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Tecnologia

Meta enfrenta julgamento bilionário nos EUA por supostos danos das redes sociais aos jovens

Estados americanos acusam a Meta de criar recursos no Facebook e Instagram capazes de estimular o uso compulsivo entre adolescentes. A empresa rejeita as acusações e afirma ter desenvolvido proteções para usuários mais jovens.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A Meta enfrenta na Califórnia um dos processos judiciais mais importantes de sua história. No centro da disputa está uma questão que acompanha Facebook e Instagram há anos: até que ponto o design das redes sociais pode prejudicar crianças e adolescentes?

Os estados envolvidos acusam a companhia fundada por Mark Zuckerberg de desenvolver deliberadamente recursos destinados a aumentar o tempo de permanência dos jovens nas plataformas, mesmo conhecendo potenciais riscos para seu bem-estar.

As ações também incluem acusações relacionadas à coleta de dados de menores de 13 anos sem autorização dos pais.

A Meta nega as alegações e afirma que trabalha com especialistas, famílias e autoridades para desenvolver ferramentas destinadas a proteger adolescentes.

Meta pode enfrentar indenizações gigantescas

Meta
© Nicolas Economou/NurPhoto

O processo faz parte de uma ampla ofensiva judicial movida por estados americanos contra a empresa.

As reivindicações financeiras associadas às ações podem alcançar valores extraordinários, além de obrigar a Meta a modificar aspectos do funcionamento de Facebook e Instagram.

Nesta primeira etapa, Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey estão entre os estados que levam suas acusações ao tribunal federal de Oakland, na Califórnia.

Outros processos relacionados devem avançar posteriormente.

Os estados alegam que a Meta utilizou tecnologias capazes de atrair e manter crianças e adolescentes conectados durante períodos cada vez maiores, priorizando seus resultados financeiros.

Segundo os promotores, a empresa também teria minimizado publicamente os possíveis efeitos de suas plataformas sobre a saúde mental dos adolescentes.

A companhia contesta essa interpretação.

Curtidas, rolagem infinita e algoritmos estão no centro do processo

Parte importante da discussão envolve recursos que hoje parecem completamente normais nas redes sociais.

Entre eles estão o botão de curtida, a rolagem infinita e os sistemas algorítmicos de recomendação de conteúdo.

Segundo os estados, essas ferramentas foram projetadas para incentivar comportamentos compulsivos e prolongar o tempo de utilização das plataformas.

Quanto mais tempo uma pessoa permanece navegando, maior é o número de conteúdos e anúncios que podem ser exibidos. Isso é particularmente relevante porque a publicidade representa a principal fonte de receita da Meta.

Os acusadores afirmam que esse modelo teria criado incentivos econômicos para maximizar o engajamento mesmo quando existiam potenciais consequências negativas para usuários mais jovens.

A Meta, por outro lado, rejeita a ideia de que recursos comuns das redes sociais possam ser tratados automaticamente como mecanismos prejudiciais.

Estados também acusam Instagram de prejudicar sono e autoestima

As acusações vão além do tempo gasto diante da tela.

Os promotores argumentam que determinados aspectos de Facebook e Instagram podem interferir no sono, na educação e na saúde emocional de crianças e adolescentes.

Filtros capazes de modificar a aparência física também aparecem entre os pontos questionados.

Segundo as ações, esse tipo de ferramenta poderia contribuir para problemas de imagem corporal e comportamentos associados a transtornos alimentares entre usuários vulneráveis.

Outro ponto importante envolve a idade dos usuários.

Os estados acusam a Meta de coletar dados de crianças menores de 13 anos sem o consentimento adequado dos responsáveis, o que poderia representar uma violação da legislação federal americana de proteção da privacidade infantil.

Meta diz que criou proteções específicas para adolescentes

Meta é Considerada Um “incômodo Público” E Justiça Determina Pagamento De Us$ 567 Milhões
© NurPhoto/Getty Images

A empresa afirma que as acusações não representam corretamente as medidas adotadas nos últimos anos.

Segundo a Meta, a companhia ouviu pais, trabalhou com especialistas e autoridades e realizou pesquisas para compreender os principais riscos enfrentados pelos adolescentes.

A empresa também vem introduzindo diferentes restrições e configurações específicas para contas de usuários mais jovens.

Em resposta às acusações, a Meta argumenta ainda que questões como verificação de idade não são exclusivas de Facebook e Instagram, mas representam desafios enfrentados por praticamente todo o setor de tecnologia.

A companhia pretende defender seu histórico de proteção aos adolescentes durante o julgamento.

Meta já sofreu uma importante derrota no Novo México

O novo processo acontece poucos dias depois de outro revés judicial significativo para a empresa.

No Novo México, uma decisão determinou o pagamento de US$ 567 milhões para um fundo destinado a enfrentar danos relacionados à saúde mental de jovens.

A decisão também exigiu mudanças na maneira como as plataformas lidam com determinados riscos enfrentados por menores.

O caso envolveu, entre outras questões, acusações de que a Meta não teria protegido adequadamente crianças e adolescentes contra exploração sexual em suas plataformas.

A empresa também enfrentou outros processos relacionados ao impacto das redes sociais sobre jovens.

Essas decisões não determinam automaticamente o resultado do processo da Califórnia, mas aumentam a pressão jurídica sobre a companhia.

Processos contra redes sociais começam a se acumular

O caso faz parte de uma discussão muito maior nos Estados Unidos sobre a responsabilidade das empresas de tecnologia pelos efeitos de seus produtos.

Durante anos, plataformas digitais foram tratadas principalmente como intermediárias responsáveis por conectar usuários e distribuir conteúdo.

Agora, parte dos processos tenta colocar o próprio design dos aplicativos no centro da responsabilidade.

A pergunta deixa de ser apenas se determinado conteúdo prejudicial apareceu no Instagram ou Facebook.

Os tribunais também começam a analisar se características estruturais das plataformas foram deliberadamente desenvolvidas para estimular determinados padrões de comportamento.

Essa diferença pode ser decisiva.

Caso os tribunais considerem que elementos como recomendações algorítmicas, notificações, curtidas ou rolagem infinita fazem parte de um design potencialmente prejudicial, as consequências podem atingir todo o setor.

Batalha judicial também pesa nas contas da Meta

Apesar do crescimento da receita, os processos judiciais começam a representar um custo relevante para a companhia.

No trimestre entre abril e junho, a Meta registrou receita de US$ 60,8 bilhões, crescimento de 28%. O lucro, porém, caiu 14%, para aproximadamente US$ 15,8 bilhões.

Entre os fatores observados pelo mercado está o aumento dos gastos relacionados às disputas judiciais.

A empresa continua sendo uma das maiores companhias de tecnologia do planeta, mas a multiplicação de processos envolvendo privacidade, concorrência, moderação e proteção de menores representa um risco crescente.

Julgamento pode mudar Facebook e Instagram

O impacto mais importante do processo talvez não esteja apenas nas indenizações.

Os estados também querem mudanças concretas na maneira como Facebook e Instagram funcionam.

Uma decisão desfavorável à Meta poderia aumentar a pressão para modificar sistemas de recomendação, ferramentas de engajamento, mecanismos de verificação de idade e proteções destinadas a crianças e adolescentes.

O processo da Califórnia também reúne diferentes ações dentro de um mecanismo conhecido como litígio multidistrital. O objetivo é centralizar procedimentos, provas e decisões comuns para evitar milhares de processos praticamente idênticos.

Por isso, o resultado pode estabelecer referências importantes para outras disputas contra empresas de redes sociais.

A questão que os tribunais terão de responder é complexa: recursos como curtidas, algoritmos e rolagem infinita são simplesmente ferramentas comuns da internet moderna ou foram projetados de maneira capaz de explorar vulnerabilidades dos usuários mais jovens?

Para a Meta, a resposta pode determinar muito mais do que uma indenização bilionária. Pode ajudar a definir como Facebook e Instagram terão de funcionar para uma nova geração de usuários.

 

[ Fonte: El País ]

 

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