sincrotron, onde acumulam ainda mais energia, antes de serem enviados para um anel de armazenamento responsável pelas medições de alta precisão.
Segundo os responsáveis pelo projeto, o HIAF é a primeira infraestrutura desse tipo a combinar um acelerador linear supercondutor, um sincrotron de ciclo rápido e um anel de armazenamento em uma única arquitetura integrada. Essa configuração permite gerar tanto feixes contínuos de alta intensidade quanto pulsos extremamente concentrados.
Quando essas partículas atingem um alvo, funcionam como microscópicos projéteis capazes de romper núcleos atômicos, produzir isótopos altamente instáveis e criar formas de matéria que normalmente existem apenas durante frações de segundo em eventos cósmicos extremos.
O projeto também pode acelerar avanços na medicina, na indústria espacial e em novos materiais
Embora tenha sido desenvolvido para pesquisas em física nuclear, o potencial do HIAF vai muito além da investigação científica básica.
Um dos principais objetivos será compreender os limites da estabilidade da matéria. Os pesquisadores pretendem estudar até que ponto prótons e nêutrons conseguem permanecer unidos dentro de um núcleo atômico, além de investigar como elementos pesados, como o urânio, surgiram em eventos como supernovas e colisões entre estrelas de nêutrons.
Os cientistas também pretendem realizar experimentos voltados à síntese de novos elementos superpesados. Isso não significa que a tabela periódica será ampliada rapidamente, já que esses núcleos costumam existir por períodos extremamente curtos e exigem milhões de colisões para serem produzidos.
Outra aplicação importante envolve a indústria espacial. Os feixes produzidos pelo HIAF conseguem simular parte da intensa radiação encontrada no espaço, permitindo testar componentes eletrônicos destinados a satélites, sondas e futuras missões espaciais.
Esses experimentos ajudam a identificar falhas antes do lançamento dos equipamentos, já que partículas altamente energéticas podem alterar dados armazenados em chips, provocar falhas temporárias ou até danificar permanentemente circuitos eletrônicos.
O acelerador também será utilizado para estudar o comportamento de materiais expostos à radiação intensa, incluindo componentes destinados a reatores nucleares e futuras usinas de fusão. Em vez de esperar anos para observar o desgaste natural, os pesquisadores conseguem acelerar esses efeitos em laboratório e avaliar quais ligas metálicas apresentam maior resistência.
As aplicações médicas também fazem parte dos planos. O HIAF deverá contribuir para pesquisas envolvendo radioisótopos utilizados em diagnósticos, desenvolvimento de novos materiais biomédicos e tratamentos oncológicos baseados em feixes de íons pesados. Embora não funcione como um hospital, a infraestrutura poderá fornecer conhecimentos e tecnologias fundamentais para futuras terapias.
Durante os testes iniciais, os responsáveis pelo projeto afirmaram ter estabelecido novos recordes de intensidade para feixes de oxigênio e bismuto, além de completar o ajuste operacional dos dois quilômetros da instalação em apenas 16 horas. Esses resultados ainda precisarão ser confirmados por futuras publicações científicas e experimentos independentes.
Mesmo em sua fase inicial de operação, o HIAF já demonstra a dimensão da estratégia chinesa para fortalecer sua pesquisa científica. Mais do que estudar a estrutura da matéria, o complexo foi concebido para conectar descobertas fundamentais da física a aplicações práticas em áreas como energia, exploração espacial, medicina e desenvolvimento de tecnologias avançadas.