Garimpo chega às bordas do território indígena
Relatos feitos pelos Panará indicam avanço rápido e silencioso do garimpo ilegal. Tratores escondidos sob a mata, clareiras abertas às pressas, água já contaminada. Segundo o povo indígena, a atividade se aproxima do limite da Terra Indígena Panará e da TI Baú, onde vivem também os Kayapó. O medo é claro: sem intervenção do governo, a invasão é questão de tempo.
As denúncias são reforçadas por uma nota técnica inédita do Instituto Socioambiental (ISA), que aponta a expansão contínua do garimpo desde 2024 e seu agravamento em 2025. Os dados vêm do Sirad-X, sistema de monitoramento remoto que acompanha desmatamento e atividades ilegais na Bacia do Xingu.
Terra do Meio: uma área protegida sob pressão

A Bacia do Xingu cobre cerca de 51 milhões de hectares no Pará e Mato Grosso, reunindo florestas densas, áreas de várzea e Cerrado. Dentro dela está a chamada Terra do Meio, um mosaico de unidades de conservação e terras indígenas entre os rios Xingu e Iriri.
O nome não é novo nos debates ambientais. Em 2012, durante a Rio+20, Brasil e União Europeia firmaram um acordo para investir 11 milhões de euros na consolidação de áreas protegidas da Terra do Meio — mais de 22 milhões de hectares, área maior que o Paraná. O acordo foi assinado, mas nunca executado. Hoje, o vazio deixado por essa ausência de políticas públicas é ocupado por crimes ambientais.
Estradas ilegais abrem caminho para o garimpo
Em dezembro, analistas do ISA identificaram um novo ramal ilegal de 19 quilômetros, aberto em apenas dois meses dentro da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. A estrada conecta uma malha clandestina antiga ao garimpo conhecido como Pesquisa, reativado com força.
Antes, o acesso era feito apenas por igarapé. Agora, com estrada aberta na floresta densa, há risco real de entrada de maquinário pesado, ampliando a devastação. A reserva já sofreu historicamente com extração ilegal de madeira e hoje soma novos vetores de pressão.
Esse avanço tem impacto direto no rio Iriri, pois o Riozinho do Anfrísio é seu afluente. Mesmo quando não estão na mesma microbacia — como Curuá e Riozinho — os danos se somam no curso principal.
Água barrenta, peixe contaminado
Ribeirinhos relatam um sinal visível: a mudança da cor da água. Na foz do rio Curuá, o contraste é claro — água barrenta misturada ao Iriri ainda limpo. Esse fenômeno indica assoreamento e provável presença de sedimentos contaminados.
Segundo o ISA, foram identificados 136 igarapés e rios afluentes do Curuá com atividade garimpeira ativa. É um número alarmante. E ele traz um velho fantasma: o mercúrio.
Mercúrio: a ameaça invisível
O mercúrio é usado no garimpo para separar o ouro do sedimento. Sem controle, ele vai direto para a água. A contaminação não para no rio: entra na cadeia alimentar.
Estudos conduzidos com apoio da Universidade Federal do Pará analisaram peixes carnívoros dos rios Curuá e Baú. O resultado foi preocupante: todas as amostras apresentaram concentrações elevadas de mercúrio, algumas acima dos limites de segurança da OMS e da Anvisa.
Mesmo quando os níveis ficam abaixo do teto oficial, o risco persiste. Povos indígenas consomem peixe diariamente, o que leva ao acúmulo progressivo do metal no organismo. Os efeitos podem surgir no médio e longo prazo, afetando sistema nervoso, desenvolvimento infantil e saúde reprodutiva.
O alerta existe desde pelo menos 2019. Em 2025, o problema não diminuiu — se espalhou.
Fiscalização fragilizada e ano eleitoral
Ibama, Funai e ICMBio realizam operações pontuais, mas enfrentam limitações. A extensão da área, a logística complexa e a pressão política tornam o combate ineficaz diante da velocidade da destruição. Em ano eleitoral, o cenário tende a piorar: menos fiscalização, mais tolerância informal.
Enquanto isso, garimpos se espalham pelas bacias hidrográficas, conectados por estradas ilegais, pistas clandestinas e rios contaminados.
Um alerta que não é novo — mas agora é urgente
A corrida do ouro na Amazônia não começou em 2025. O que mudou foi a escala e a proximidade das áreas mais preservadas. O avanço sobre o Iriri e a Terra do Meio mostra que nem mesmo os últimos refúgios estão seguros.
Sem políticas estruturais, acordos cumpridos e fiscalização contínua, o que hoje é alerta pode virar colapso ambiental e humanitário. O ouro voa baixo, rápido — e deixa marcas profundas no caminho.
A pergunta agora não é se o Iriri será afetado. É quanto tempo ainda resta até que a destruição se torne irreversível.
[Fonte: Correio Braziliense]