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Tecnologia

Quanto custa perguntar algo ao ChatGPT? A resposta envolve água, eletricidade e bilhões de mensagens

Cada conversa com uma IA exige eletricidade e água para manter enormes centros de dados funcionando. Individualmente, o impacto parece mínimo. Em escala global, a história muda completamente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pedir uma receita, revisar um e-mail ou fazer uma pergunta ao ChatGPT parece uma atividade completamente virtual. Mas existe uma enorme infraestrutura física trabalhando nos bastidores. Processadores consomem eletricidade, servidores produzem calor e sistemas de refrigeração podem utilizar água para manter tudo funcionando. Empresas de tecnologia começaram a revelar quanto uma consulta pode consumir — e os números parecem insignificantes até lembrarmos quantas perguntas são feitas diariamente.

Uma pergunta consome menos energia do que você provavelmente imagina

Quanto custa perguntar algo ao ChatGPT? A resposta envolve água, eletricidade e bilhões de mensagens
© Unsplash

Existe uma espécie de conta invisível cada vez que alguém envia uma mensagem para uma inteligência artificial.

Segundo números divulgados por Sam Altman, uma consulta média ao ChatGPT utiliza aproximadamente 0,34 Wh de eletricidade e cerca de 0,32 mililitro de água. Em termos individuais, é muito pouco: o próprio executivo comparou o gasto energético ao funcionamento de um forno por pouco mais de um segundo.

O Gemini apresenta valores semelhantes.

Segundo dados divulgados pelo Google para uma solicitação de texto de tamanho médio, uma interação utiliza aproximadamente 0,24 Wh de energia e 0,26 mililitro de água. A empresa compara o consumo energético a assistir televisão durante menos de nove segundos.

Vistos isoladamente, esses números dificilmente parecem motivo para preocupação.

O problema aparece quando uma consulta deixa de ser uma consulta.

Usuários do ChatGPT enviam cerca de 2,5 bilhões de mensagens por dia, segundo números da OpenAI citados pela Bloomberg Línea.

Se cada interação representa uma pequena quantidade de eletricidade e água, bilhões delas começam a produzir uma equação completamente diferente.

E para entender de onde vem esse consumo é preciso sair da tela do computador e entrar em um lugar que a maioria dos usuários nunca verá.

Por trás de cada resposta existe uma enorme máquina física

Quanto custa perguntar algo ao ChatGPT? A resposta envolve água, eletricidade e bilhões de mensagens
© Unsplash

Uma pergunta enviada a um chatbot precisa chegar a um centro de dados.

Lá dentro, grandes quantidades de processadores realizam os cálculos necessários para interpretar a solicitação e produzir uma resposta. Esses equipamentos precisam de eletricidade e, durante o funcionamento, produzem calor.

Esse calor precisa ser removido.

Dependendo da infraestrutura e da tecnologia utilizada, sistemas de refrigeração podem consumir água direta ou indiretamente. Quanto maior a utilização dos modelos e mais complexas as tarefas realizadas, maior pode ser a demanda computacional.

Essa última diferença é particularmente importante.

Nem toda interação com IA possui o mesmo impacto. Uma pergunta simples pode exigir relativamente poucos recursos, enquanto tarefas que envolvem raciocínio prolongado ou processos computacionais mais complexos podem elevar significativamente o consumo. Uma análise mencionada pela Bloomberg Línea aponta que determinadas tarefas intensivas em raciocínio podem ter impacto ambiental milhares de vezes maior do que solicitações simples.

Portanto, não existe um número universal capaz de representar perfeitamente “quanto custa uma pergunta à IA”.

Existe uma média.

E ela está sendo multiplicada por uma quantidade de usuários que continua crescendo.

Os centros de dados estão se tornando uma nova peça do quebra-cabeça energético

A expansão da inteligência artificial acontece ao mesmo tempo em que empresas de tecnologia constroem e ampliam enormes centros de dados.

Segundo projeções da Agência Internacional de Energia citadas pela Bloomberg Línea, o consumo global de eletricidade dessas instalações pode dobrar até 2030, chegando a aproximadamente 3% da demanda mundial de eletricidade. Estados Unidos e China devem responder por quase 80% do crescimento projetado nesse período.

Mas eletricidade é apenas metade da discussão.

Há também a água.

Estimativas acadêmicas mencionadas pela publicação apontam que a demanda global de água doce associada à inteligência artificial poderia atingir entre 4,2 bilhões e 6,6 bilhões de metros cúbicos em 2027.

Esses números precisam ser interpretados com cautela porque dependem de hipóteses sobre crescimento, infraestrutura e tecnologias utilizadas.

Ainda assim, revelam por que a localização dos centros de dados está se transformando em uma questão ambiental e política.

O problema não é apenas quanta água é usada — mas onde ela é usada

Consumir determinada quantidade de água em uma região com grande disponibilidade hídrica não produz necessariamente o mesmo impacto que utilizar esse volume em um lugar onde moradores, agricultura e indústria já disputam um recurso escasso.

É aí que aparece o conceito de estresse hídrico.

Uma investigação da Bloomberg citada pelo artigo encontrou aproximadamente dois terços dos novos centros de dados construídos ou em desenvolvimento nos Estados Unidos desde 2022 em regiões que já enfrentavam níveis elevados de estresse hídrico. Apenas cinco estados concentravam 72% dos novos projetos localizados nessas áreas.

A discussão também chegou à América Latina.

O Google está desenvolvendo infraestrutura de data center em Canelones, no Uruguai. No Chile, outro projeto em Santiago chegou a ser temporariamente suspenso em meio a questionamentos sobre seu possível impacto em aquíferos enquanto a empresa buscava uma nova autorização ambiental.

Isso mostra por que reduzir toda a discussão a “quantos mililitros uma pergunta gasta” pode ser enganoso.

O impacto depende de onde a infraestrutura está instalada, como a eletricidade é produzida, qual tecnologia de refrigeração é utilizada e quão complexo é o processamento solicitado.

A IA não existe apenas dentro da tela

A inteligência artificial costuma parecer uma tecnologia abstrata.

Digitamos algumas palavras, esperamos segundos e uma resposta aparece. Não vemos turbinas, tubulações, processadores ou sistemas de refrigeração.

Mas todos eles existem em algum lugar.

Isso não significa que usuários devam parar de utilizar ferramentas de IA por causa de cada pergunta. Também não significa que toda consulta provoque exatamente o mesmo impacto ambiental.

A questão mais importante está na escala.

Uma interação individual pode representar apenas uma fração minúscula de eletricidade e algumas gotas de água. Multiplique isso por bilhões de mensagens diárias, modelos cada vez maiores e centros de dados espalhados pelo planeta, e aquela conversa aparentemente imaterial começa a ganhar uma dimensão bastante física.

Talvez essa seja a parte mais surpreendente da conta ambiental da inteligência artificial: o custo de uma única pergunta é quase invisível — o problema começa quando o mundo inteiro faz perguntas ao mesmo tempo.

[Fonte: Bloomberg]

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