Quando uma startup estrangeira pensa em entrar no Brasil, São Paulo costuma parecer o destino inevitável. Afinal, é ali que estão grandes empresas, investidores e boa parte do mercado. Mas existe uma alternativa crescendo longe da metrópole. Florianópolis construiu um ecossistema tecnológico tão relevante que ganhou o apelido de “Island Valley” — e seus números ajudam a explicar por que empresas de outros países começam a olhar para a ilha de maneira diferente.
São Paulo pode não ser mais a primeira parada obrigatória

Entrar diretamente no maior centro econômico brasileiro possui vantagens, mas também significa enfrentar custos elevados, disputa por profissionais e enorme concorrência.
A experiência da chilena NotCo ilustra essa dificuldade. Seu CEO, Matías Muchnick, já contou que a entrada da companhia no Brasil consumiu cerca de um ano e meio e muitos recursos. Agora, Florianópolis aparece como uma possível alternativa para empresas estrangeiras que querem testar o mercado brasileiro antes de apostar todas as fichas em São Paulo.
A capital catarinense combina proximidade geográfica com outros países do Cone Sul, qualidade de vida e uma concentração tecnológica incomum para uma cidade de seu tamanho.
O apelido “Island Valley”, inspirado no Silicon Valley, não surgiu apenas como estratégia de marketing.
A tecnologia se tornou parte relevante da própria economia local.
Segundo dados apresentados pela reportagem, Santa Catarina reúne cerca de 34,2 mil empresas de base tecnológica, mais de 102 mil empregos formais no setor e faturamento de aproximadamente R$ 47,9 bilhões.
E Florianópolis está no centro desse movimento.
Uma em cada quatro riquezas produzidas na cidade já está ligada à tecnologia

A dimensão do fenômeno aparece em um número especialmente impressionante: segundo os dados citados pela La Tercera, a tecnologia representa cerca de 25% do PIB municipal de Florianópolis.
Santa Catarina também se consolidou como o segundo estado brasileiro em geração de empregos tecnológicos, superando Minas Gerais.
Isso ajuda a transformar Florianópolis em algo diferente de um polo formado apenas por pequenas startups.
Existe uma cadeia envolvendo universidades, empresas, entidades de apoio e governo, estrutura conhecida localmente como modelo da “tríplice hélice”.
Na prática, essa articulação cria programas de capacitação, conexões empresariais e iniciativas destinadas a ajudar negócios tecnológicos a crescer.
O Startup Summit 2026 mostrou a dimensão alcançada pelo ecossistema. Realizado recentemente na cidade, o evento reuniu cerca de 30 mil participantes, 150 fundos de venture capital e 180 grandes corporações.
Nesta edição, o encontro também reforçou sua internacionalização, atraindo delegações e participantes de dezenas de países.
A estratégia é crescer em Florianópolis e vender em São Paulo
Talvez a parte mais interessante do modelo seja que Florianópolis não precisa substituir São Paulo.
As duas cidades podem cumprir funções diferentes.
Empresas podem concentrar equipes técnicas, pesquisa, desenvolvimento e inteligência artificial em Santa Catarina, onde encontram um ambiente menos disputado, enquanto mantêm operações comerciais na capital paulista.
Gabriel Sant’Ana, diretor executivo da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), explica que esse modelo já é utilizado por companhias da região. São Paulo continua sendo o maior mercado, mas Florianópolis oferece condições mais favoráveis para construir e manter equipes.
Para startups estrangeiras, essa divisão pode ser especialmente interessante.
Em vez de desembarcar diretamente em uma das cidades mais caras e competitivas da América Latina, elas poderiam utilizar Florianópolis como laboratório para entender consumidores, contratar profissionais e adaptar seus produtos ao Brasil.
Depois, São Paulo funcionaria principalmente como centro comercial.
Existe uma oportunidade que ainda parece pouco explorada
A reportagem da La Tercera chama atenção especialmente para as startups chilenas.
Apesar da proximidade entre os dois países e de Florianópolis possuir conexões internacionais crescentes, a presença de empresas chilenas no ecossistema catarinense ainda é pequena.
Isso pode criar uma janela interessante para quem chegar cedo.
O próprio ecossistema de Santa Catarina acompanha iniciativas como a Start-Up Chile e demonstra interesse em construir pontes com empresas e hubs tecnológicos do país vizinho.
Mas a história vai além do Chile.
Florianópolis mostra como cidades relativamente menores podem construir polos tecnológicos importantes sem tentar reproduzir exatamente São Paulo, Santiago ou Buenos Aires.
A estratégia passa por especialização, universidades, políticas de apoio, disponibilidade de profissionais e conexão com mercados maiores.
Durante décadas, a ilha foi conhecida principalmente pelas praias que atraem turistas todos os verões.
Agora, existe outro motivo para olhar em sua direção.
E talvez o detalhe mais interessante seja justamente este: uma das próximas grandes portas de entrada para o mercado tecnológico brasileiro pode estar longe dos arranha-céus de São Paulo e cercada pelo Atlântico.
[Fonte: La tercera]