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Ciência

Portugal limita prescrição de medicamentos para emagrecimento após explosão de uso indevido

O governo português restringiu a prescrição de fármacos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro a apenas quatro especialidades médicas. A medida, que também abrange sensores de glicose, busca conter abusos, escassez e riscos à saúde em meio ao boom global desses medicamentos usados para diabetes e perda de peso.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O uso de medicamentos originalmente destinados ao tratamento da diabetes tipo 2, mas cada vez mais procurados para emagrecimento, levou Portugal a adotar medidas rígidas. A partir desta sexta-feira, apenas médicos de quatro especialidades poderão prescrever os populares análogos de GLP-1, como Ozempic e Wegovy. O objetivo é frear o uso inadequado, garantir o abastecimento e priorizar pacientes que realmente necessitam da terapia.

Quais médicos ainda podem prescrever

Segundo o decreto do Ministério da Saúde, apenas médicos das áreas de medicina interna, endocrinologia e nutrição, pediatria e medicina geral e familiar poderão prescrever os medicamentos. A decisão inclui também sensores de glicose, cuja procura disparou entre pessoas não diabéticas — desde praticantes de dieta e influenciadores digitais até treinadores de animais.

A procura massiva resultou em falhas no abastecimento das farmácias, prejudicando sobretudo os diabéticos, grupo para o qual esses medicamentos foram inicialmente desenvolvidos.

O sucesso e a polêmica dos fármacos

Ozempic
© Steve Christo/Corbis via Getty- Gizmodo

O Ozempic, da Novo Nordisk, é aprovado em Portugal apenas para o tratamento da diabetes tipo 2. Já o Wegovy (também da Novo Nordisk) e o Mounjaro, da Eli Lilly, têm aprovação para uso tanto contra a obesidade quanto contra a diabetes.

Mesmo com restrições, a popularidade dos injetáveis cresceu de forma explosiva. Apenas nos quatro primeiros meses de 2025, os portugueses gastaram cerca de 21 milhões de euros nesses medicamentos, segundo dados oficiais.

Com promessas rápidas de emagrecimento, os análogos de GLP-1 tornaram-se objeto de desejo em academias, clínicas de estética e até em circuitos paralelos, onde falsificações e venda ilegal preocupam as autoridades.

A justificativa do governo

Na publicação em Diário da República, o Ministério da Saúde destacou “denúncias recentes de acesso e uso indevido”, alertando que tais práticas colocam em risco a disponibilidade para os pacientes que mais precisam.

“O decreto pretende corrigir distorções e assegurar que o acesso a estas ferramentas essenciais seja adequado e justo”, explicou a pasta.

Além disso, os medicamentos dessa classe são reembolsados em até 90% pelo Estado português, enquanto os sensores de glicose podem ter cobertura de até 85%. O peso econômico para o sistema de saúde tornou-se outro argumento para regulamentar a prescrição.

O que dizem os especialistas

Para o presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, João Raposo, a medida é positiva, mas tardia:

“Chega tarde e pode não resolver totalmente o problema do acesso. Há prescrição anómala, mas tenho dúvidas se o volume fora dessas especialidades é realmente significativo”, afirmou em entrevista à agência Lusa.

Raposo reconheceu, no entanto, que a pressão do mercado criou uma situação insustentável. “Os diabéticos não se opõem ao uso para tratar obesidade. Mas há falta de acompanhamento clínico adequado. A saúde não pode estar submetida às leis do mercado, e infelizmente permitimos que isso acontecesse”, concluiu.

Mercado negro e risco de falsificação

A procura exagerada também alimentou um mercado paralelo. Autoridades portuguesas alertam para a existência de receitas falsificadas e comércio ilegal dos análogos de GLP-1, aumentando os riscos para quem consome medicamentos de origem duvidosa.

Esse cenário, segundo especialistas, reforça a necessidade de monitoramento rigoroso e de campanhas públicas de informação para evitar o uso indiscriminado.

O futuro da regulação

Portugal se junta a outros países europeus que adotaram medidas restritivas para conter o abuso desses fármacos. Enquanto a ciência avança para estudar os efeitos a longo prazo, as autoridades tentam equilibrar a demanda popular com a proteção dos pacientes que mais dependem dos medicamentos.

No centro da discussão, permanece um dilema: como regular o acesso a uma terapia que pode salvar vidas, mas que também se transformou em símbolo de consumo rápido em busca da perda de peso.

 

[ Fonte: Euronews ]

 

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