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Tecnologia

O antigo Ethernet tinha um detalhe peculiar que ajudava os técnicos a evitar acidentes

Antes dos cabos finos e conectores que conhecemos hoje, instalar uma rede exigia ferramentas, força e um cabo impossível de confundir com o restante da fiação.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Hoje, conectar um computador à rede é quase banal: basta encaixar um pequeno conector e pronto. Mas os primeiros sistemas Ethernet estavam muito longe dessa simplicidade. Os cabos eram grossos, rígidos e podiam atravessar centenas de metros de um edifício. E havia um detalhe visual extremamente marcante nesse antigo padrão de rede. À primeira vista, parecia apenas uma escolha estética. A verdadeira razão, porém, tinha relação direta com a maneira como a instalação era feita.

O Ethernet já foi muito mais parecido com uma mangueira

Antes dos atuais cabos Ethernet finos e flexíveis, as primeiras redes comerciais utilizavam uma tecnologia que hoje parece quase pré-histórica.

O Ethernet de 10 Mb/s desenvolvido pela DEC, Intel e Xerox utilizava um cabo coaxial espesso conhecido como 10BASE5, ou simplesmente “thicknet”.

O cabo podia alcançar aproximadamente 500 metros por segmento e tinha cerca de 9,5 milímetros de diâmetro. Era pesado, rígido e pouco parecido com os cabos de rede que encontramos atualmente.

Mas havia uma característica que chamava atenção imediatamente: sua cor amarela intensa.

Décadas depois, Rich Seifert, um dos engenheiros envolvidos no desenvolvimento do Ethernet original na Digital Equipment Corporation, explicou a história por trás daquela escolha durante uma apresentação realizada no Vintage Computer Festival West, em 2026.

Seifert chegou a mostrar um pedaço do antigo cabo que ainda guardava.

A explicação começou de uma maneira bastante pessoal.

O amarelo era uma de suas cores favoritas. Ele dirigia um carro amarelo e até possuía móveis dessa cor. O tom escolhido para o cabo também teria sido inspirado no amarelo associado ao Chevrolet Corvette de 1968.

Mas transformar o Ethernet em uma espécie de “mangueira amarela” não foi apenas uma questão de gosto.

Havia um motivo prático para fazer com que aquele cabo fosse impossível de ignorar.

Para instalar um computador era preciso mexer diretamente no cabo

O funcionamento do 10BASE5 ajuda a entender por que a cor se tornou tão importante.

Os computadores não eram conectados utilizando os pequenos plugues RJ45 que conhecemos atualmente.

Para adicionar uma máquina à rede, os técnicos utilizavam um dispositivo chamado vampire tap, ou “conector vampiro”.

O sistema era instalado diretamente ao redor do cabo coaxial principal. Para estabelecer o contato elétrico, era necessário perfurar a camada externa do cabo até alcançar o condutor central.

Ou seja, conectar um computador à rede não significava simplesmente encaixar um plugue.

Era necessário literalmente perfurar o cabo.

A solução tinha uma vantagem importante: era possível acrescentar novos equipamentos sem cortar completamente o cabo principal. Para a época, era uma maneira engenhosa de construir redes extensas.

Mas também criava uma situação que exigia cuidado.

Imagine um técnico trabalhando em um prédio cheio de cabos, canalizações e instalações elétricas. Ele precisava saber exatamente qual cabo poderia ser perfurado.

Foi aí que aquela cor chamativa deixou de ser apenas uma preferência pessoal.

O amarelo também servia para evitar um erro perigoso

Os cabos Ethernet eram instalados em tetos, forros e outras áreas onde poderiam passar próximos de cabos elétricos.

Como a instalação exigia uma ferramenta capaz de penetrar fisicamente no cabo, confundir o Ethernet com outro tipo de fiação poderia ter consequências bastante sérias.

A ideia, segundo o relato de Seifert, era simples: o cabo de rede precisava ser imediatamente reconhecível.

O amarelo brilhante ajudava a criar essa distinção visual.

Assim, uma escolha que poderia parecer puramente estética acabava funcionando também como uma espécie de sinalização de segurança para os técnicos.

O curioso é que essa característica ficou tão associada ao padrão que o cabo ganhou apelidos como thicknet e até “mangueira amarela congelada”.

Seu tamanho e aparência eram muito diferentes do que consideramos normal hoje.

E, apesar de parecer rudimentar, o sistema tinha capacidades impressionantes para a época.

O próprio nome 10BASE5 entrega parte da história.

O “10” indicava a velocidade de 10 megabits por segundo. Já o “5” estava relacionado ao alcance máximo aproximado de 500 metros por segmento.

Hoje, essas especificações parecem modestas. Naquele momento, porém, representar uma rede capaz de atravessar centenas de metros era um avanço importante.

O cabo amarelo acabou dando lugar ao Ethernet que conhecemos

A tecnologia não permaneceu dominante por muito tempo.

O 10BASE5 foi sucedido pelo 10BASE2, que utilizava um cabo coaxial mais fino e mais fácil de instalar. Depois veio o 10BASE-T, baseado em pares trançados.

Foi essa evolução que abriu caminho para o formato que se tornou familiar em escritórios e residências.

O pequeno conector RJ45 eliminou grande parte da complexidade das antigas instalações. Em vez de perfurar um cabo grosso para adicionar um computador, bastava conectar o equipamento ao cabo.

Com o passar das décadas, a tecnologia continuou evoluindo. Hoje, cabos Ethernet relativamente finos conseguem transportar velocidades de vários gigabits por segundo.

É fácil esquecer como era complicado instalar uma rede algumas décadas atrás.

Não havia cabos discretos escondidos atrás dos móveis nem uma simples conexão feita com um clique.

Havia uma enorme estrutura coaxial atravessando o prédio, técnicos procurando o ponto correto e uma ferramenta preparada para perfurar o cabo.

E havia também aquele amarelo impossível de ignorar.

O detalhe que começou como uma preferência pessoal de um dos engenheiros acabou ajudando a resolver um problema bastante concreto: deixar claro, à primeira vista, qual cabo podia ser perfurado.

Hoje, o Ethernet cabe tranquilamente na palma da mão. Mas sua primeira geração carregava uma história bem mais pesada — literalmente.

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