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Mundo

Este homem passou mais de 60 anos criando um mapa de um mundo que não existe — hoje ele tem 4 mil peças e precisa de uma quadra inteira para ser montado

Durante mais de seis décadas, um artista norte-americano dedicou praticamente todos os dias da sua vida à criação de um mapa fictício gigantesco. A obra, composta por cerca de 4 mil painéis, evolui de forma imprevisível, guiada por um simples baralho de cartas. O resultado é uma mistura fascinante de cartografia, arte abstrata e memória pessoal que desafia qualquer definição convencional.
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Mapas sempre ocuparam um papel importante na literatura e na fantasia. De mundos como a Terra-média, de J.R.R. Tolkien, aos continentes imaginários presentes em inúmeros romances e jogos, eles ajudam a dar vida a universos fictícios. Mas poucos projetos alcançam o nível de dedicação do trabalho desenvolvido por Jerry Gretzinger. Morador do estado de Michigan, nos Estados Unidos, ele começou a desenhar seu mapa na década de 1960 e nunca mais parou. Hoje, a criação ocupa milhares de painéis e representa uma verdadeira obra de uma vida inteira.

Um mapa que nunca para de crescer

O chamado “Mapa de Gretzinger” é composto por aproximadamente 4 mil painéis individuais, cada um representando uma pequena parte desse universo imaginário.

Como a estrutura é gigantesca, ela permanece desmontada quase o tempo todo. Apenas em ocasiões especiais o conjunto é reunido, exigindo um espaço enorme. Segundo mostrou o canal People Make Games, a montagem completa mais recente aconteceu pela primeira vez em mais de dez anos e precisou da ajuda de voluntários, da equipe de filmagem e de uma quadra esportiva para acomodar todas as peças.

Quando finalmente reunido, o resultado impressiona: um mosaico colorido repleto de cidades, rios, paisagens, colagens e padrões gráficos que parecem se expandir indefinidamente.

Quem decide o que será criado é um baralho

Talvez o aspecto mais curioso do projeto seja seu método de criação.

Todos os dias, antes de começar a trabalhar, Gretzinger retira uma carta de um baralho criado por ele mesmo. Cada carta contém uma instrução diferente que determina qual será a tarefa daquele dia.

Em vez de seguir um planejamento rígido, o artista permite que o acaso conduza a evolução do mapa.

Em uma das gravações feitas pelo canal People Make Games, a carta sorteada indicava “próxima dimensão”. Segundo Gretzinger, essa instrução originalmente representava dimensões alternativas da realidade. Com o passar dos anos, porém, ela passou a significar diferentes camadas que podem ser adicionadas ao mapa.

Camadas de um universo imaginário

Essas camadas funcionam como diferentes níveis visuais e conceituais da obra.

Entre elas existem elementos relativamente simples, como páginas em branco e colagens de pequenos quadrados, além de outras muito mais enigmáticas, batizadas com nomes como “o vazio — branco”, “grade de bolinhas” e “escuridão”.

Depois de definir qual camada será utilizada, Gretzinger trabalha de forma quase intuitiva.

Em uma sessão de criação registrada em vídeo, ele simplesmente abre sua pasta de recortes, pega alguns materiais, aplica cola e começa a montar uma nova composição.

Segundo o próprio artista, ele tenta pensar o mínimo possível durante esse processo, deixando que a criatividade e o acaso conduzam o resultado.

O mapa também guarda sua própria história

Um dos elementos mais emocionantes do projeto está escondido em uma camada conhecida como “o vazio”.

Nela, Gretzinger utiliza antigos documentos pessoais, cartas recebidas durante a faculdade, textos escritos ao longo da vida e diversos registros de sua própria história.

Todo esse material é recortado e incorporado discretamente ao mapa.

Para o artista, essa é uma maneira de preservar lembranças importantes dentro da própria obra, transformando memórias pessoais em parte permanente daquele universo fictício.

Após concluir cada nova criação, ele consulta outra coleção de papéis para escolher um nome para a cidade recém-adicionada ao mapa, embora algumas delas desapareçam posteriormente, consumidas simbolicamente pelo próprio “vazio”.

Uma obra impossível de resumir

Observar o mapa completo provoca uma sensação semelhante à de olhar para um fractal.

Quanto mais o observador aproxima o olhar, mais detalhes surgem: pequenas cidades, padrões gráficos, texturas, colagens e formas abstratas revelam novas histórias escondidas em praticamente cada painel.

O projeto desafia classificações tradicionais. Ao mesmo tempo em que lembra um mapa, também funciona como diário visual, obra de arte, experimento criativo e registro de mais de 60 anos de dedicação contínua.

A própria esposa de Gretzinger, com quem ele está casado há mais de quatro décadas, resume bem essa combinação incomum. Segundo ela, o artista consegue unir um pensamento extremamente organizado, responsável pela complexa estrutura do mapa, com uma criatividade capaz de abandonar regras sempre que o acaso apresenta uma nova possibilidade. Talvez seja justamente esse equilíbrio entre método e improviso que tenha permitido transformar um simples desenho iniciado nos anos 1960 em uma das mais extraordinárias obras de imaginação já criadas por uma única pessoa.

 

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