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A Espanha plantou milhões de eucaliptos para produzir madeira barata. Quase 90 anos depois, a ciência confirma o preço ambiental dessa escolha

Plantado em larga escala para abastecer a indústria de papel, o eucalipto transformou a paisagem de regiões inteiras da Espanha. Agora, um estudo revela que essas florestas funcionam como verdadeiros "desertos verdes", abrigando muito menos biodiversidade do que as matas nativas e colocando em risco o equilíbrio dos ecossistemas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, o eucalipto foi tratado como uma solução perfeita para reflorestar áreas degradadas e impulsionar a produção de madeira. Cresce rapidamente, adapta-se a diferentes condições climáticas e oferece retorno econômico em poucos anos. Por isso, a espécie australiana passou a ocupar milhões de hectares na Península Ibérica, especialmente no noroeste da Espanha. Mas o sucesso econômico veio acompanhado de um custo ambiental que agora está sendo medido com mais precisão. Um estudo realizado pela Universidade de Santiago de Compostela, em parceria com o Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC), mostra que essas plantações sustentam uma biodiversidade muito menor do que as florestas nativas.

O eucalipto dominou parte das florestas espanholas

Eucalipto
© Casey Horner – Unsplash

A expansão do eucalipto começou de forma tímida no século XIX, quando a árvore foi introduzida na Península Ibérica com fins ornamentais e medicinais. No entanto, sua verdadeira explosão ocorreu a partir da década de 1940, durante os programas de reflorestamento promovidos pelo regime franquista.

A lógica era simples: como o eucalipto cresce muito mais rápido do que as espécies nativas, ele se tornou a matéria-prima ideal para abastecer a indústria de celulose e papel.

Hoje, em regiões como a Galícia e parte da costa cantábrica, o eucalipto ocupa cerca de 30% da área florestal. Em alguns locais, tornou-se a paisagem predominante, substituindo ecossistemas que levaram milhares de anos para se formar.

Um “deserto verde” para as aves

Aves 3
© Pexels – TYPHOON BRO.

Para entender os impactos dessa transformação, os pesquisadores analisaram 240 áreas compostas por florestas atlânticas nativas e plantações de eucalipto dentro do Parque Natural das Fragas do Eume, um dos últimos grandes remanescentes de mata atlântica costeira da Península Ibérica.

O resultado foi claro: quanto maior a presença de eucaliptos, menor a diversidade e a abundância de aves.

As espécies mais prejudicadas são justamente aquelas que desempenham papéis fundamentais no equilíbrio ambiental, como aves insetívoras e as que utilizam cavidades em árvores antigas para fazer seus ninhos, entre elas os pica-paus e chapins.

O problema é que o eucalipto oferece poucos insetos para alimentação, praticamente não desenvolve um sub-bosque rico em vegetação e costuma ser cortado antes de envelhecer o suficiente para formar ocos naturais onde essas aves possam se reproduzir.

O impacto vai muito além dos pássaros

A redução das populações de aves representa apenas uma parte do problema.

Esses animais ajudam a controlar pragas de insetos, dispersam sementes e funcionam como importantes indicadores da saúde dos ecossistemas. Quando desaparecem, diversos processos naturais também são afetados.

Além disso, o eucalipto produz substâncias químicas capazes de dificultar o crescimento de outras plantas ao seu redor, um fenômeno conhecido como alelopatia. Com menos arbustos e vegetação nativa, diminuem também os insetos que servem de alimento para aves e outros animais.

Os impactos chegam inclusive aos rios. As folhas da árvore liberam compostos e óleos que alteram a qualidade da água, prejudicando insetos aquáticos e anfíbios que sustentam parte da cadeia alimentar desses ambientes.

Economia e conservação entram em conflito

Apesar das evidências científicas, eliminar o eucalipto não é uma solução simples.

Na Galícia, toda a cadeia produtiva da madeira e da celulose movimenta aproximadamente 2,5 bilhões de euros por ano e gera mais de 19 mil empregos, segundo o relatório A Cadea Forestal-Madeira de Galicia 2025.

Esse peso econômico explica por que uma recomendação apresentada em 2017 pelo comitê científico do Ministério para a Transição Ecológica, que sugeria incluir o eucalipto no catálogo espanhol de espécies exóticas invasoras, acabou não sendo adotada.

Situação semelhante ocorre em Portugal, onde o eucalipto já ocupa mais de 800 mil hectares e também é alvo de críticas devido à sua relação com grandes incêndios florestais.

A solução pode ser mais simples do que parece

Os próprios autores do estudo deixam claro que não defendem a erradicação das plantações.

A proposta é criar faixas de vegetação nativa dentro das áreas cultivadas, permitindo que arbustos, insetos e aves voltem a ocupar esses espaços. Trata-se de uma medida relativamente barata, que já apresentou resultados positivos em outros países europeus.

Os pesquisadores também reconhecem que o estudo foi realizado em apenas uma área protegida e teve como foco as aves, o que significa que outras espécies podem responder de maneira diferente à presença do eucalipto.

Ainda assim, a principal conclusão permanece: o problema não está na existência da árvore em si, mas na substituição de grandes extensões de florestas nativas por monoculturas de eucalipto. Quando uma única espécie passa a dominar a paisagem, o preço para a biodiversidade pode ser muito maior do que o benefício econômico imediato.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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