Pular para o conteúdo
Mundo

Pilotos e comissários estão entre os profissionais mais expostos à radiação cósmica — e isso pode elevar o risco de câncer

Um estudo com 12,7 milhões de mortes nos Estados Unidos encontrou uma associação preocupante entre trabalhar a bordo de aviões e morrer por tipos de câncer relacionados à exposição à radiação ionizante.
Por

Tempo de leitura: 6 minutos

Voar a mais de 10 mil metros de altitude significa deixar para trás parte da proteção natural oferecida pela atmosfera terrestre. Para passageiros ocasionais, isso representa uma exposição relativamente pequena. Para pilotos e comissários que passam milhares de horas no céu durante suas carreiras, a situação é diferente.

Uma pesquisa liderada por cientistas ligados à Harvard Medical School encontrou uma associação entre essas profissões e uma proporção maior de mortes por determinados cânceres relacionados à radiação.

Após analisar milhões de registros de óbito e comparar mais de 500 profissões, os pesquisadores descobriram que comissários de bordo e pilotos ocupavam as duas primeiras posições nesse indicador.

Os resultados, publicados na revista JAMA Internal Medicine, reforçam o debate sobre a necessidade de monitorar a quantidade de radiação recebida pelas tripulações ao longo de suas carreiras.

Por que existe radiação dentro de um avião?

A Terra é constantemente atingida por partículas extremamente energéticas provenientes do espaço.

Conhecidas como raios cósmicos, elas interagem com a atmosfera e produzem outras partículas capazes de atingir seres humanos.

No nível do solo, nossa exposição é relativamente baixa porque a atmosfera funciona como uma enorme barreira protetora.

Quanto maior a altitude, menor essa proteção.

É por isso que tripulações de aviões estão entre os trabalhadores mais expostos à radiação ionizante nos Estados Unidos, apesar de não trabalharem diretamente com máquinas de raios X, reatores nucleares ou materiais radioativos.

A exposição também varia dependendo da rota.

Voos realizados em grandes altitudes e próximos às regiões polares podem apresentar níveis superiores porque o campo magnético terrestre oferece menos proteção nessas áreas.

Estudo analisou 12,7 milhões de mortes

Determinar se essa exposição realmente provoca mais mortes por câncer sempre foi complicado.

Pesquisas anteriores frequentemente analisavam funcionários de uma única companhia aérea, país ou tipo específico de câncer. Além disso, pilotos e comissários tendem a apresentar características socioeconômicas e de saúde diferentes da população geral, dificultando as comparações.

O novo trabalho utilizou uma fonte de dados muito maior.

Desde 2020, certificados de óbito dos Estados Unidos passaram a incluir de maneira mais sistemática informações relacionadas à ocupação habitual da pessoa.

Os pesquisadores utilizaram esses registros para analisar aproximadamente 12,7 milhões de mortes ocorridas entre 2020 e 2024.

Ao todo, foram comparadas 503 profissões, incluindo cerca de 14 mil pilotos e 7 mil comissários de bordo.

Pilotos e comissários ficaram no topo do ranking

Depois de ajustar os resultados para fatores como idade no momento da morte, escolaridade e estado civil, os pesquisadores encontraram um padrão significativo.

Comissários de bordo e pilotos apresentaram as maiores proporções de mortes por cânceres associados à radiação entre as 503 profissões analisadas.

Entre os comissários, aproximadamente 6,9% das mortes foram provocadas por esses cânceres. Entre os pilotos, o percentual chegou a 6,7%.

A categoria inclui diferentes doenças que apresentam relação conhecida com exposição à radiação ionizante, como determinados linfomas e cânceres de mama, tireoide e próstata.

Isso não significa que 6,9% dos comissários ou 6,7% dos pilotos desenvolverão câncer por causa da radiação.

Os números representam a proporção de mortes observadas no conjunto analisado e, por si só, não demonstram que os raios cósmicos foram diretamente responsáveis por cada caso.

Outros testes reforçaram a suspeita sobre a radiação

Para investigar se existiam explicações alternativas, os cientistas realizaram algumas comparações.

Uma delas analisou cânceres que não são normalmente relacionados à radiação.

Nesse grupo, pilotos e comissários apareceram aproximadamente no meio do ranking das 503 profissões.

Isso sugere que não existe simplesmente um aumento generalizado de mortes por câncer entre tripulações.

Os pesquisadores também observaram mecânicos e montadores de aeronaves.

Esses profissionais compartilham parte do ambiente da aviação e entram em contato com elementos como combustível e fluidos hidráulicos, mas não acumulam milhares de horas voando em grandes altitudes.

Nesse grupo, o mesmo aumento não apareceu.

Outra comparação envolveu técnicos nucleares, trabalhadores que reconhecidamente entram em contato com fontes de radiação ionizante.

Eles ficaram na 12ª posição do ranking.

Para Vishal Patel, médico e pesquisador de políticas de saúde de Harvard e principal autor do estudo, o conjunto dessas comparações fortalece a hipótese de que a radiação ionizante possa desempenhar um papel importante.

Radiação não é a única explicação possível

Apesar dos resultados, o estudo não consegue demonstrar definitivamente uma relação de causa e efeito.

Existem outras características da profissão que podem contribuir para determinados problemas de saúde.

Uma delas é a constante alteração do ritmo circadiano.

Pilotos e comissários frequentemente trabalham durante a madrugada, atravessam diferentes fusos horários e realizam voos de longa duração. Essas condições podem interferir no sono e no relógio biológico.

Por isso, os pesquisadores reconhecem que outros fatores precisam ser considerados antes de atribuir toda a associação encontrada exclusivamente à radiação cósmica.

Novos estudos deverão investigar, por exemplo, se profissionais que acumularam doses estimadas maiores durante suas carreiras também apresentam riscos proporcionalmente maiores.

Passageiros comuns não recebem a mesma exposição

Os resultados também não significam que viajar de avião algumas vezes por ano represente um risco comparável.

A exposição depende principalmente do tempo acumulado em altitude.

Uma pessoa que realiza cerca de dez voos domésticos de longa distância por ano continua muito abaixo da quantidade de radiação recebida por profissionais que passam centenas de horas voando anualmente.

A preocupação está justamente na exposição ocupacional acumulada durante décadas.

Para pilotos e comissários, cada viagem representa apenas uma pequena dose. Somadas ao longo de uma carreira inteira, porém, essas exposições podem se tornar relevantes.

Blindar os aviões provavelmente não resolveria o problema

Uma solução aparentemente óbvia seria adicionar materiais capazes de bloquear a radiação dentro das aeronaves.

Segundo Patel, isso não seria prático.

Os raios cósmicos possuem energias extremamente elevadas e, ao atingir materiais da própria aeronave, podem produzir partículas secundárias.

Adicionar grandes quantidades de blindagem também aumentaria drasticamente o peso dos aviões e poderia, em determinadas situações, produzir ainda mais partículas secundárias, incluindo nêutrons.

Por isso, reduzir a exposição provavelmente dependeria mais da maneira como as tripulações trabalham do que da construção de aeronaves blindadas.

Rotas e escalas poderiam reduzir a exposição

Os pesquisadores apontam algumas medidas relativamente simples.

Uma delas seria estimar individualmente a dose de radiação recebida por cada profissional e manter esse histórico durante toda a carreira, mesmo quando ele muda de companhia aérea.

Também seria possível distribuir melhor as rotas com maior exposição.

Voos polares, operações em altitudes elevadas e trajetos ultralongos tendem a produzir doses maiores. Evitar que os mesmos funcionários sejam constantemente escalados nessas operações poderia diminuir a exposição acumulada.

Durante eventos solares intensos, companhias também poderiam considerar mudanças temporárias de rota ou altitude quando necessário.

Gestantes representam outro grupo que exige atenção especial devido à maior sensibilidade do feto à radiação.

Europa já monitora a exposição das tripulações

Existe uma diferença importante entre Estados Unidos e Europa.

A Administração Federal de Aviação dos EUA reconhece que tripulações estão profissionalmente expostas à radiação ionizante. Entretanto, segundo os pesquisadores, o país não possui limites obrigatórios de dose nem exige monitoramento individual sistemático desses trabalhadores.

Na União Europeia, regulamentações de proteção radiológica para tripulações existem há anos e incluem avaliação da exposição ocupacional e medidas adicionais em determinadas situações, incluindo durante a gravidez.

Os autores defendem que os Estados Unidos adotem proteções mais próximas daquelas utilizadas para outros profissionais expostos à radiação.

O primeiro passo nem exigiria uma nova tecnologia: bastaria começar a calcular e registrar quanto cada piloto e comissário recebe ao longo dos anos.

O céu não vai deixar de ter radiação cósmica. Mas, se a exposição acumulada realmente estiver contribuindo para um risco maior de câncer, saber exatamente quanto cada profissional recebe pode ser fundamental para tornar uma carreira inteira nas alturas um pouco mais segura.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados