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O que une Trump, Elon Musk e a histórica ascensão de um partido no leste da Alemanha

Uma votação em um pequeno Estado alemão provocou comemorações muito além das fronteiras do país. Por trás do resultado existe uma disputa política que alcança Washington e toda a União Europeia.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Eleições regionais alemãs raramente ocupam espaço nas redes sociais de um presidente dos Estados Unidos. Desta vez foi diferente. Um resultado histórico no leste da Alemanha rapidamente atravessou o Atlântico e foi celebrado por figuras influentes do movimento MAGA. O entusiasmo não surgiu por acaso: a ascensão de uma força política que questiona pilares da atual ordem europeia coincide com uma transformação profunda na relação entre Washington e seus aliados tradicionais.

Um resultado histórico na Alemanha repercutiu imediatamente nos Estados Unidos

A eleição aconteceu em Saxônia-Anhalt, Estado do leste alemão que representa uma pequena parcela da economia nacional. O resultado, porém, teve dimensão política muito maior.

A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita, conquistou 43,8% dos votos, ficando perto da maioria absoluta e alcançando seu melhor resultado regional. O desempenho também abalou os democrata-cristãos do chanceler Friedrich Merz, que sofreram uma derrota contundente.

Donald Trump acompanhou a votação a milhares de quilômetros de distância. Entre diversas publicações feitas nas redes sociais, o presidente americano compartilhou um gráfico com os resultados praticamente definitivos da eleição.

Elon Musk também comemorou publicamente.

O bilionário já havia demonstrado apoio à AfD anteriormente e voltou a celebrar o avanço da legenda. Durante a campanha, o candidato regional Ulrich Siegmund chegou a adotar uma adaptação bastante familiar do slogan trumpista: Make Germany Great Again.

Essa proximidade não começou agora. Em dezembro de 2024, Musk já havia defendido publicamente que a AfD poderia “salvar” a Alemanha. Poucos meses depois, outro episódio aumentaria a tensão entre Washington e as principais capitais europeias.

O movimento MAGA começou a olhar diretamente para a política europeia

O que une Trump, Elon Musk e a histórica ascensão de um partido no leste da Alemanha
© YouTube

Em fevereiro de 2025, o vice-presidente americano J.D. Vance viajou à Conferência de Segurança de Munique e fez um discurso extremamente crítico sobre os rumos políticos da Europa.

Durante a mesma viagem, encontrou-se com Alice Weidel, uma das principais lideranças da AfD.

O gesto chamou atenção porque os grandes partidos alemães mantêm há anos uma política de isolamento da legenda, conhecida como Brandmauer, ou “muro de proteção”. O objetivo é impedir alianças que possam levar a extrema direita ao governo.

O avanço da AfD tornou essa estratégia muito mais difícil de sustentar politicamente.

A legenda defende posições duras contra a imigração, quer interromper o apoio alemão à Ucrânia e busca restabelecer relações mais próximas com a Rússia. O partido também mantém uma postura profundamente crítica em relação à atual estrutura da União Europeia.

Para o governo de Friedrich Merz, o resultado em Saxônia-Anhalt representa um desafio doméstico. Para observadores internacionais, porém, existe outra camada nessa história.

A aproximação de integrantes do movimento MAGA com partidos nacionalistas europeus sugere que Washington já não observa passivamente as disputas ideológicas dentro da Europa.

Um documento de Washington tornou essa mudança ainda mais evidente

A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos explicitou críticas incomuns aos governos europeus e à trajetória política do continente.

O documento descreve uma Europa ameaçada por dificuldades econômicas, imigração e mudanças culturais e defende que os Estados Unidos ajudem o continente a modificar sua trajetória.

Mais significativo ainda é o apoio expresso ao crescimento de forças políticas que Washington classifica como “patrióticas”.

O avanço de partidos como a AfD beneficia uma estratégia do trumpismo destinada a enfraquecer o atual consenso político da União Europeia. A relação, entretanto, está longe de ser simples.

O que une Trump, Elon Musk e a histórica ascensão de um partido no leste da Alemanha
© YouTube

A popularidade de Trump diminuiu em diferentes partes da Europa, enquanto decisões tomadas por seu governo criaram situações desconfortáveis até mesmo para aliados ideológicos. Ameaças relacionadas à Groenlândia, conflitos com lideranças europeias e sua política externa tornaram a proximidade com Washington eleitoralmente mais complicada para alguns partidos nacionalistas.

Isso transforma essa aproximação em uma aliança muito mais pragmática do que automática.

A vitória da AfD pode ser apenas uma parte de uma mudança maior

O resultado alemão chega em um momento particularmente sensível.

A AfD não conquistou maioria suficiente para governar sozinha Saxônia-Anhalt. Ainda assim, seus quase 44% colocam pressão inédita sobre o sistema político alemão e sobre a política de isolamento mantida pelos partidos tradicionais.

Friedrich Merz descartou qualquer cooperação com a legenda, embora tenha reconhecido que a derrota abalou profundamente seu partido.

O fenômeno também não pode ser explicado exclusivamente pela influência externa. Questões domésticas tiveram peso decisivo. Eleitores demonstraram insatisfação com o custo de vida, insegurança econômica, aposentadorias, burocracia e o desempenho do governo federal. A AfD conseguiu transformar parte desse descontentamento em votos.

É justamente essa combinação que torna o resultado tão relevante.

De um lado, existem problemas internos que alimentam forças antissistema. Do outro, atores estrangeiros perceberam que essas forças podem ajudar a remodelar o equilíbrio político europeu.

Para Trump e parte do movimento MAGA, a ascensão de partidos nacionalistas pode significar uma Europa menos integrada e mais alinhada a uma visão baseada na soberania dos Estados nacionais.

Para seus críticos, esse processo representa uma ameaça à coesão da União Europeia e à ordem política construída no continente durante décadas.

Por isso, uma eleição em um Estado que representa menos de 2% da economia alemã conseguiu repercutir de Berlim a Washington. O que estava em jogo no domingo não era apenas quem governaria Saxônia-Anhalt. O resultado mostrou até onde uma transformação política iniciada nas urnas locais pode alcançar.

[Fonte: El Pais]

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