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Ciência

Uma frase dita há 2.400 anos por Hipócrates ganha força à medida que a ciência desvenda o intestino

Uma antiga máxima atribuída a Hipócrates está sendo reavaliada pela ciência moderna. Pesquisas revelam como a microbiota intestinal pode influenciar o coração, o cérebro, o metabolismo e o sistema imunológico.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há mais de dois milênios, Hipócrates teria afirmado que todas as doenças começam no intestino. Durante séculos, a frase foi vista como uma curiosidade histórica, sem base científica sólida. Hoje, porém, avanços em áreas como genômica, imunologia e neurogastroenterologia estão mostrando que o intestino exerce uma influência muito maior sobre o organismo do que se imaginava. Embora a afirmação não seja totalmente literal, ela está mais próxima da realidade científica do que nunca.

O intestino deixou de ser apenas um órgão da digestão

Uma frase dita há 2.400 anos por Hipócrates ganha força à medida que a ciência desvenda o intestino
© Unsplash

Quando Hipócrates viveu, no século V a.C., não existiam microscópios, exames laboratoriais nem qualquer conhecimento sobre bactérias.

Mesmo assim, o médico grego acreditava que muitos problemas de saúde tinham origem no abdômen.

Durante muito tempo, essa ideia permaneceu apenas como uma observação filosófica.

Nos últimos anos, entretanto, ela ganhou um novo significado graças às pesquisas sobre o chamado eixo microbiota-intestino-organismo.

Hoje, os cientistas sabem que o intestino abriga trilhões de microrganismos capazes de produzir substâncias que influenciam diferentes órgãos e sistemas do corpo.

Além disso, o sistema digestivo possui uma extensa rede de neurônios conhecida como sistema nervoso entérico, frequentemente chamado de “segundo cérebro”.

Essa estrutura mantém comunicação constante com o cérebro e ajuda a explicar por que situações de estresse costumam provocar sintomas como náusea, dor abdominal e alterações na digestão.

A ciência já consegue identificar os mecanismos por trás dessa influência

O grande avanço recente não foi apenas perceber que existe uma relação entre intestino e doenças.

Os pesquisadores começaram a entender como essa comunicação acontece.

Estudos identificaram, por exemplo, que determinadas bactérias intestinais produzem uma molécula chamada imidazol propionato.

Segundo pesquisas publicadas na revista Nature, essa substância pode alterar a sinalização da insulina, aumentar processos inflamatórios e contribuir para o desenvolvimento da aterosclerose, doença caracterizada pelo endurecimento das artérias.

Os pesquisadores também investigam seu potencial como biomarcador para identificar precocemente o risco cardiovascular, antes mesmo do surgimento dos sinais clínicos tradicionais.

Outros trabalhos mostram que a microbiota participa da produção e da regulação dos ácidos biliares, compostos importantes para controlar o colesterol e manter o equilíbrio metabólico do organismo.

Essas descobertas reforçam a ideia de que pequenas alterações na comunidade de bactérias intestinais podem repercutir em órgãos muito distantes do sistema digestivo.

A comunicação entre intestino e cérebro também ganhou destaque

Outra das áreas que mais avançaram nos últimos anos é o estudo do eixo intestino-cérebro.

Pesquisas demonstram que essa comunicação ocorre nos dois sentidos.

O cérebro influencia o funcionamento do intestino, enquanto a microbiota também envia sinais capazes de afetar o sistema nervoso central.

Experimentos em animais indicaram que determinadas células do sistema imunológico presentes no intestino conseguem migrar até o cérebro durante fases iniciais do desenvolvimento, interferindo em aspectos do comportamento.

Outros estudos sugerem que os microrganismos intestinais participam da regulação dos ritmos circadianos e da produção de hormônios relacionados ao estresse.

Também existem pesquisas indicando que combinações específicas de fibras prebióticas podem favorecer o desempenho cognitivo em pessoas acima dos 60 anos, abrindo novas possibilidades para preservar a saúde cerebral durante o envelhecimento.

Embora muitos desses resultados ainda estejam sendo investigados, eles mostram que a microbiota exerce influência muito além da digestão.

Nem tudo está comprovado, e os cientistas pedem cautela

Apesar do entusiasmo, os especialistas alertam que ainda há muitas perguntas sem resposta.

Nem toda estratégia voltada para modificar a microbiota produz os resultados esperados.

Um dos ensaios clínicos mais rigorosos publicados recentemente mostrou que o transplante de microbiota fecal não conseguiu induzir remissão clínica em pacientes adultos com doença de Crohn após oito semanas de tratamento.

Outro ponto que desperta preocupação é a popularização dos testes comerciais de microbioma.

Um consenso internacional ressaltou que esses exames ainda apresentam limitações importantes e que seus resultados devem ser interpretados por profissionais de saúde, evitando conclusões precipitadas.

Pesquisas com pessoas que sofrem de síndrome do intestino irritável também indicam que fatores psicológicos e expectativas individuais podem influenciar significativamente os sintomas atribuídos a determinados alimentos.

Um universo microscópico que ainda está sendo descoberto

O intestino humano abriga mais de mil espécies diferentes de bactérias, formando um ecossistema extremamente complexo.

Quando esse equilíbrio é alterado — condição conhecida como disbiose — estudos já relacionaram o fenômeno a doenças inflamatórias intestinais, distúrbios metabólicos, alterações neurológicas e problemas cardiovasculares.

Em Berlim, pesquisadores trabalham atualmente na construção de um atlas espacial da microbiota intestinal para identificar exatamente onde surgem processos inflamatórios e como eles afetam outras partes do organismo.

O objetivo é desenvolver tratamentos personalizados, capazes de levar em conta a composição específica da microbiota de cada paciente.

Mais de 2.400 anos depois, a famosa frase atribuída a Hipócrates continua sendo debatida, inclusive quanto à sua autoria exata.

Ainda assim, a essência da ideia encontra cada vez mais respaldo na ciência moderna: o intestino desempenha um papel central na saúde humana, embora esteja longe de ser a única origem de todas as doenças.

[Fonte: La Opinion]

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