Poucas empresas simbolizam tanto a primeira geração dos pagamentos pela internet quanto o PayPal. Depois de atravessar o boom do comércio eletrônico e se transformar em uma gigante global, porém, a companhia enfrenta um período bem mais turbulento. Agora, enquanto seu novo CEO tenta reorganizar operações, reduzir despesas e recuperar o crescimento, outra possibilidade entrou definitivamente no radar: uma negociação capaz de mudar completamente o controle da empresa.
Stripe e Advent voltam à mesa para discutir o PayPal

As negociações envolvendo uma possível venda do PayPal para a Stripe e a empresa de private equity Advent ganharam intensidade e podem avançar nas próximas semanas.
As conversas teriam começado em julho, quando as duas interessadas apresentaram uma proposta de US$ 60,50 por ação. Nessas condições, o PayPal seria avaliado em aproximadamente US$ 53 bilhões, segundo informações atribuídas pelo Wall Street Journal a fontes familiarizadas com as negociações.
A primeira investida não foi suficiente.
O PayPal rejeitou inicialmente a proposta, mas isso aparentemente não colocou um ponto final nas conversas. As partes teriam mantido os contatos e agora voltaram a discutir uma possível transação.
Segundo novas informações do jornal americano, existe a expectativa de que um acordo possa ser alcançado nas próximas semanas. Até o momento, entretanto, nenhuma operação foi oficialmente anunciada.
O PayPal não comentou as informações. Um representante da Stripe, por sua vez, afirmou que a companhia não comenta rumores ou especulações.
Se concretizada, a transação colocaria uma das marcas mais conhecidas da história dos pagamentos digitais no centro de uma combinação particularmente relevante para o setor. A Stripe se tornou uma das principais empresas de infraestrutura financeira para negócios digitais, enquanto a Advent possui uma longa atuação em investimentos e aquisições de grandes companhias.
As negociações também chegam justamente quando o PayPal atravessa uma transformação interna conduzida por seu novo comando.
O novo CEO já começou uma mudança profunda dentro da empresa
Enrique Lores assumiu o cargo de CEO do PayPal em março, depois de uma longa trajetória na HP, e recebeu a missão de tentar recuperar uma companhia que perdeu parte do impulso conquistado durante os anos de expansão acelerada do comércio eletrônico.
A estratégia começou a aparecer poucas semanas depois.
Em abril, Lores anunciou uma reorganização que envolveu mudanças na equipe executiva e uma nova divisão do negócio em três grandes modelos operacionais.
O primeiro concentra as soluções de pagamentos. O segundo reúne os serviços financeiros destinados aos consumidores, incluindo o Venmo. O terceiro engloba serviços de pagamento e operações relacionadas às criptomoedas.
A divisão pretende simplificar a estrutura e permitir que cada área tenha prioridades mais claras em um mercado que se tornou significativamente mais competitivo.
Em maio, Lores apresentou aos investidores outra peça importante de sua estratégia. O executivo afirmou que o PayPal precisava voltar aos seus fundamentos e, principalmente, “tornar-se novamente uma empresa tecnológica”.
A frase resume parte do desafio enfrentado pela companhia.
Durante anos, o PayPal ocupou uma posição privilegiada na transformação dos pagamentos pela internet. Hoje, entretanto, consumidores e empresas contam com um número muito maior de alternativas, enquanto bancos digitais, carteiras móveis, plataformas de pagamento e novas fintechs disputam o mesmo espaço.
A recuperação planejada por Lores também deve envolver uma redução considerável de custos.
PayPal pode cortar milhares de postos nos próximos anos

Entre as medidas estudadas está uma diminuição de aproximadamente 20% da força de trabalho do PayPal ao longo dos próximos dois ou três anos.
O objetivo seria construir uma estrutura mais enxuta enquanto a empresa tenta recuperar eficiência e direcionar investimentos para áreas consideradas estratégicas.
É justamente nesse momento de reestruturação que a possibilidade de venda ganha outra dimensão.
Uma aquisição poderia acelerar mudanças que o PayPal já começou a implementar internamente, embora os termos definitivos de uma eventual operação ainda sejam desconhecidos. Também não está claro se uma nova proposta manteria a avaliação aproximada de US$ 53 bilhões apresentada inicialmente.
O momento atual contrasta bastante com algumas das fases mais marcantes da história da companhia.
Fundado em 1998, o PayPal nasceu de um grupo de empreendedores que posteriormente se tornaria lendário no Vale do Silício. Nomes como Peter Thiel, Elon Musk, Max Levchin e Luke Nosek estiveram ligados aos primeiros anos da empresa.
Décadas depois, o serviço se transformou em uma das marcas mais reconhecidas dos pagamentos digitais.
A pandemia trouxe outra fase de crescimento extraordinário. Com milhões de consumidores comprando pela internet e empresas acelerando sua digitalização, o comércio eletrônico disparou e plataformas de pagamento foram diretamente beneficiadas.
Quando esse impulso perdeu força, entretanto, o PayPal passou a enfrentar uma realidade mais complicada. O crescimento desacelerou, a concorrência aumentou e a companhia precisou procurar novos caminhos para recuperar dinamismo.
Agora, a reorganização conduzida por Enrique Lores e as negociações com Stripe e Advent colocam duas possibilidades sobre a mesa: o PayPal pode tentar reconstruir sua trajetória como empresa independente ou iniciar uma nova fase sob outros controladores.
Se as conversas realmente avançarem nas próximas semanas, uma das empresas que ajudaram a definir os pagamentos na internet poderá protagonizar uma das operações mais importantes da indústria financeira digital.
[Fonte: C3]