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Mundo

O preço do resgate de Washington para Buenos Aires

O governo de Donald Trump promete um socorro bilionário à Argentina de Javier Milei, em meio a escândalos e incertezas antes das eleições legislativas. O apoio financeiro dos EUA pode fortalecer Milei a curto prazo — mas também reforça a dependência política e econômica de Buenos Aires em relação a Washington.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Enquanto Buenos Aires tenta equilibrar inflação, dívida e desconfiança, Javier Milei busca um salvavidas em Washington. O presidente argentino aposta em um novo pacote de apoio financeiro dos Estados Unidos, anunciado por Donald Trump e seu secretário do Tesouro. O gesto chega em um momento decisivo: às vésperas das eleições de meio de mandato que podem redefinir o futuro político e econômico do país.

Sinais de melhora, mas confiança em baixa

Milei
© LUIS ROBAYO/AFP via Getty Images

Em um cruzamento do bairro Boedo, um letreiro tenta vender otimismo: “Créditos, inflação em queda, o que você está esperando?”. A frase resume o dilema do governo Milei — bons indicadores macroeconômicos não bastam para reanimar a confiança dos argentinos.

Relatórios do Banco Mundial apontam uma retomada modesta do consumo e da atividade privada, com projeção de crescimento de 4,6% em 2025. Ainda assim, o humor nas ruas segue sombrio. Aposentados fazem filas em feiras que oferecem 15% de desconto, e protestos semanais diante do Congresso cobram pensões dignas.

Com as eleições legislativas de 26 de outubro se aproximando, o presidente enfrenta pressões crescentes. Denúncias de corrupção em seu entorno e o impacto das medidas de austeridade corroem o discurso de eficiência e transparência que o levou ao poder.

O apoio de Washington

Trump E Milei
© X – @TommyShelby_30

No meio da turbulência, veio um gesto salvador de Washington. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou que seu país “atuará rapidamente” para ajudar a Argentina, reconhecendo a “grave crise de liquidez” enfrentada pelo governo Milei.

O plano será oficializado em um encontro entre Donald Trump e Javier Milei em 14 de outubro, na Casa Branca. Washington promete “fazer tudo o que for necessário” para estabilizar a economia argentina — um impulso político crucial a menos de duas semanas das urnas.

Segundo o economista Aldo Abram, da Fundação Libertad y Progreso, o pacote inclui um swap de moedas de mais de US$ 20 bilhões, que permitirá ao Banco Central reforçar suas reservas e proteger o peso argentino. Além disso, haverá intervenções diretas no mercado para sustentar o câmbio e restaurar a confiança dos investidores.

Os interesses por trás do socorro

Para os defensores do plano, a ajuda americana é uma injeção de credibilidade que pode abrir novas portas de crédito e estimular o crescimento. Mas há quem veja o gesto com desconfiança.

O economista Hernán Letcher acredita que o apoio de Washington é estratégico e visa proteger seus próprios interesses. “Os EUA têm interesse em uma Argentina cara, que não concorra diretamente com sua agricultura”, diz. As exportações argentinas, competitivas e baratas, são um incômodo para o agronegócio norte-americano — e conter sua expansão seria também um ato de autopreservação econômica.

Milei entre a Casa Branca e a Casa Rosada

O respaldo de Trump e Bessent dá fôlego político a Milei em um momento delicado. Os mercados reagiram positivamente ao anúncio, mas ainda faltam detalhes concretos. Com o governo americano enfrentando um possível shutdown, a execução do plano pode demorar.

Para Hans-Dieter Holtzmann, da Fundação Friedrich Naumann, o verdadeiro desafio de Milei está em casa: “A superação das dificuldades atuais dependerá menos da Casa Branca e mais da Casa Rosada. Ele precisa convencer os argentinos de que as reformas são o caminho para uma recuperação duradoura.”

O futuro imediato da Argentina depende, assim, da combinação entre confiança interna e apoio externo. Se o “resgate de Washington” for apenas um impulso temporário, Milei terá de provar que o liberalismo que o levou ao poder é capaz de gerar algo mais do que promessas — e convencer os argentinos a, finalmente, acreditar no próprio país.

 

[ Fonte: DW ]

 

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