Durante muitos anos, a psicologia cognitiva sustentou que o cérebro humano não é capaz de realizar duas tarefas complexas ao mesmo tempo. Na prática, o que chamamos de multitarefa seria apenas uma alternância extremamente rápida de atenção entre diferentes atividades, criando a sensação de simultaneidade.
Agora, um estudo publicado em junho de 2026 por pesquisadores da Universidade de Georgetown sugere que essa visão precisa ser parcialmente revisada. Os cientistas demonstraram que, sob determinadas condições, o cérebro pode reorganizar fisicamente seus circuitos neurais para automatizar uma tarefa, liberando a atenção consciente para outra atividade.
O gargalo da atenção no cérebro

Grande parte dessa limitação está na região conhecida como córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas, como planejamento, tomada de decisões e controle da atenção.
Os pesquisadores descrevem essa limitação como um “gargalo frontal”. Enquanto uma tarefa exige processamento consciente, ela ocupa esse sistema executivo e dificulta a realização simultânea de outra atividade complexa.
Por esse motivo, pessoas que ainda estão aprendendo uma nova habilidade costumam ter dificuldade para conversar, resolver outro problema ou prestar atenção em estímulos paralelos.
O experimento mostrou uma reorganização do cérebro
A equipe liderada por Maximilian Riesenhuber, professor de Neurociência da Universidade de Georgetown e codiretor do Center for Neuroengineering, treinou voluntários para identificar diferenças muito sutis entre imagens de automóveis.
O treinamento foi realizado por meio de um aplicativo para celular em formato de jogo, acumulando mais de 30 mil tentativas distribuídas entre cinco e dez semanas.
Antes e depois do treinamento, os participantes passaram por exames de ressonância magnética funcional (fMRI) e eletroencefalografia (EEG), permitindo aos pesquisadores acompanhar como a atividade cerebral mudava ao longo do aprendizado.
No início do experimento, a tarefa dependia principalmente do córtex pré-frontal. Após semanas de prática intensa, porém, ela passou a ser processada predominantemente pelo córtex temporal, região relacionada à memória e ao reconhecimento de objetos.
Essa mudança mostra que o cérebro automatizou a atividade, reduzindo a necessidade de controle consciente.
Automatizar uma tarefa libera capacidade mental

Quanto mais a tarefa era transferida para circuitos automáticos, melhor os participantes conseguiam executar uma segunda atividade ao mesmo tempo.
Os pesquisadores usam a direção de um automóvel como exemplo. Nos primeiros meses, dirigir exige atenção praticamente total. Com os anos de prática, grande parte dessa habilidade se torna automática, permitindo que a pessoa converse, ouça música ou pense em outros assuntos sem comprometer significativamente a condução do veículo.
Segundo os autores, a chave não é superar o chamado gargalo do córtex pré-frontal, mas aprender a contorná-lo por meio da automatização.
Multitarefa prejudica o aprendizado?
Embora o estudo mostre que o cérebro pode desenvolver essa capacidade, isso não significa que toda forma de multitarefa seja benéfica durante o aprendizado.
Uma metanálise publicada em 2025 no International Journal of Cognitive Research in Science, Engineering and Education reuniu diversos estudos sobre multitarefa durante atividades acadêmicas e encontrou uma associação consistente entre dividir a atenção com redes sociais ou aplicativos de mensagens e um pior desempenho escolar.
No entanto, outra pesquisa publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychiatry mostrou que nem toda divisão de atenção produz os mesmos efeitos.
Os pesquisadores diferenciaram multitarefas relacionadas ao estudo, como pesquisar o significado de um conceito enquanto se lê um texto, de atividades sem relação com o conteúdo, como verificar notificações ou navegar nas redes sociais.
Os resultados indicam que tarefas relevantes para o aprendizado causam impacto muito menor do que interrupções totalmente alheias ao objetivo principal.
Atenção continua sendo um recurso limitado
Os estudos reforçam que automatizar uma habilidade exige tempo, prática constante e repetição. Não existem atalhos para esse processo.
Enquanto uma atividade ainda está sendo aprendida — seja um novo idioma, uma fórmula matemática ou uma técnica de leitura — ela continua ocupando o córtex pré-frontal e competindo pelos mesmos recursos cognitivos necessários para qualquer outra tarefa.
Por isso, especialistas defendem que o uso de dispositivos digitais em ambientes de aprendizagem não deve ser tratado apenas com proibições gerais. Em vez disso, cresce a importância da chamada “alfabetização atencional”: a capacidade de identificar quando uma interrupção realmente contribui para o aprendizado e quando apenas desvia o foco.
A pesquisa mostra que o cérebro é muito mais adaptável do que se imaginava. No entanto, essa flexibilidade depende de treinamento prolongado e da automatização gradual das habilidades, e não da capacidade de fazer tudo ao mesmo tempo desde o início.
[ Fonte: Infobae ]