Mais gente saindo, menos gente entrando
Os números ajudam a entender o tamanho do alerta. Dados do Indec mostram que, entre janeiro e novembro, 11,19 milhões de argentinos viajaram para fora do país, enquanto apenas 4,78 milhões de turistas estrangeiros entraram. O resultado foi um saldo negativo de 6,41 milhões de pessoas, o pior já registrado nesse intervalo.
Novembro, mês-chave para o início da alta temporada, deixou o cenário ainda mais claro. As saídas cresceram 15,3% em relação ao ano anterior, enquanto as entradas caíram 2,7%. O déficit mensal foi 73% maior do que o de novembro de 2024. Entenda: o turismo emissivo acelerou, mas o receptivo não acompanhou.
Câmbio sob controle, turismo fora de controle

O movimento acontece em paralelo à estratégia do governo de Javier Milei de manter o câmbio relativamente estável. O problema é que, na prática, isso barateou o turismo internacional para os argentinos.
Segundo análises econômicas, a eliminação do chamado “dólar cartão” fez com que gastos no exterior passassem a ser pagos quase pelo câmbio oficial. Resultado: viajar ficou bem mais acessível do que nos últimos anos — e, em muitos casos, mais barato do que viajar dentro da própria Argentina.
Pacotes para destinos nacionais como Ushuaia, Villa Carlos Paz ou Pinamar chegam a custar entre US$ 170 e US$ 250 por dia. Já opções internacionais, como Florianópolis ou Santiago, ficam entre US$ 109 e US$ 147 diários. Veja como a conta fecha rápido.
Oportunismo e mudança de comportamento
O câmbio explica muito, mas não tudo. Especialistas apontam um fator comportamental importante: em um país marcado por instabilidade econômica, muitos argentinos preferem aproveitar o “momento bom” agora, sem saber quanto tempo ele vai durar.
Há também uma mudança no padrão de consumo, especialmente entre os mais jovens. Com crédito imobiliário escasso e o sonho da casa própria distante, parte da poupança em dólares acaba sendo direcionada para experiências imediatas — como viagens ao exterior.
Brasil vira o grande vencedor
Nesse cenário, o Brasil aparece como o principal beneficiado. Dados do Ministério do Turismo mostram que mais de 9 milhões de turistas estrangeiros visitaram o país entre janeiro e novembro, um recorde histórico. Os argentinos lideram com folga: 3,1 milhões de visitantes, alta de 82,1% em relação a 2024.
O impacto financeiro também chama atenção. Turistas estrangeiros deixaram US$ 7,17 bilhões no Brasil no período, enquanto a Argentina deve registrar uma saída líquida entre US$ 7 bilhões e US$ 9 bilhões apenas com turismo em 2025.
Um problema antigo que voltou com força
Apesar de representar cerca de 1,7% do PIB argentino, o turismo historicamente gera mais saída do que entrada de dólares. A balança turística foi deficitária em 42 dos últimos 49 anos, e a Argentina responde por apenas 0,29% da receita mundial do turismo receptivo. O gasto médio por visitante também é baixo: cerca de US$ 751 por viagem.
Em resumo, o dólar barato, os preços internacionais mais competitivos e o boom do turismo regional ajudam a explicar por que 2025 entrou para a história. O desafio agora não é só atrair mais turistas, mas evitar que o turismo continue sendo uma das principais vias de saída de divisas da economia argentina. Um alerta que vai muito além das férias.
[Fonte: O Globo]