Imagine uma Terra tão fria que enormes áreas do planeta ficaram cobertas por gelo durante milhões de anos. Esse cenário, conhecido como hipótese da Terra bola de neve, já é um dos episódios mais extremos estudados pela ciência. Agora, pesquisadores encontraram um mecanismo que pode ter ajudado a intensificar esse congelamento. E ele não depende apenas da expansão do gelo: algo que estava preso na própria água do mar pode ter mudado completamente o cenário.
Quando o planeta começou a entrar em um ciclo de congelamento
Entre aproximadamente 750 e 580 milhões de anos atrás, a Terra passou por episódios de glaciação extraordinariamente intensos. Evidências preservadas em rochas de diferentes partes do mundo indicam que o gelo chegou a ocupar uma parcela gigantesca da superfície terrestre — e, segundo algumas interpretações, praticamente todo o planeta.
Uma das explicações mais conhecidas para esse fenômeno envolve o chamado efeito albedo.
O princípio é relativamente simples. A água do oceano é escura e absorve uma quantidade significativa da radiação solar. Já o gelo é muito mais claro e reflete grande parte dessa energia de volta para o espaço.
Quando o gelo aumenta, portanto, a Terra absorve menos calor. Isso provoca mais resfriamento, que favorece ainda mais formação de gelo. O resultado é um ciclo de retroalimentação que pode levar o planeta para um estado cada vez mais frio.
Mas pesquisadores da Universidade Ártica da Noruega, em Tromsø, perceberam que havia uma peça potencialmente importante faltando nessa equação.
Quando a água do mar congela, o gelo formado é composto principalmente por água. As substâncias dissolvidas, incluindo os sais, ficam concentradas na parcela líquida que permanece.
E, sob temperaturas suficientemente baixas, acontece algo surpreendente: parte desses sais também começa a formar cristais.

O detalhe que pode ter deixado a Terra ainda mais branca
O estudo liderado por Aksel Samuelsberg propõe que esses cristais de sal poderiam ter se acumulado sobre o gelo marinho em determinadas condições.
Existe um detalhe importante para entender como isso seria possível. Em ambientes extremamente frios, a camada superficial do gelo pode passar diretamente do estado sólido para vapor, em um processo chamado sublimação.
O gelo desaparece gradualmente, mas os cristais de sal permanecem na superfície.
Com o tempo, isso poderia criar uma espécie de crosta clara sobre o gelo marinho.
E essa superfície teria uma característica especialmente relevante para o clima: refletiria uma quantidade extraordinária de luz solar.
Experimentos anteriores indicaram que crostas de sal sobre gelo marinho muito frio podem refletir aproximadamente 93% da radiação solar que recebem. Para comparação, a neve fresca reflete cerca de 83%, enquanto o gelo marinho descoberto durante o processo de derretimento fica em torno de 67%.
Os pesquisadores chamaram esse mecanismo de retroalimentação de sal-albedo.
A lógica é semelhante ao ciclo tradicional do gelo, mas acrescenta uma etapa. Quanto mais baixa a temperatura, maior pode ser a cristalização de sal. Quanto mais sal se acumula, mais clara fica a superfície. E quanto mais clara ela se torna, menos energia solar é absorvida.
O resultado seria ainda mais resfriamento.
Dois caminhos para uma Terra bola de neve
Para descobrir o impacto desse mecanismo, os pesquisadores simularam diferentes condições climáticas estáveis.
Os resultados apontaram para a existência de dois estados possíveis de uma Terra bola de neve: um em que depósitos de sal se formariam sobre o gelo marinho nas regiões tropicais e outro em que esses depósitos não apareceriam.
A diferença entre os dois cenários foi significativa.
A presença de sal levou o modelo a um estado consideravelmente mais frio. Mais interessante ainda, quando o planeta partia de uma condição quente e sem gelo e começava a caminhar para uma glaciação global, a transição frequentemente terminava no cenário mais frio, com depósitos de sal.
A cristalização também não precisaria esperar pelas temperaturas mais extremas previstas inicialmente.
Alguns sais poderiam começar a se formar por volta de -8 °C, enquanto outros apareceriam perto de -23 °C. Essas temperaturas são bem menos extremas do que o limite de aproximadamente -36 °C utilizado no modelo.
Isso significa que o mecanismo poderia entrar em ação relativamente cedo durante o processo de congelamento.
Ainda assim, a descoberta não resolve o mistério de como a Terra entrou originalmente nesse estado.
Os próprios pesquisadores tratam o sal como um amplificador, e não como o gatilho inicial da glaciação. Também permanece incerto se essas crostas poderiam ter alcançado uma extensão suficiente para produzir o efeito previsto e por quanto tempo teriam permanecido intactas.
O modelo não considera completamente fatores como movimento do gelo marinho, nuvens, poeira e vento, que poderiam reduzir ou modificar o impacto.
Mesmo com essas limitações, a hipótese acrescenta uma peça inesperada à história de uma Terra quase completamente congelada: o gelo pode não ter sido apenas o protagonista desse resfriamento. A própria salmoura dos oceanos pode ter ajudado o planeta a ficar ainda mais branco, refletir mais energia e permanecer preso no frio por muito mais tempo.