Abra uma lista atualizada dos países do mundo e procure entre Namíbia e Nepal. É possível que apareça um nome que você nunca tenha visto antes. Não se trata do nascimento de um novo Estado, nem de uma independência recente. Um dos menores países do planeta simplesmente decidiu mudar a maneira como quer ser chamado, recuperando uma palavra utilizada por sua própria população muito antes das interferências estrangeiras.
Naoero é o novo nome de um país que o mundo conhecia de outra maneira

O nome que agora aparece oficialmente é Naoero, uma pequena nação insular do Pacífico Sul conhecida durante décadas internacionalmente como Nauru.
A mudança foi aprovada por unanimidade pelo Parlamento em maio e posteriormente oficializada, segundo anunciou o presidente David Adeang. A possibilidade de realizar um referendo nacional chegou a ser considerada, mas acabou descartada.
Apesar da alteração, elementos importantes da identidade visual do país permanecerão iguais, incluindo sua bandeira.
Naoero possui apenas cerca de 20 quilômetros quadrados, dimensão que o coloca entre os menores países independentes do planeta.
Dentro das Nações Unidas, somente Mônaco possui território menor.
A população também é extremamente reduzida. Aproximadamente 11 mil pessoas vivem na ilha, tornando Naoero o segundo Estado-membro menos populoso da ONU, à frente apenas de Tuvalu, outra pequena nação insular do Pacífico.
Apesar do tamanho, sua história é longa.
A ilha é habitada há cerca de três mil anos, mas sua trajetória mudou profundamente com a chegada dos europeus a partir do século XVIII.
Nas décadas seguintes, diferentes potências estrangeiras exerceram controle sobre o território.
Alemanha, Austrália e Japão estiveram entre elas. Posteriormente, a ilha ficou sob administração vinculada à Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido.
A independência chegou em 1968, quando o país passou a existir internacionalmente como Nauru.
O novo nome, na realidade, é muito mais antigo que Nauru
Existe uma curiosidade importante por trás da mudança: para muitos habitantes, Naoero nunca foi exatamente um nome novo.
Além do inglês, a população utiliza a língua nativa nauruana. Nela, o território já era chamado de Naoero.
O nome Nauru teria se consolidado internacionalmente porque visitantes estrangeiros encontravam dificuldades para pronunciar a palavra utilizada pelos habitantes da ilha.
Alguns dos primeiros europeus foram ainda mais longe e simplesmente deram ao território outro nome: Pleasant Island, ou “Ilha Agradável”.
Ao propor a mudança constitucional, o governo explicou que a adoção oficial de Naoero permitiria representar de maneira mais fiel a herança cultural, o idioma e a identidade nacional.
Até mesmo o gentílico está sendo atualizado.
Em inglês, a tradicional denominação Nauruan está sendo substituída por dei-Naoero, reforçando a tentativa de aproximar a nomenclatura internacional daquela utilizada pela própria população.
A pronúncia pode variar conforme o idioma e o sotaque. Falantes de inglês britânico, australiano e americano, por exemplo, tendem a reproduzir o nome de maneiras diferentes.
Mais importante do que estabelecer uma pronúncia estrangeira única, porém, é compreender o significado político e cultural da escolha.
Uma mudança de poucas letras pode carregar séculos de história
Alterar o nome oficial de um país raramente é apenas uma questão cartográfica.
Em muitos casos, essas decisões fazem parte de processos mais amplos de recuperação da identidade depois de períodos de colonização.
Derek H. Alderman, professor de geografia da Universidade do Tennessee e especialista em nomes geográficos, explica que a independência política e econômica nem sempre elimina as marcas culturais e linguísticas deixadas pelas antigas potências coloniais.
Os nomes são uma dessas marcas.
Recuperar uma denominação anterior à colonização pode funcionar, portanto, como uma maneira simbólica de reafirmar a autonomia cultural e reconstruir a relação de uma sociedade com sua própria história.
No caso de Naoero, essa discussão também acontece em meio a uma trajetória econômica bastante particular.
Durante muitos anos, a economia da ilha dependeu fortemente da exploração de fosfato. O esgotamento progressivo dessas reservas obrigou o país a procurar novas fontes de receita.
Entre as alternativas adotadas esteve um controverso acordo relacionado ao processamento de pedidos de asilo da Austrália.
Agora, a mudança de nome acrescenta outro capítulo à história de uma pequena ilha que, apesar de ocupar poucos quilômetros quadrados no Pacífico, passou por sucessivos períodos de domínio estrangeiro e profundas transformações econômicas.
Outros países também decidiram recuperar ou modificar seus nomes
Naoero está longe de ser o único país a revisar a maneira como é chamado internacionalmente.
Em 2018, a Suazilândia adotou oficialmente o nome Eswatini, decisão apresentada como uma reafirmação da identidade nacional.
Mais recentemente, a Turquia passou a promover internacionalmente o uso de Türkiye, aproximando a denominação estrangeira da grafia utilizada no próprio idioma.
A história está repleta de exemplos semelhantes.
Dependendo da idade de um atlas ou globo terrestre, ainda é possível encontrar Pérsia, atual Irã; Sião, atual Tailândia; Birmânia, hoje amplamente identificada como Myanmar; Alto Volta, atual Burkina Faso; Ceilão, atual Sri Lanka; e Costa do Ouro, atual Ghana.
Os mapas, afinal, não são documentos imutáveis.
Fronteiras mudam, Estados desaparecem, novos países surgem e sociedades reconsideram nomes herdados de outros períodos históricos.
Naoero representa um exemplo particularmente curioso porque a mudança parece pequena. O país continua no mesmo ponto remoto do Pacífico, com a mesma bandeira e aproximadamente 11 mil habitantes.
Mas a palavra escolhida para identificá-lo recupera algo muito mais antigo: o nome pelo qual seus próprios habitantes já conheciam sua ilha antes que o restante do mundo decidisse chamá-la de outra maneira.
[Fonte: NB]