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Ciência

A Terra entrou em uma temporada de terremotos? A resposta dos sismólogos surpreende

Grandes terremotos registrados em diferentes países em poucas semanas despertaram uma dúvida inquietante: a Terra estaria atravessando uma fase de atividade sísmica fora do normal?
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Tempo de leitura: 5 minutos

Venezuela, Colômbia e Indonésia estão entre os países atingidos recentemente por terremotos importantes. Quando eventos dessa magnitude aparecem nas notícias em intervalos tão curtos, é quase inevitável imaginar que exista alguma conexão entre eles. Talvez uma espécie de “temporada de terremotos” ou uma fase particularmente agitada do planeta. A geologia, entretanto, oferece uma explicação menos alarmante e muito mais interessante para essa aparente sequência.

A coincidência de terremotos cria uma impressão enganosa

A Terra entrou em uma temporada de terremotos? A resposta dos sismólogos surpreende
© Unsplash

Apesar da sensação provocada por vários grandes tremores registrados em pouco tempo, os sismólogos afirmam que não existe evidência científica de uma temporada global de terremotos.

Também não há motivo para assumir que sismos ocorridos em continentes diferentes estejam automaticamente relacionados apenas porque aconteceram com alguns dias ou horas de diferença.

Arturo Belmonte, pesquisador da Universidade de Concepción, no Chile, explica que não existe um padrão global conhecido capaz de conectar terremotos registrados em regiões muito distantes.

A maioria desses eventos ocorre justamente em áreas tectonicamente ativas, onde terremotos fazem parte do comportamento esperado da crosta terrestre.

Arancha Izquierdo, sismóloga da Rede Sísmica Nacional da Espanha, aponta outro elemento importante: nossa própria percepção.

Quando passam meses sem terremotos superiores a magnitude 7, dificilmente alguém se pergunta por que o planeta está tão tranquilo. Mas basta que vários tremores fortes aconteçam no mesmo mês para começarmos a procurar uma explicação comum.

A estatística ajuda a entender por que essas coincidências podem acontecer.

Cerca de 15 terremotos de magnitude 7 acontecem todos os anos

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© Unsplash

Suzan Van der Lee, professora de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade Northwestern, lembra que aproximadamente 15 terremotos de magnitude 7 ou superior são registrados no planeta todos os anos.

Quando o limite é reduzido para magnitude 6, o número aumenta para cerca de 150 eventos anuais.

Com tantos terremotos ocorrendo ao longo de um ano, não é estatisticamente impossível que alguns dos mais fortes acabem concentrados em uma única semana.

Há ainda outro fator que intensifica essa impressão: atualmente, qualquer grande terremoto pode virar notícia mundial praticamente em tempo real.

Décadas atrás, um tremor ocorrido do outro lado do planeta poderia demorar muito mais para chegar ao conhecimento de grande parte da população. Hoje, alertas, vídeos e imagens aparecem nas redes sociais poucos minutos depois.

Países como Japão, Indonésia, México e Chile, além da região do Caribe, registram atividade sísmica constantemente. A maioria desses eventos simplesmente não possui magnitude ou consequências suficientes para ganhar repercussão internacional.

Mas existe outra dúvida inevitável: um terremoto forte pode provocar outro?

Um terremoto na Ásia pode causar outro na América?

De maneira geral, a resposta é não.

Van der Lee analisou, por exemplo, terremotos registrados no mesmo dia na Venezuela, no Japão e nos Estados Unidos. Embora todos estejam relacionados à dinâmica das placas tectônicas do planeta, aconteceram em limites tectônicos distintos e foram provocados por processos geológicos independentes.

Segundo Izquierdo, o conhecimento científico atual não oferece motivos para relacionar automaticamente terremotos distantes simplesmente porque ocorreram em um intervalo curto.

Isso não significa, entretanto, que terremotos nunca possam estar conectados.

A diferença está principalmente na distância.

Quando duas falhas ou segmentos geológicos estão próximos, a ruptura provocada por um terremoto pode alterar as tensões existentes nas estruturas vizinhas. Dependendo das condições, isso pode favorecer outro tremor.

Foi justamente uma situação desse tipo que chamou a atenção recentemente na Venezuela.

Dois terremotos separados por apenas um minuto mostram quando existe conexão

Dois grandes terremotos registrados na Venezuela com aproximadamente um minuto de diferença podem representar aquilo que os especialistas chamam de dupleto sísmico.

Nesse fenômeno, dois terremotos de magnitude semelhante acontecem muito próximos tanto geograficamente quanto no tempo, possivelmente dentro do mesmo sistema de falhas.

O primeiro tremor pode modificar ligeiramente as tensões existentes no local e contribuir para desencadear o segundo.

Também existem as conhecidas réplicas, que podem surgir horas ou dias depois do terremoto principal. Na Indonésia, por exemplo, uma forte réplica foi registrada dois dias depois de um dos eventos recentes.

Belmonte explica que as primeiras 24 horas depois de um grande terremoto exigem atenção justamente porque a liberação de energia pode redistribuir tensões para segmentos próximos que já estavam sob pressão.

A diferença fundamental é que esse mecanismo funciona em escala regional ou local. Ele não significa que um terremoto na Venezuela possa desencadear diretamente outro do outro lado do planeta.

E mesmo países vizinhos podem experimentar terremotos provocados por mecanismos bastante diferentes.

Venezuela e Colômbia ajudam a entender como isso funciona

Embora Venezuela e Colômbia façam parte de uma região tectonicamente complexa, a origem dos terremotos registrados em cada território não precisa ser a mesma.

Grande parte da atividade sísmica venezuelana está associada à interação entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana.

Nesse sistema existem falhas nas quais enormes blocos rochosos se deslocam predominantemente de maneira horizontal uns em relação aos outros.

Na Colômbia, por outro lado, uma parcela importante da atividade sísmica está relacionada à subducção, processo no qual uma placa tectônica oceânica mergulha sob outra.

São mecanismos diferentes dentro do gigantesco quebra-cabeça formado pelas placas que compõem a superfície terrestre.

Por isso, proximidade temporal ou até geográfica não basta para concluir que dois terremotos fazem parte do mesmo evento.

A Terra não possui uma “temporada de terremotos”

A conclusão dos especialistas é menos assustadora do que a sequência recente de notícias pode fazer parecer.

Não existe evidência de uma temporada sísmica global, nem de um ciclo capaz de explicar por que grandes terremotos deveriam se concentrar em determinada época do ano.

O que existe é um planeta geologicamente ativo, com regiões onde terremotos acontecem regularmente e falhas próximas capazes de produzir sequências locais.

Também existe um cérebro humano extremamente eficiente em encontrar padrões, inclusive quando estamos diante de acontecimentos independentes.

Quando vários terremotos importantes aparecem nas manchetes quase simultaneamente, a coincidência parece extraordinária. Para a geologia, porém, ela pode ser apenas uma consequência perfeitamente possível de viver sobre um planeta cuja superfície nunca deixou realmente de se mover.

[Fonte: Yahoo]

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