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Ciência

O Nobel de Física premiou um cientista que transformou o gelo da Antártida em uma janela para o Universo

Uma ideia considerada quase impossível transformou o gelo da Antártida em um gigantesco detector cósmico. Décadas depois, a descoberta abriu uma nova janela para enxergar o Universo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Todos os segundos, incontáveis partículas atravessam nosso corpo, paredes e até o planeta inteiro praticamente sem deixar vestígios. Entre elas estão os neutrinos, tão difíceis de capturar que ganharam o apelido de “partículas fantasma”. Francis Halzen passou décadas perseguindo justamente os exemplares mais raros e energéticos vindos do espaço. Agora, o físico belga-americano recebeu o Nobel de Física de 2026 por uma aposta científica monumental enterrada no gelo da Antártida.

O Nobel nasceu de uma ideia aparentemente absurda

A Real Academia Sueca de Ciências anunciou nesta terça-feira, 6 de outubro, que Francis Halzen é o vencedor do Nobel de Física de 2026. O prêmio reconhece suas contribuições decisivas para o Observatório de Neutrinos IceCube e a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica.

Halzen, de 82 anos, nasceu na Bélgica e desenvolveu grande parte de sua carreira na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. O prêmio inclui 12 milhões de coroas suecas, aproximadamente US$ 1,2 milhão.

Mas a verdadeira história começa décadas antes.

Neutrinos são partículas elementares extremamente leves e sem carga elétrica. Interagem tão pouco com a matéria que enormes quantidades atravessam a Terra sem colidir com praticamente nada.

Essa característica é um pesadelo para quem tenta detectá-los, mas também representa sua grande vantagem científica. Ao contrário da luz, os neutrinos podem escapar de regiões extremamente densas e viajar enormes distâncias praticamente intactos.

Halzen percebeu que seria possível transformar o gelo transparente e profundo do Polo Sul em parte de um detector gigantesco.

O telescópio que não se parece com um telescópio

O Nobel de Física premiou um cientista que transformou o gelo da Antártida em uma janela para o Universo
© Pexels

O resultado dessa visão foi o IceCube, um observatório completamente diferente daqueles usados para observar estrelas.

Em vez de espelhos e lentes apontados para o céu, ele utiliza mais de 5 mil sensores ópticos instalados profundamente no gelo antártico, distribuídos por aproximadamente um quilômetro cúbico.

Os sensores não fotografam diretamente os neutrinos.

Quando uma dessas partículas raríssimas interage com a matéria no gelo ou nas proximidades do detector, pode gerar partículas carregadas que produzem uma tênue luz azul conhecida como radiação Cherenkov. Os sensores registram esses clarões, permitindo reconstruir informações como direção e energia do evento.

É como tentar descobrir a trajetória de algo invisível observando apenas o rastro deixado por uma colisão excepcionalmente rara.

A construção do IceCube ocorreu principalmente entre 2004 e 2010. Em 2013, o observatório anunciou a primeira evidência convincente de uma população de neutrinos de altíssima energia provenientes de fora do Sistema Solar.

Esse foi o momento que mudou tudo.

Por que essas partículas são tão importantes?

A astronomia tradicional depende principalmente da luz em suas diferentes formas, incluindo ondas de rádio, infravermelho, luz visível, raios X e raios gama.

Mas o Universo também envia outros mensageiros.

Ondas gravitacionais, raios cósmicos e neutrinos carregam informações diferentes sobre os acontecimentos mais violentos do cosmos. Combiná-los deu origem à chamada astronomia multimensageira.

Os neutrinos de alta energia são especialmente interessantes porque podem apontar para ambientes capazes de acelerar partículas a energias extraordinárias. Buracos negros ativos, explosões estelares e outros fenômenos extremos estão entre os candidatos.

Como possuem carga elétrica neutra, neutrinos não têm suas trajetórias desviadas por campos magnéticos durante a viagem. Isso significa que a direção de onde chegam pode ajudar os astrônomos a investigar sua origem.

Desde a descoberta de 2013, o Observatório de Neutrinos IceCube passou a procurar justamente essas fontes. Até 2026, o projeto havia identificado duas galáxias como fontes de neutrinos e também detectado emissão associada à própria Via Láctea.

Uma nova maneira de enxergar lugares que a luz não explica

Um dos momentos mais importantes ocorreu em 2017, quando o IceCube detectou um neutrino extremamente energético e enviou um alerta para observatórios ao redor do mundo.

Telescópios encontraram atividade na mesma direção em um blazar chamado TXS 0506+056, uma galáxia distante com um buraco negro supermassivo ativo em seu centro. A associação ajudou a demonstrar o potencial de combinar neutrinos com observações eletromagnéticas.

Mais tarde, o IceCube encontrou evidências de neutrinos vindos da galáxia ativa NGC 1068 e, em 2023, apresentou evidências de neutrinos de alta energia provenientes do plano da Via Láctea. Esses resultados estão entre os marcos científicos destacados na trajetória de Halzen.

E a busca continua. Dados divulgados em 2026 reúnem 14 anos de observações do detector para ajudar pesquisadores a procurar novas fontes cósmicas.

O centro da nossa galáxia também está sob investigação. Observações recentes procuram compreender como partículas conseguem alcançar energias cerca de 100 vezes superiores às produzidas pelos aceleradores construídos pela humanidade.

O Nobel premia mais do que uma partícula

A importância da conquista de Halzen não está simplesmente em encontrar neutrinos. Cientistas já conheciam essas partículas havia décadas, e neutrinos solares e atmosféricos haviam sido detectados anteriormente.

O salto foi provar que partículas extremamente energéticas vindas das profundezas do cosmos poderiam ser observadas em quantidade suficiente para criar uma nova ferramenta astronômica.

A Academia Real Sueca de Ciências e o Nobel reconheceram justamente essa transformação: uma ideia ambiciosa evoluiu para um observatório capaz de revelar informações sobre alguns dos ambientes mais extremos do Universo.

O IceCube mostra também como instrumentos científicos podem assumir formas inesperadas. Um dos telescópios mais extraordinários já construídos não possui uma enorme cúpula nem aponta para as estrelas.

Ele está enterrado na escuridão, sob quilômetros de gelo no lugar mais frio do planeta, esperando pacientemente que uma partícula quase impossível de capturar revele de onde veio.

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