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Tecnologia

Os chatbots aprenderam a nos ouvir bem demais e isso pode estar mudando nossa ideia de amizade

Milhões de pessoas já conversam com inteligências artificiais sobre assuntos íntimos. O hábito pode parecer apenas conveniente, mas revela uma transformação muito mais profunda na forma como buscamos companhia.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A qualquer hora, existe um interlocutor disposto a responder imediatamente. Ele não se cansa, não julga, não perde a paciência e tampouco precisa falar dos próprios problemas. Os chatbots conseguiram algo que durante décadas pertenceu à ficção científica: conversar conosco com surpreendente naturalidade. Mas a transformação mais importante talvez não esteja acontecendo nas máquinas, e sim naquilo que começamos a esperar das relações humanas.

Uma conversa que nunca termina por falta de paciência

Os chatbots aprenderam a nos ouvir bem demais e isso pode estar mudando nossa ideia de amizade
© Pexels

São três da manhã de uma terça-feira. Marina não consegue dormir e decide conversar sobre algo que ocupa seus pensamentos há vários dias. Nenhum amigo está acordado, mas a resposta chega imediatamente.

É detalhada, cordial e paciente. Não existe qualquer sinal de incômodo pelo horário, nenhuma pressa para encerrar o assunto. Marina pode repetir os mesmos argumentos, contradizer-se, voltar ao início ou permanecer na conversa durante quanto tempo desejar.

Do outro lado, porém, não há uma pessoa.

Existe um sistema desenvolvido para conversar com disponibilidade praticamente inesgotável. Ele não precisa dividir a atenção com problemas pessoais, não está cansado depois de um dia difícil e tampouco recupera uma discussão antiga justamente quando alguém procura acolhimento.

Durante grande parte do século XX, uma situação como essa teria parecido extraordinária.

Em 1950, o matemático britânico Alan Turing propôs seu famoso teste: se uma máquina pudesse manter uma conversa escrita sem que o interlocutor conseguisse distingui-la de uma pessoa, haveria motivos para considerá-la inteligente.

Décadas depois, essa experiência deixou os laboratórios e chegou aos celulares.

Mas talvez a transformação mais interessante não seja o fato de as máquinas terem aprendido a conversar como pessoas. É que as pessoas começaram a conversar com elas como se houvesse alguém do outro lado.

Uma pesquisa mostra até onde essa ideia já chegou

Uma pesquisa publicada pela agência japonesa Jiji Press oferece uma dimensão desse fenômeno.

Entre os japoneses entrevistados, 30,8% afirmaram utilizar habitualmente alguma ferramenta de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT. Mais surpreendente, porém, foi outra resposta: 24,9% acreditam que sistemas mais avançados poderão algum dia substituir amigos ou familiares.

O dado chama atenção porque a ideia de um possível substituto afetivo já parece fazer parte do imaginário social, inclusive antes que a tecnologia tenha sido plenamente incorporada ao cotidiano.

Encontrar companhia, atenção ou algum tipo de conforto em uma máquina deixou de parecer uma hipótese exclusivamente futurista.

Isso não significa necessariamente que a inteligência artificial esteja destruindo relações humanas. Existe outra possibilidade mais complexa: ela pode estar ocupando espaços que já estavam vazios.

Solidão, dificuldades emocionais e o desaparecimento gradual de ambientes comunitários criaram condições favoráveis para uma tecnologia capaz de oferecer exatamente aquilo que se tornou escasso: atenção imediata.

Estudos recentes começam a investigar as consequências dessa relação. Algumas evidências sugerem que conversar com uma IA pode proporcionar alívio temporário, enquanto utilizá-la frequentemente como substituta do contato humano pode ampliar o isolamento em determinados grupos.

O risco parece especialmente relevante para pessoas que já possuem poucas relações próximas.

Nenhum amigo consegue competir com disponibilidade infinita

Existe uma vantagem estrutural que coloca qualquer ser humano em desvantagem diante de um chatbot: pessoas possuem necessidades próprias.

Um amigo também enfrenta problemas e nem sempre terá disposição para ouvir. Uma relação amorosa acumula tensões. Famílias carregam histórias, expectativas e conflitos que inevitavelmente interferem nas conversas.

A inteligência artificial não traz nenhuma dessas bagagens.

Ela pode estar disponível às três da manhã ou durante o almoço. Não fica ofendida, não precisa dormir, não exige reciprocidade e não interrompe uma conversa para explicar que também teve um dia péssimo.

Isso cria uma relação profundamente assimétrica.

Não significa que máquinas tenham aprendido a gostar de alguém melhor ou a oferecer afeto sem condições. Elas sequer precisam compreender uma angústia da mesma maneira que uma pessoa para produzir no usuário a sensação de estar sendo ouvido.

E essa sensação pode ser poderosa.

A comparação também é injusta porque relações humanas nunca foram feitas para oferecer atenção perfeita. Elas funcionam justamente por meio da reciprocidade, das diferenças, das necessidades e até dos pequenos atritos.

O espaço ocupado pela IA já estava desaparecendo

Os chatbots aprenderam a nos ouvir bem demais e isso pode estar mudando nossa ideia de amizade
© Unsplash

Talvez seja impossível compreender a ascensão dos chatbots como companhia sem observar aquilo que desapareceu ao redor deles.

Clubes de bairro, conversas prolongadas depois das refeições, amigos encontrados espontaneamente na rua e espaços capazes de reunir diferentes gerações foram perdendo importância em uma vida cada vez mais organizada em torno de agendas apertadas e telas individuais.

As próprias cidades oferecem menos oportunidades para encontros casuais, enquanto grande parte do trabalho, do entretenimento e até da socialização acontece no mesmo dispositivo.

É justamente ali que a inteligência artificial aparece.

Ela não exige combinar horários, deslocamentos ou disponibilidade emocional simultânea. Basta abrir um aplicativo e começar a escrever.

Para alguém cansado, solitário ou simplesmente sem vontade de explicar uma situação desde o início para outra pessoa, conversar com um chatbot pode parecer muito mais simples do que telefonar para um amigo e esperar que ele esteja disponível.

A tecnologia transforma uma experiência tradicionalmente imprevisível, encontrar alguém disposto a ouvir, em algo praticamente disponível sob demanda.

Talvez o risco esteja no que começamos a esperar das pessoas

Um chatbot dificilmente substitui de uma vez uma amizade, uma família ou um relacionamento amoroso. A mudança pode acontecer de maneira muito mais discreta.

Primeiro, ele substitui alguns pequenos gestos que essas relações tradicionalmente ofereciam.

Escutar um problema. Dar uma resposta. Permanecer disponível. Ajudar alguém a organizar os pensamentos durante uma madrugada difícil.

Uma relação humana, porém, exige muito mais. É necessário aceitar silêncios, administrar contradições, oferecer atenção quando não é conveniente e reconhecer que a outra pessoa também possui necessidades.

O chatbot aparece quando é chamado e desaparece quando a janela é fechada.

Talvez seja justamente aí que esteja a questão mais inquietante dessa revolução. O problema não é necessariamente a inteligência artificial estar ficando humana demais.

Pode ser que estejamos começando a adaptar nossas expectativas afetivas àquilo que uma máquina consegue oferecer com enorme eficiência.

Porque receber uma resposta imediata não significa ser importante para alguém. Uma frase acolhedora não equivale necessariamente a experimentar empatia. E ter sempre um interlocutor disponível para ouvir não significa construir uma relação.

Durante décadas, perguntamos quando uma máquina conseguiria conversar como nós. Poucos imaginaram que, quando isso finalmente acontecesse, surgiria uma pergunta ainda mais difícil: se continuaríamos capazes de perceber claramente a diferença entre ser ouvido e ser querido.

[Fonte: R3]

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