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Ciência

Meteorito de Marte encontrado na Argélia revela capítulo perdido da história do planeta

A rocha marciana tem 1,27 bilhão de anos e preenche parte de uma enorme lacuna no registro geológico de Marte, oferecendo novas pistas sobre sua atividade vulcânica.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um pedaço de Marte viajou pelo espaço até cair no deserto do Saara e agora está ajudando cientistas a reconstruir um período quase desconhecido da história do planeta vermelho. O meteorito NWA 13441, encontrado na Argélia, se formou há aproximadamente 1,27 bilhão de anos — uma idade extremamente rara entre as rochas marcianas já recuperadas na Terra.

Um meteorito que apareceu no meio de uma enorme lacuna

O Northwest Africa 13441, ou simplesmente NWA 13441, foi descoberto na Argélia em 2019.

Pesquisadores conseguiram analisar uma pequena amostra de apenas 0,9 grama e descobriram que a rocha se formou há cerca de 1,27 bilhão de anos.

O resultado, publicado na revista científica Geochimica et Cosmochimica Acta, é importante porque praticamente nenhum meteorito marciano conhecido pertence a esse período.

Impactos de asteroides e outros objetos contra Marte podem arrancar pedaços da superfície do planeta e lançá-los ao espaço. Alguns acabam cruzando a órbita da Terra e chegam até nosso planeta na forma de meteoritos.

Cerca de 400 meteoritos marcianos já foram identificados. Entretanto, até agora nenhum deles havia sido datado entre aproximadamente 600 milhões e 2,4 bilhões de anos atrás.

Isso deixava uma lacuna de quase 2 bilhões de anos no registro disponível aos cientistas.

O tipo mais comum de meteorito marciano trouxe uma surpresa

O NWA 13441 pertence ao grupo dos shergottitos, o tipo mais comum de meteorito originário de Marte.

A maioria dessas rochas tem aproximadamente 600 milhões de anos. Apenas algumas amostras conhecidas são muito mais antigas e chegam perto dos 2,4 bilhões de anos.

Por isso, encontrar um shergottito com 1,27 bilhão de anos chamou imediatamente a atenção dos pesquisadores.

Para determinar sua idade e origem, a equipe analisou a composição química do meteorito e comparou os resultados com outras rochas marcianas.

A composição geral correspondia ao esperado para um shergottito. Entretanto, os cientistas também encontraram características relacionadas ao neodímio, um elemento de terras raras que revelou uma composição incomum.

Parte dessa assinatura química lembra a encontrada em condritos, meteoritos extremamente antigos que preservam materiais formados durante os primeiros momentos do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos.

Para Ethan Baxter, professor de Ciências da Terra e Ambientais do Boston College e coautor do estudo, as características da amostra foram completamente inesperadas.

Nenhum outro meteorito marciano semelhante conhecido apresenta uma idade de aproximadamente 1,27 bilhão de anos.

A rocha pode ter se formado nas profundezas de Marte

Os cientistas determinam a idade dessas rochas analisando o momento em que seus minerais se solidificaram a partir do magma.

No caso do NWA 13441, os pesquisadores acreditam que seu material tenha se originado próximo à região que separa a crosta do manto de Marte.

Há cerca de 1,27 bilhão de anos, atividade vulcânica teria transportado esse magma em direção à superfície. Depois de esfriar e solidificar, a rocha permaneceu em Marte até que algum impacto posterior a lançou para o espaço.

O NWA 13441 está longe de ser o meteorito marciano mais antigo já encontrado. Algumas amostras possuem mais de 4 bilhões de anos.

Sua importância vem justamente do contrário: ele pertence a uma classe extremamente comum, mas surgiu em um período quase completamente ausente das coleções disponíveis.

Marte preservou pistas que a Terra apagou

Marte se formou rapidamente nos primeiros momentos do Sistema Solar e provavelmente atingiu grande parte de seu tamanho em menos de 5 milhões de anos.

Existe ainda uma diferença fundamental em relação à Terra. Marte não possui tectônica de placas ativa como nosso planeta.

Na Terra, o movimento constante das placas recicla grandes porções da crosta e pode destruir registros geológicos extremamente antigos. Em Marte, partes profundas do planeta conseguiram permanecer relativamente preservadas durante bilhões de anos.

A combinação de características observadas no NWA 13441 sugere justamente isso.

Sua composição pode indicar que algumas regiões profundas de Marte permaneceram pouco alteradas pelos processos geológicos ocorridos desde a formação do planeta.

Meteorito pode revelar como era o vulcanismo antigo de Marte

Os pesquisadores consideram duas possibilidades principais para explicar a composição incomum da rocha.

Ela pode ter vindo de um reservatório de magma marciano que nunca havia aparecido em nenhuma amostra estudada anteriormente. Outra hipótese é que represente uma mistura entre diferentes tipos de reservatórios responsáveis pela formação dos shergottitos.

Em ambos os casos, o meteorito oferece uma oportunidade rara.

Ao estudar sua química, os cientistas esperam reconstruir parte da atividade magmática e vulcânica que aconteceu durante aquela enorme lacuna de quase 2 bilhões de anos na história geológica conhecida de Marte.

Uma rocha de menos de um grama, portanto, pode ajudar a revelar o que estava acontecendo nas profundezas do planeta vermelho durante um dos períodos mais misteriosos de sua evolução.

 

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